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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Eu quase não te procuro




Eu quase não te procuro. Eu quase não te procuro porque, de certo modo, eu nunca te perco por completo, por mais que insista inutilmente nesse intento. Sempre dou um jeito de te encontrar num canto de pensamento ou enquanto troco o ar dos pulmões.

Mas, agora há pouco deu vontade de ir além disso e eu achei uma fotografia sua. O mesmo olhar. Dizem que a gente acaba se parecendo com quem ama. E percebo que ao longo desses anos todos a gente tem feito o caminho contrário. Olho tua fotografia e me reconheço tão pouco nela que sou capaz de acreditar que você é um completo estranho.

Inacreditavelmente estranho porque negar nossas semelhanças é como negar um pedaço infinito de mim mesma. E eu não costumo negar amor, você sabe disso. Eu posso negar a dor, o abandono, as marcas do corpo, as fendas na alma, o ar pesado pela tua incansável ausência, posso negar que já nem lembro se chegamos a ter uma canção de amor ou se quando eu tinha pesadelos você segurava na minha mãe e afagava meus cabelos.

O fato é que hoje eu senti vontade de te ver. E não adiantava me olhar no espelho para me bastar. Eu não acredito naqueles que dizem que o amor se basta. O ódio pode se bastar, a raiva, a descrença, a indiferença também. Hoje eu não quero bater no peito e sentir orgulho de mim mesma e cuspir na tua cara gritos de guerra de sobrevivência ou autossuficiência. 

Porra! Por que você não está aqui, caralho?


PS.: Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou sentimentos alheios (inclusive os meus) terá sido mera coincidência (ou não). Mas, na boa véio, é um saco escrever algo e as pessoas pensarem que têm exclusivamente a ver com minha vida pessoal. 






Fiona Apple - "Hot Knife" Official Music Video)



Muito bom!

terça-feira, 30 de julho de 2013

terça-feira, 23 de julho de 2013

Último desejo

Monet

Quando pequena, meu pai costumava cantarolar, batucando numa caixinha de fósforo, o simpático sambinha: "Quando eu morrer/ Não quero choro nem vela / Quero uma fita amarela/ Gravada com o nome dela". Um clássico quando se trata da definição de uma boa morte, consequência de uma travessia de uma boa vida. De lá para cá, sempre achei que ao invés de testamento, as pessoas deveriam deixar como herança para os que ficam essa recomendação do sambinha do Noel Rosa.

Nessa semana que passou meu tio Lelinho morreu. Na verdade, ele não era meu tio. Ele era primo da minha mãe e as gerações mais novas o chamavam de tio, porque é assim na minha família como as gerações mais novas tratam os parentes mais velhos. Pessoalmente, não tive muita conversa com ele. Lembro-me de que era um homem muito sério, não me dava muita trela. Às vezes se sentava em sua cadeira, na área de casa, de frente para a Praça Padre João Maria, em Bom Jesus, e ficava lá no fim da tarde, como se vigiasse e guardasse alguma coisa que lhe pertencia. Nem que fosse apenas a paisagem no seu entardecer. Como todo político de interior, havia quem o amasse, havia quem não. O fato é que ele foi responsável por momentos marcantes na vida da minha mãe e da minha avó, e em todos havia a marca do acolhimento e da generosidade.

O legal quando nos deparamos com atitudes assim é que, em muitos casos, nasce na gente uma coisa chamada gratidão e isso se estende para outras ações e outras pessoas. Gratidão é um negócio que tende a se multiplicar quando é um sentimento compatível com um caráter justo e simples. Tive a chance de experimentar esse sentimento desde muito cedo e devo parte disso a tio Lelinho.

Depois da notícia de sua morte bateu uma tristeza serena, decantada pela distância e diluída nas lembranças da minha infância, no meu tempo de vida em "Bomja" (minha abreviação pessoal de Bom Jesus), antes de vir estudar em Natal. Não deu para ir ao velório, mas minha mãe foi e fiquei apreensiva sobre como ela encararia aquele momento que, certamente, revolveria muitas lembranças de uma parte significativa de sua vida.

