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terça-feira, 16 de abril de 2013

As melhores coisas da vida



Será que na tentativa de ser mais amplo, dá para estreitar mais as paredes das coisas que realmente importam? Eu penso que sim. Nunca vi um amigo meu radiante por mais de duas semanas porque comprou um carro novo. Mas vi aquele mesmo não cabendo em si porque a afilhada disse subitamente: "padinho, eu li amo", enquanto ele descia as escadas, depois de já ter se despedido dela. E, mesmo quando ela tiver 18 anos, ele vai se lembrar desse momento, como um dos mais valiosos.

Graham Hill, criador do Life Edited, já teve muito espaço físico e muitas coisas palpá-veis. Mas nunca era o suficiente. Talvez ele até nem precisasse tanto de tudo. Vive num apartamento de 40 metros quadrados, tem seis camisetas e 10 tigelas para servir comida. Deixou para trás um grande amor com Olga. Mas, não antes de viver muitas histórias com ela em cidades como Bangkok, Buenos Aires e Toronto, com a bagagem vazia de utensílios e repleta de utilidades para além dos objetos e com a seta voltada para a vida. E, no artigo Living With Less. A Lot Less (“Vivendo com menos. Muito menos”, tradução livre minha), disse: "Intuitivamente, sabemos que as melhores coisas da vida não são as coisas, e que as relações, experiências e trabalho significativo são as bases de uma vida feliz".

Replico essa história aqui porque encontro ressonância nela em minhas próprias convicções das coisas que realmente importam. Tem dias que abro o guarda-roupa e penso: nem tenho tantos braços, nem tantas pernas, nem tanto corpo assim para dar conta de vestir todas essas peças. E essa certeza me dá uma noção muito nítida de finitude e do que realmente eu quero deixar para trás. E não são roupas. Mas, antes que o fim chegue, tem o meio, os lados, o caminho ora estreito, ora largo. E eu quero a liberdade como meta. Eu quero a liberdade como seta indicativa para as melhores coisas da vida. Eu posso não ter toda a coragem do Hill, mas eu tenho vontade. E, quando eu me lembro que as melhores coisas da vida em sua grande maioria não têm preço, ou os preços são meros coadjuvantes. Eu sinto que estou no meu caminho.

Eu quero cada vez mais em mim a indigência das ambições mesquinhas. Dessas que se manifestam na competição sem prumo no mercado de trabalho; na força dos argumentos restritivos que encarceram as pessoas nos conceitos de certo e errado. Eu quero comprar menos coisas com códigos de barra e apostar mais em sonhos. Eu quero não querer. E, se por acaso o coração hiperventilar, que não seja por dinheiro; status ou veleidades. Que seja simplesmente por emoção. Nascida do amor, da admiração, do desconhecido, da descoberta; até mesmo do medo. 


Artigo publicado originalmente hoje no Novo Jornal

Um comentário:

Niva disse...

bonito, bonito, Sheylinha. Bonito escapar da hipnose geral; compreender que tudo que é realmente importante cabe dentro de nós, na retina, no ouvido, no tato... Um beijo. Ando 'ausente' só na aparência.