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terça-feira, 9 de abril de 2013

Canção para um amigo *





Ainda era hora do café da manhã e o telefone toca. Do outro lado da linha, meu compadre Baiano. Ele já estava na estrada para ir trabalhar numa cidade vizinha à sua, e me disse que ouvia no rádio uma música e cantarolou um pouquinho pra mim: “Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim, tão diferente”. Ao ouvi-la, tinha se lembrado de mim e teve vontade de ligar. Essa canção se chama Por Enquanto, é do Renato Russo, e muita gente deve ter ouvido também na voz de Cássia Eller.

Sorrimos. Ficamos um pouco em silêncio e ele desligou. E eu, imediatamente me lembrei de uma outra canção que sempre que ouço, são deles as lembranças que me vêm. Eu devia ter uns 12 anos e andava meio rebelde. Minha avó, que gostava muito dele (ambos eram quase uma unanimidade lá em Bom Jesus) resolveu pedir ajuda ao rapaz que era uma espécie de líder da turma. Todo mundo ouvia, seguia e respeitava, mesmo sem querer, mesmo sem saber. Era ele. Agora, um pouco mais velho que eu, naqueles tempos os anos faziam muita diferença. Ele não chegou como um pai chegaria. Tampouco carregava procuração da verdade, nem guardava conselhos nos bolsos. No meio da conversa ele saca da voz macia, uma canção do Milton Nascimento, letra de Sérgio Magrão, que me acertou em cheio e dizia: “Por tanto amor, por tanta emoção/ A vida me fez assim/ Doce ou atroz/ Manso ou feroz/ Eu, caçador de mim”. Essa canção é meio que um hino à dualidade inerente à existência humana e à resistência necessária para sobrevivermos, inclusive quando achamos que está tudo meio sem graça ou sem sentido.

Dali em diante - estando próximos ou distantes - nunca mais nos separamos. Posso dizer que é meu amigo mais constante. Não desmerecendo nenhuma outra relação de amizade, admiração, carinho e respeito que construí com meia dúzia de pessoas nessa minha existência, não à toa, ele me deu de presente para ser minha afilhada, a pequena Bárbara que ano a ano, vem se tornando uma certeza na minha vida. A família toda tem um “puxadinho” no meu coração.

As duas canções têm, despretensiosamente, a intenção de nos guiar pelos caminhos da vida; de trazer alguma pista para nossas dúvidas e angústias. Como faz a arte de um modo geral, seja na literatura, na poesia, na dança e na pintura. Seja também num sorriso. Como fazem alguns amigos conosco. Como fazemos nós, que somos amigos.

Geralmente, são os casais quem têm canções que embalam suas histórias. Mas, amigos verdadeiros e constantes também podem ter. Por que não? Mesmo que essa canção não surja como num arroubo de uma declaração de amor. É uma canção que necessita, sobretudo de tempo e de silêncios.

* Texto publicado hoje no Novo Jornal

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