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terça-feira, 25 de junho de 2013

Porque esse manifesto não me representa

Foto: Acervo Novo Jornal/facebook


Saímos daqui de ônibus. Quando chegamos à Bahia, era tanto chão para atravessar que parecia que seria mais fácil chegarmos à lua que à Brasília, nosso destino. No caminho, vislumbramos um pedaço da Chapada Diamantina, uma das paisagens mais bonitas que guardo até hoje dessas terras varonis. Só não foi mais bonita que enxergar na manhã do dia 26 de agosto de 1999, o fervilhado de gente que se instalara na avenida da Esplanada dos Ministérios e compunha a “Marcha dos Cem Mil” ou “Marcha de Brasília”. Tínhamos um objetivo claro: éramos contra os seis anos de governo de Fernando Henrique Cardoso. Protestávamos contra a venda do nosso patrimônio nacional,  com os holofotes voltados para o escândalo da venda da Telebrás e questionávamos o arquivamento de diversos inquéritos que investigariam o Governo Federal no seu emaranhado e obscuro mar de corrupção.  Hoje os incautos reclamam das denúncias e dos escândalos. Na era FHC, as informações sequer atravessavam os muros das grandes redações do país. Diga-se havia menos escândalos, porque havia bem menos informações circulando.

Era muita gente na rua, a perder de vista. Não me lembro de ter visto um quebra-quebra, não fizemos sequer riscos no espelho d´água daqueles monumentos arquitetônicos que compõem o Congresso Nacional. Foi naquele dia que vi passar nos braços do povo o barbudo de nove dedos que foi capaz de implantar no Brasil, alguns anos depois, uma política social que olhava para o mais pobre, que içava da miséria milhares de pessoas. Infelizmente, acho que isso incomoda muita gente até hoje. Voltei para casa com um sentimento pleno de que sabia o que eu queria para mim e meu país. Sete anos antes, também estava nas ruas para participar das manifestações a favor do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo. Outro momento histórico, do qual me orgulho ter feito parte.

Por esses dias, olhando para trás e para o que eu acredito agora, vejo que essas manifestações que têm ocorrido em todo o país e iniciadas em Natal, não me representam. Não faço parte dessa massa que, de repente, ficou insatisfeita com tudo. De uma hora para outra, vi uma reivindicação pela revogação do aumento de preços dos transportes públicos – o que acho legítimo e oportuno – se transformar num samba do crioulo-doido, com argumentos que não chegam a dobrar esquina e se encerram em frases do tipo "tá tudo errado", "sou contra a corrupção" ou "todo político brasileiro não presta", ou o que é pior: "o Brasil não presta". Teve gente, na última passeata, que estava preocupada com que tipo de roupa usar, enquanto outros pediam cartazes emprestados para que pudesse tirar uma foto para colocar no instagram. Preciso dizer mais? 

Quando alguém diz que um movimento é apartidário e, no entanto, se coloca contra a presidente Dilma e a responsabiliza (ou pior, a demoniza) por tudo o que está acontecendo no país, então isso me cheira à muita coisa, menos à reivindicação séria e consciente, me cheira à insatisfação da classe média, que não se conforma que trabalhadoras domésticas tenham direitos e recebam hora-extra. Cheira também à massa de manobra da grande mídia, aquela mesma que há 15 dias chamava o protesto de “baderna”; muito parecido com a manipulação dessa mesma massa que acabou por eleger anos antes Fernando Collor, só que dessa vez, com a ajuda das redes sociais para inflamar os incautos e entornar o caldo dos equívocos e dos argumentos vagos.

Ora, se é um movimento democrático, não compreendo como não há espaço para pessoas e suas bandeiras políticas; se falta respeito às instituições democráticas – a política é uma delas – então me desculpem os incautos, isso me cheira a fascismo, à alienação e a um oportunismo que, oxalá, não nos leve a um retrocesso político e social que nos custou tão caro conquistar.

Não digo que não haja motivos para se reclamar e se indignar sobre a impunidade que impera no nosso país, sobretudo para aqueles que fazem parte do topo da pirâmide - e aí não cabem só os políticos não, cabem também nesse lugar os empresários sonegadores de impostos e criadores de caixa dois; os filhinhos de papai que bebem, atropelam, queimam e/ou matam transeuntes desavisados e, sequer passam dois dias no xilindró e juízes comprados por milhares de verdinhas para garantir a liberdade de quem deveria mofar na cadeia, só para citar três exemplos. 

Saúde, educação, segurança e transporte, tudo isso no nosso país é privilégio, não direito, simplesmente porque gestores municipais, estaduais - e claro, também federais - e legisladores idem, não fazem valer o que está na Lei. Simplesmente, porque muita gente que está aí nas ruas agora, no dia das eleições daria uma grade de cerveja para ir à praia bem cedinho porque está cagando para o direito soberano - lavado com suor e sangue dos verdadeiros revolucionários - de votar; porque tem gente que acha que se é obrigado a votar, então faz "voto de protesto" e dirige seu direito democrático de escolha para pessoas como Dagô e Miguel Mossoró.