“O velório foi muito bonito”, disse assim que voltou. Como assim?, perguntei curiosa. “Tinha banda de música, que tocou as canções preferidas dele, atendendo ao seu último pedido”, acrescentou. Um velório bonito – sem ignorar toda a força da tristeza e da dor da perda dos parentes que ficam – é sinônimo de uma vida bem vivida. Desejar que a música abafe os gemidos e soluços de quem fica é tentar distrair da dor definitiva. É sair de fininho, deixando a vida roubar a cena para seguir seu curso, embalada num sambinha do Noel Rosa.


 Publicado hoje, originalmente, no Novo Jornal




domingo, 21 de julho de 2013

oração . a banda mais bonita da cidade (c/ leo fressato)



Oração de domingo

Lucas Santtana - Amor, Meu Grande Amor



Adoro essa canção...

Confessionário



as mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. não é heresia, pensa bem, se se parecessem mais com as cabras do que com homens nem natureza para nós teriam. precisam de nos parecer sem alcançar igualdade, que para isso estamos cá nós. e depois, beleza assim até aumentada, o que lhes tirou deus em préstimo de espírito deu-lhes em curvas e cor, servem perfeitamente para nos multiplicar e muito agradar.

esse é um trecho do livro "o remorso de baltazar serapião", do escritor angolano valter hugo mãe. não consigo passar do capítulo "dezanove" e vou dizer o porquê.

eu, que sei na própria pele, na ponta dos dedos e no miolo do quengo o que significa a transpiração de escrever (que não tem muito a ver com a romântica inspiração), que tento sobreviver nesse mar de caos e desordem - enfileirando algumas letras, palavras e pensamentos em espaços virtuais e em gavetas digitais -, eu, que acho que gostar ou desgostar de um escritor deve ser algo tão pessoal e intransferível quanto sua senha do banco, jogo a toalha e confesso aqui no meu sítio: não consigo acabar de ler esse livro. mais de um mês na cabeceira. entre ele, já tracei outros dois, mas, simplesmente não consigo gostar. talvez porque haja uma evidente misoginia disposta em cada página e uma obsessão por cu que me dão uma preguiça tão grande que eu sou capaz de abstrair a magistral e elaborada costura à mão que é a sua escrita, um texto trabalhado como se fosse um bilro ou um macramé feito por uma sábia rendeira. entretanto ele carrega nas tintas e a forma acaba subindo ao púlpito mais que o próprio conteúdo. talvez seja a sua intenção. respeito. mas não sou obrigada a gostar. talvez insista mais um pouco, talvez folheie mais algumas páginas. quem sabe eu chegue ao fim.

desistir de ler um livro é como desistir de um amigo. é doloroso. nunca é fácil. quando não dá para seguir adiante com as páginas, quando estacionamos em um capítulo mal resolvido, a saída é recorrer às páginas passadas. revisitar o que já foi escrito. reler os acontecimentos, avaliar os sentimentos e o sentido do que já foi escrito. tudo isso pode ser um bom exercício. mas nem sempre oferece os trilhos necessários para seguirmos o caminho. um velho e sábio amigo, dessas amizades cujo tempo já levantou muros de proteção contra as intempéries, me disse certa vez que às vezes é preciso perder alguma coisa para se ganhar outra. é difícil assimilar isso quando se está diante do abismo. prestes a picotar as páginas e jogá-las ao vento, para que tenham a chance de se transformarem em outra coisa. quem sabe, no espírito de algum pássaro.



segunda-feira, 15 de julho de 2013

Poema em pedra



Eu tranco a porta / Eu não abro a janela / Enxergo as coisas no escuro / Melhor / O chão é frio / Escuto a rua / Escuto a música / Ela não fala de amor / Atendo o telefone / A voz do outro lado / Chora / Eu não choro mais / Digo coisas sem sentido / Disfarço o desprezo que sinto pelas canções de amor / Eu tiro a roupa / O ar é frio / Disfarça a chuva que está por vir / A janela chora lágrimas finas / Eu não choro mais por amor / Desprezo telefones que tocam sem sentido / Eu abro a porta / A rua é escura / Escuto o vento / Ele bate no corpo nu / Escuto o carro que corre na rua / Ele bate no corpo parado no meio da rua / E entra pela porta / O rádio ainda toca / Agora uma canção de amor / Fala de despedida



escrito em priscas eras. guardado nem sei porquê. é isso.  

