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domingo, 14 de abril de 2013

Carta para F





Caro F,

Sonhei de novo com você. Nem me lembro direito do sonho. Depois que acordei ficou tudo confuso. Só me lembro do seu rosto, nítido como a luz daquele verão em que estávamos juntos. 

Eu acho que sonhei com você porque parte de mim foi embora e eu mesma não sei como nem onde está. Como você. No sonho, mantínhamos aquele silêncio que costumávamos cultuar e que nos dizia tanto. Você deitava no meu colo e eu cantava a versão em português de Smile;  porque você dizia que gostava da minha voz, porque eu gostava de saber disso e porque ninguém nunca havia pedido para eu cantar com tanta inocência como você me pedia. Aliás, F, tudo em você cantava uma certa inocência. Você era tão grande, forte e autossuficiente e, ao mesmo tempo, me impelia a tomar um certo cuidado com toda aquela força que você não sabia como usar, nem como deter. Uma força doce. Incapaz de algo brusco ou agressivo. Uma força que fazia você querer tocar sua flauta; que exigia que você ora vivesse na montanha, ora quisesse morar num submarino. Uma força primitiva que se agarrava aos meus cabelos, como o vento faz com a relva.

F, vou te confessar um segredo: eu deveria ter indo embora. Há muito tempo. Todas as minhas partes deveriam ter partido naquele barquinho, daquele outro sonho, lembra? Mesmo se o destino fosse o estômago dos tubarões. Mas eu tive medo, F, como tenho agora. Como você deve continuar sentindo em algum lugar desse vasto mundo, que naquele tempo cabia no ninho de nossas mãos. E era um mundo cheio de linhas e reentrâncias e caminhos a serem seguidos. Minhas mãos estão envelhecendo, F. As suas também estão, eu presumo. 

E pensar que eu nem consigo mais chorar com a mesma pungência de outros verões. Parte de mim tem lágrimas secas, cristalizadas em sonhos que nem me lembro mais. Queria sonhar com você de novo. Para, novamente e sempre, cantar um velha canção, mesmo que ela seja triste.


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