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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Mulheres sem rosto*



Há algum um tempo eu ouvi de uma mulher bem sucedida profissionalmente, daqueles tipos que identificamos como pessoas fortes e decididas, independentes financeiramente do marido, donas de seu próprio nariz e coisa e tal, que seu maior sonho seria abdicar de tudo e ficar exclusivamente cuidando da filha, que na época já devia estar com uns três anos e prestes a frequentar uma dessas escolinhas para crianças de classe média. Confesso que aquela declaração me chocou. Não é que eu esteja negando que exista todo um laço primal de afeto que envolve uma mãe e um filho, bem como a necessidade, muito mais cultural que natural, de dar o máximo de atenção e proteção aos rebentos. E isso não parece ser inerente somente às mães de filhos pequenos. Até hoje, quase uma quarentona, percebo minha mãe com esses movimentos em torno de mim. Mas me assusta um pouco a ideia de anulação da própria identidade, das conquistas profissionais e financeiras, da liberdade de ser um indivíduo único, em função de uma outra pessoa que, no decurso natural da vida, deverá buscar esse mesmo sentido de liberdade, de realização e de identidade individual.

O facebook está cheio de exemplos do que digo. Como é, sem dúvida, um espaço virtual para a “espetacularização” da vida – um compacto dos sempre melhores segundos do dia – passando pelas frases enfadonhas de autoajuda, aos pratos cuidadosamente preparados e fotografados e, se fixando na exibição das grandes realizações do cotidiano que têm, legitimamente, nos filhos os melhores exemplos. (Filho é sim uma grande realização. Estou longe de contrariar essa lógica). Mas, o ruim desse comportamento é que quase sempre, coitados, eles são exibidos como um troféu nessa grande rede. E, pior ainda, as mães passam a não ter mais rosto. Elas são (somente) os filhos. Eu imagino como esse fardo não poderá ser pesado no futuro. Sem sonhos, sem realizações pessoais – além da maternidade – essas mulheres tendem a se tornar possessivas, cobradoras e dependentes emocionais dos seus filhos.

Minha mãe, a mãe da minha mãe e outras mães que eu conheço, que não alcançaram essa geração de perfis virtuais, nem nutriram esse desejo de parar a vida para viver em função “de”, também foram grandes mães, cuidadosas, comprometidas, preocupadas e protetoras. E elas preservaram um rosto e uma identidade própria. Com a minha mãe nunca senti que estivesse o tempo inteiro no centro das atenções, e isso me foi muito saudável. A ideia de uma geração inteira de pequenos ditadores, que podem fazer tudo o que querem, cujos pais – ou as mães - vivem em função de fazer-lhes a vontade e evitar a todo custo suas frustrações, também é algo que me assusta profundamente.

* Publicado dia 6 no Novo Jornal

3 comentários:

Christiane Cunha disse...

Sheyla adorei seu blog bjsssss

Christiane Cunha disse...

Adorei seu blog bjsssss

Mme. S. disse...

Chris, sua linda, ainda não tive tempo de dar uma passadinha decente no seu e deixar um comentário. o livro atravessado no caminho... bjs, S.