Já que os serviços públicos estão longe de ser direitos conquistados e lavrados em cartório (vixi, já pensou que tivéssemos que lavrar em cartório? O quanto não teríamos de gastar, hein?) no nosso país, então que tenhamos sim o direito de protestar, de reivindicar, de exigir o bom uso do erário. Mas daí achar que botar tudo isso num balaio só - direcionar para a presidência da república - é construir um movimento "suprapartidário", no qual tanto comungam os estudantes que sonham com o passe livre, quanto podem comungar os trogloditas que quebram vidraças em shoppings, intercalados por gente que nunca solavancou dentro de um ônibus lotado e que agora pega carona na cauda desse cometa desgovernado, só para depois patinar no vazio de que fez parte de um protesto, e o que é pior, pipocar isso numa sessão exibicionista em fotos e em textos em redes sociais ou blogs. Isso tudo é demais e é de menos, porque é confuso e sem sentido para mim. Dá preguiça. Pelo que vi e ouvi, muitos dos "incomodados" que ocuparam as ruas, têm no inegável crescimento econômico do país a pedra no sapato, sobretudo quando percebem que gente pobre agora também pode frequentar aviões ou pode passear em shoppings. Fico imaginando quando é que a classe média vai entender que não é elite e que faz parte da classe trabalhadora e produtiva e, portanto, massacrada pelo capital desse país. Como é que podem ser tão estúpidos e atirarem no próprio pé?

Tenho pena de certos pensamentos pequenos-burgueses. E tenho muito medo também do que isso pode acarretar. Dos oportunistas de máxima direita que já começam a comprar espaços nas televisões para cuspir seu veneno neoliberal. Receio do que podem fazer com essa insatisfação regada à exibições midiáticas que páram as ruas, mas também podem estacionar a esperança nos nossos corações, de um Brasil mais justo, soberano e mais social.


Publicado hoje no Novo Jornal sob o título "Não fui e não vou" e versão resumida.

PS.: Peço desculpas pelo tamanho do texto. Os prolixos e seus textos enfadonhos que me perdoem mas, poder de síntese é fundamental. Mas, enfim, se você caro leitor, chegou até aqui para ler essas letrinhas pequenas, é porque foi, no mínimo paciente comigo e, desde já, fico grata.








domingo, 23 de junho de 2013

Para o domingo passar





Faz tempo que não venho aqui. Andava ocupada com outras palavras. Palavras alheias, palavras sagradas, palavras de um morto. Ando ocupada com livros. Palavras emprestadas. Então resolvi escrever qualquer coisa, qualquer bobagem para deixar a barra de rolagem do domingo passar mais rápido e ver se o tédio ganha um pouco mais de cor.

Enquanto isso, o povo insiste em soltar fogos para acordar São João, dois dias antes, só porque hoje é domingo e os fogos alumiam o tédio. Meu gato me olha, mexe as orelhas como se antenas fossem e parece me dizer, me ajuda a não ouvir essas explosões, me ajuda a relaxar. E eu paro um pouco, faço um carinho debaixo do queixo, sinto-o acionar o motor interno das satisfações e, por alguns instantes esquecemos o barulho agudo riscando a noite. Nunca tive afeições por fogos de artifício. A não ser quando da passagem de um ano para outro. Muito embora prefira o desfalecer das espumas da água do mar ao encontro da ponta dos meus dedos.

No meu tempo de infância, São João era fogueira e milho assado e cozinha cheia de gente fazendo canjica e pamonha. Mamãe me deixava comer a raspa do tacho. Era um privilêgio de ser caçula e filha mais velha ao mesmo tempo. Era simplesmente sensacional. Dava um trabalhão fazer aquilo tudo. Conseguir o milho verdinho e suculento, arrancar cabelinho por cabelinho daquelas fileiras de grãos, passa-los no ralo, coar em varios panos, costurar as palhas, preencher as pamonhas, mexer a cangica e não deixar empolotar. Ufa! Trabalheira paga somente pela confraternização. As mulheres falando, umas dando ordens, outras obedecendo, outras rindo, outras lembrando, outras cantando, todas felizes e ternas e seguindo em frente com uma tradição secular de transformar o milho em comida e em festa.

De uns anos para cá, a gente não tem feito nem canjiquinha são braz, quanto mais as canjicas de são joão. 

É.

O tempo passa. As tradições vão resvalando para um canto solitário da memória. A gente vai se contentando (será?) com a pamonha e a canjiquinha da padaria. Já não preservamos mais o ralo feito de flandres de latas de óleo. As panelas de tacho vão enferrujando e virando sucata. E o domingo passa. Os fogos continuam. Os gatos estão quase acostumados com os fogos antecipados do dia de São João, que só será mesmo daqui a dois dias.

domingo, 16 de junho de 2013

Blossom Dearie - Manhattan




vídeo líndo, música idem, nessa tarde encharcada de domingo e saudades...


segunda-feira, 10 de junho de 2013