domingo, 14 de julho de 2013

Mambembe - Chico Buarque e Roberta Sá




Pra quem "perde" tempo com a beleza de ver gente fazendo o que sabe fazer bem e sorrindo.

domingo, 7 de julho de 2013

Jeff Buckley - Calling you

João e Maria - Chico Buarque

Pequeno relato de um sentimento


Eu me lembro daquele nosso primeiro jantar e ainda posso sentir o gosto macio, mas enfático, dos teus lábios experimentando os meus pela primeira vez. Um tempo antes, durante nossa conversa, em que eu ria e te via como alguém muito interessante, você me disse - e olhou com tanta convicção - que eu seria sua namorada. E a mim, só restou acreditar.

Não foi rápido, nem intenso, nem frenético a ponto de eu achar que estava perdendo a cabeça. Eu acho mesmo é que eu estava encontrando alguma coisa, estando ali ao teu lado. Encaixando uma peça que parecia perdida do quebra-cabeças. Ouvindo teus discos, lendo teus livros, bebendo teus vinhos, aprendendo com teus anos, fazendo ares de quem não sabe muito para deixar você ensinar. Você não gostava muito de sorrir, eu reparei. Mas cantarolava para mim no elevador e eu achava aquilo tão terno e íntimo que eu só podia mesmo te amar, mesmo sem querer buscar significados para isso.

Falando sobre isso agora, eu vejo que eu queria te pegar pela mão e te convidar para voar, dar um passeio em outras paisagens, sair um pouco daquele universo constante. Mas você sempre queria ficar dentro. Às vezes trancava a porta e não deixava ninguém entrar. Dias em silêncio. O olho apagado de emoções. As mãos frias, o peito frouxo, as cortinas fechadas. Era difícil não enlouquecer com aqueles vazios. E eu fiquei louca. Eu chorei, eu sangrei, eu quis morrer, eu saí correndo, eu juntei as linhas e construí uma teia para sobreviver. Uma espécie de tela se proteção para o abismo que era amar e não saber até onde.

E eu sei dessas coisas todas de que o tempo faz tudo passar e, num belo dia, acidentalmente, a gente cruza na rua, estende a mão, aperta, dá um abraço, dois pra cá, dois pra lá, e percebe que acabou, está morto. 

E eu acho que estou te revivendo em mim porque eu te vi sorrindo na foto esses dias, e percebi que entre nós não há - e talvez nunca tenha existido - aquela tela de proteção. Que olhar para você é como se eu não tivesse medo daquele abismo. Pelo contrário, como se nele eu tivesse deixado escapulir para sempre um sentimento de mim.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Quando as palavras faltam



Duas pessoas passam um tempo sem se ver. Quando elas retornam ao ponto que ficou lá atrás e percebem que esse ponto não existe mais, que foi fincado na marcescível pedra do passado, as palavras faltam. A princípio, pode ocorrer uma dança ensaiada dentro das convenções mas, passados os cumprimentos iniciais, as palavras perdem o compasso, ficam tímidas e se retiram. A intimidade precisa de convivência e é uma entidade que só se realiza de houver duas pessoas dispostas. Os distantes podem até se respeitar e nutrir encantamentos mas, intimidade precisa de mãos dadas, de cheiros e de silêncios. Intimidade vai além de só confiar, é preciso também estar aberto e sereno.

Quando a gente fica triste, as palavras faltam. Quando a gente se sente injustiçado, as palavras faltam. Quando alguém nos ofende, as palavras faltam. Quando alguém nos engana e desdenha da nossa dignidade, as palavras faltam, ficamos como se tivéssemos com uma virose. A garganta fecha, os olhos ardem, a cabeça gira e as palavras perdem os sentidos.

