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sexta-feira, 29 de março de 2013

Só obrigações





Enquanto saía no noticiário a aprovação em 1º turno no Senado Federal da PEC das Domésticas, que vai igualar seus direitos trabalhistas à outras profissões, permitindo que sejam respeitadas as 8 horas de trabalho, pagamento de hora extra e adicional noturno, bem como recolhimento de FGTS, dentre o total de 16 benefícios, eu ouvia a seguinte pérola: “Ninguém mais vai poder contratar. É um absurdo. Gente que vem trabalhar na casa dos outros não pode reclamar nem ter os mesmos direitos porque não tem qualificação”. Nem vou entrar no mérito dessa postura equivocada e escravocrata do meu interlocutor porque, primeiro, parto do princípio de que não deveria existir discriminação a nenhuma classe trabalhadora. A burguesia brasileira é engraçada. Não consegue lavar as próprias cuecas, mas também não sabe reconhecer o valor desse tipo de trabalho.

Mas, se por um lado a conquista de direitos da classe de trabalhadores domésticos é algo necessário, pensando sobre a questão da educação e da “qualificação profissional”, tenho cá minhas dúvidas de que estejamos a caminho de grandes conquistas. Porque assim como tem gente que defende que empregada doméstica só deveria ter o “direito” de ser explorada e escravizada, os grupos de dominação política e econômica do país alimentam há anos empecilhos e “muralhas” para que a grande maioria dos brasileiros não tenha realmente acesso à educação de qualidade, assim como também à formação de sua cidadania e, por conseguinte, de criar senso crítico para exigir seus direitos básicos, criar cidadania política e autonomia inte-lectual para conseguir ler a realidade e se organizar enquanto sociedade com poder de transformação desses velhos paradigmas. Tenho certeza de que parece até que eu estou falando grego, tamanha a distância entre esses conceitos e a realidade educacional brasileira.

Pode até ser que uma ou outra pessoa não busque qualificação profissional por opção e acomodação. Mas, a imensa maioria não o fez ou não o faz simplesmente porque não tem chances.

Suponhamos que o direito à educação fundamental já esteja consolidado. Porém, quando chegamos ao ensino médio, a coisa muda de figura. Segundo o Censo do Inep/MEC de 2011, são quase 8,4 milhões de alunos matriculados nessa fase do aprendizado. Desses, 87% se encontra no ensino público estadual ou municipal. A maior parte deles estuda à noite, o que significa que, provavelmente já trabalha. Aliando-se aos baixos salários e acúmulo de horas de trabalho dos professores eu pergunto: como fica o aprendizado e a “qualificação”? Como é possível chegar ao Ensino Superior? Apenas 9% dos jovens que cursam ensino médio chegam à universidade (Pnad). Não se engane, caro leitor, aqueles que reclamam da falta de qualificação, estão reproduzindo a lógica cruel de que gente pobre não tem direito, só obrigação.


Artigo publicado no Novo Jornal em 26 de março de 2013


3 comentários:

cegê disse...

#esperneiaclassemedia

Angelo Augusto Paula disse...

Dentro de toda essa discussão, de todas as opiniões que li ou escutei, foi você quem melhor traduziu o que penso a respeito. Sou profissional de saúde da família e educador de nível superior. Lido constantemente com a "dislexia" do método educacional de nosso país, que já se inicia capenga, barganhando a consciência de suas deficiências com equivocadas benesses de acesso ao ensino superior. O cidadão de hoje não desenvolve o senso crítico, em sua maioria. A educação, os diplomas, o conhecimento não são mais resultados de méritos pessoais, mas, sim, transformados em mercadorias que resultam em profissionais que entram no mercado como reprodutores de técnicas, sem o real compromisso com sua suposta vocação.
É a nossa história brasileira, em que a grande descoberta das Índias não foi o pau-brasil ou os minérios da terra. Foi, sim, que conhecimento é poder e que a contínua alienação e castração do senso crítico da maioria garante a perpetuação do cabresto populacional, da vida de gado. Uma passagem sua me chamou especial atenção:

"A burguesia brasileira é engraçada. Não consegue lavar as próprias cuecas, mas também não sabe reconhecer o valor desse tipo de trabalho."

Traduz? Acho que fez até melhor: deu identidade e CPF a nossa realidade.

beijão e parabéns pela coerência.

Mme. S. disse...

Obrigada, Ângelo, você me faz um bem danado com esse feedback tão bem estruturado e escrito. É bom encontrar ressonância num cara tão eloquente. Besitos. S.