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terça-feira, 14 de maio de 2013

Antes da chuva *




O tempo anda meio esquisito. Quase todos os dias, em algum pedaço do céu, a gente percebe que a reunião de nuvens e seu tom acinzentando prenunciam que vai chover. Mas não chove. É verdade que o calor diminuiu um pouco, principalmente nos ambientes fechados. Mas, ainda não é o suficiente. Vejo no olhar das pessoas a secura por água. A cobrança às nuvens para que elas se decidam e descarreguem de uma vez por todas essa água que a gente sente tanta falta. Sem água que cai do céu, ficamos sem a esperança renovada de que chova também no sertão, nem tem o cheiro de naftalina dos casacos tirados do fundo do armário. Acho que até os jornais sentem falta. Sem chuva, não há aquelas velhas matérias requentadas sobre os alagamentos.

Até os buracos nas ruas estão se sentindo vazios e sedentos. Se a memória não me engana, a última vez em que vivenciei um grande pé d´água na cidade foi em 2007 (ou seria 2008?). Início do ano. Todo mundo ficou estarrecido porque foi uma chuva atípica e grandiosa. Choveu milímetros previstos para o trimestre inteiro em apenas algumas horas. Andava pelas ruas de Petrópolis, em direção ao Centro e por diversas vezes pensei que a água iria me carregar. A Avenida Rio Branco estava vazia de carros e ônibus. A enxurrada tinha causado um problema nos semáforos e os ônibus se acumularam no Alecrim. Caos total. Voltar para casa parecia ser a coisa mais sensata a se fazer. Só consegui isso umas três horas depois porque a cidade estava parada.

Agora, por mais maluco que isso pareça, sinto falta daquela enxurrada. Daquela abundância de água represada nas ruas, porque o lixo não dava passagem para os bueiros.

Penso que os dias chuvosos nos obrigam a querer colorir mais a vida. A quentura do café é mais apreciada. A pele agradece o contato com a textura das roupas. As sombrinhas voltam das férias não só para abrigar-nos da chuva, mas, para acalentar nossas esperanças de que os rios serão abastecidos, logo não vai faltar água; que a roseira que a gente esqueceu de regar vai conseguir se recuperar e em breve nascerão botões;  e que, mesmo que a casa fique um pouco mais úmida e as roupas peguem mofo, um dia, quando o sol voltar a brilhar, seremos ainda mais gratos pela sua exuberância e suficiência.

Ás vezes a gente também fica assim por dentro. Prepara as nuvens, mas não derrama uma gota d´água. Ou seja, não deságua, não lava o que tem de sair e, portanto, não se renova. A ausência da chuva desperdiça o tempo primordial para que fiquemos parados e possamos ser mais contemplativos com o barulho da chuva e o cheiro da terra cedendo suas veias, para dar destino às águas, e à gente.


 * Publicado originalmente no Novo Jornal


2 comentários:

Nivaldete disse...

Juro que li "Artes da Chuva"... Acabou sendo. Que lindo!
Que venham mais chuva e mais texto seu.,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,

Mme. S. disse...

Ebaaaaaa! você conseguiu postar um comentário. Ebaaaaaa!