Mas palavras são o elo da existência não só em coisas ruins. Estava no ônibus dia desses e uma moça sorridente, com aparelhos cheios de borrachinhas vermelhas nos dentes, segurava seu filho nos braços. Pequenino de alguns meses, careca, olhos azuis acinzentados, sonolento. Olhei para ele e sei que ele olhou para mim, embora aquilo não significasse nada mais além do que era. E, por um instante, percebi que a falta de elaboração da linguagem naquele serzinho tão bonito e primário - além do óbvio - é o que o tornava frágil, sensível, desamparado, necessitado de cuidados todo o tempo. As palavras nos protegem. Mas, falando nas coisas boas: quando ganhamos um sorriso de um completo estranho, as palavras dão lugar a outro sorriso. Quando avistamos alguém que nos é muito caro e que estava distante, as palavras dão lugar ao abraço. Quando ganhamos um presente, desavisados, no meio da manhã, as palavras dão lugar ao espanto. Quando olhamos para alguém e temos a mais absoluta certeza de que estamos diante de um grande amor, as palavras dão lugar a um suspiro. E, quando, de alguma maneira, percebemos que não estamos mais diante de um grande amor, as palavras dão lugar à verdade. Mesmo que a verdade não seja comumente um espelho.

As palavras nos definem. Antes delas, somos um elo perdido, sem comunicação. As palavras vão além dos nossos improvisos, elas nos permitem viver nossos grandes atos.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Tempos sombrios

Foto: da autora, meu, seu, nosso.

O jornalismo vive tempos sombrios. Eu não sei se é só o jornalismo, ou se também vivem assim outras coisas que cabem dentro do tempo. Só sei que quando ainda não sabia ler e escrever, eu desenhava. Porque precisava contar histórias. Às vezes fazia colagens e mostrava para o meu pai, orgulhosa daquelas figuras bem talhadas, e ele dizia – “isso não é original. Não faça cópias. Desenhe sua própria história”.

Segui desenhando a vida, como sabia e como podia. A criação do meu primeiro jornal foi na quinta-série. Eu era a repórter, a editora e a responsável pela entrega. Tinha um apego tão grande às palavras e sua capacidade de recontar os fatos que, no meu jornal, todas as notícias eram importantes, todas eram manchetes. Procurava contemplar tudo: página policial (relatando o desaparecimento de borrachas e lápis na sala de aula), coluna social (que fulana havia cortado o cabelo no estilo da moça da novela), cotidiano (que a prova de matemática tinha sido difícil) e cultura (uma resumidíssima opinião sobre o livro Fernão Capelo Gaivota). Sobrevivi a umas três edições depois parei porque a manufatura do jornal estava me tomando o tempo para estudar para as provas.

Trilhei, portanto, o que parecia um caminho óbvio e certo. Pouco tempo depois de ocupar os bancos da faculdade comecei a estagiar e mais ou menos em meados do curso comecei a frequentar a redação do Diário de Natal. Foi lá onde conheci grandes figuras do jornalismo potiguar, como Carlos de Souza, que foi meu primeiro chefe, no caderno de cultura e que não perdia a oportunidade para dizer – “magrela, isso aqui é uma selva”. Grande Carlão, o tipo de cara cujo coração é maior que a própria estatura e corpulência e cujo cinismo não amarra as chuteiras de sua doçura, nem que ele queira.

Escrevo sobre isso porque li recentemente a matéria “Ilusões Perdidas”, da jornalista argentina Graciela Mochkofsky, na Piauí (80) e, guardadas as devidas proporções,  teci a mesma trajetória e senti de maneira peremptória os tempos sombrios do jornalismo, que vem sofrendo quedas significativas, desde as demissões em massa nas grandes corporações mundiais, até pelos olhos estourados por balas de borracha dos policiais em manifestações de rua. Se antes as pessoas nos recebiam, sentindo-se amparadas, agora elas se sentem invadidas e algumas nos tratam mal. De repente, é como se ficar duas, três horas esperando uma fonte, para trazer à tona uma notícia que vai mexer com a vida de muita gente, deixasse de ter importância, porque hoje em dia, todo mundo acha que sabe fazer notícia, basta registrar na grande rede. Não quero parecer antiga ou contrária ao direito e à democratização da informação. Mas penso que vivemos sim tempos difíceis e, oxalá, possamos continuar desenhando nossa própria história – e a dos outros - nessa profissão.


 Texto publicado originalmente no Novo Jornal, hoje.



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Foram muitos primeiros beijos

Foto do Visualizeus


Acordei com aquela mesma fome que sentia há muitas e muitas manhãs do tempo vivido. Uma fome que não se contenta com as cartas guardadas em um velho baú ou não se reconhece apenas nas imagens presas na parede. A sensação era do mesmo vazio que eu sentia quando atravessava o sol calmo da madrugada para chegar à escola e antes de tudo queria escrever poemas, queria ouvir o que você dizia, queria aprender com as tuas mãos macias e, confesso, também queria te beijar. 

Foram muitos primeiros beijos.

Um deles foi no meio do acostamento, em plena Avenida, disputando a atenção com o vai-e-vem dos carros. Nós não nos importávamos com os carros, com a poluição, o barulho negro do asfalto. Só fazia sentido o ruído silencioso e tímido dos nossos dentes e línguas e lábios se encontrando naquele burburinho todo que nós nem ligávamos. 

Teve um outro, no sofá da casa da Diana. Nem me lembro bem como foi que ficamos na horizontal. Eu tinha um vestido azul escuro, moldando o corpo e você estava tão junto dele que dava para sentir teu coração batendo contra minha pele. O beijo foi doce, as línguas deitadas, dançando um ritmo lento, saboreando os gostos, sorvendo os silêncios daqueles dias todos que conseguimos ficar separados, ocupados com coisas absolutamente desimportantes como a lua em quadratura com júpiter, ou se faríamos ou não o lançamento em off-set do livro do nosso amigo poeta.

Depois, você me beijou com aquele gosto de cigarro e cravos. Começou levando-me para a beira da praia. Falou sobre conexões antigas, da força da lua cheia, dos segredos da minguante, disse que não sabia cantar, que só sabia dançar pequenos passos de uma antiga dança cigana e começou a tomar minha boca pela cintura. Explico: primeiro você pegou sua mão quente e explorou pedaços das minhas costas; pedaços que eu nem imaginava que pudessem ter alguma ligação com os meus joelhos e a minha nuca. Quando, finalmente, sua língua entrou na minha boca, entrou poderosa, exploratória, experimentando a intumescência de um corpo iminente à entrega, ao delírio de não ser mais um só.

Muitos beijos depois, quando eu já nem sabia mais se existiriam tempos bons ou ruins ou se as luas ainda se esconderiam em mistérios acima da terra, você me chamou para jantar e eu me apaixonei pela sua camiseta, seu tênis, seu cabelo, seu olhar miúdo, seus dedos curtos, seu cabelo fininho e assanhado, as pintas nas suas costas e braços, seu jeito despojado e dominador ao mesmo tempo de sentar no meio-fio. Naquela noite, bem depois de eu rir tanto até ficar com dor nas bochechas e saber que eu estava num êxtase contemplativo e besta que as pessoas dão o estranho nome de felicidade, eu quis saber como seria nosso primeiro beijo. Você também queria saber, eu percebi desde o momento em que você começou a me olhar assim de soslaio, de cima para baixo, estreitando os olhos como se me desafiasse e duvidasse que meu jeito pudesse ser mesmo tão desprotegido. Você não parecia ter muita pressa. O beijo começou pelo pé. Você pediu-me gentilmente o pé direito (eu me lembro muito bem) e massageou meus dedos, trespassando seu indicador em cada intervalo entre um e outro. Eu nunca quis tanto um beijo em toda a minha vida. Porque teu beijo vinha de uma boca que produzia um som agradável de ouvir. Porque de tua boca brotavam palavras que eu desconhecia, mas preservavam uma certa familiaridade sonora e harmônica do som da tua voz em meu ouvido.

Foram muitos primeiros beijos. Nem um igual ao outro. Semelhante só o jeito de nunca esquecer.