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domingo, 21 de julho de 2013

Confessionário



as mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. não é heresia, pensa bem, se se parecessem mais com as cabras do que com homens nem natureza para nós teriam. precisam de nos parecer sem alcançar igualdade, que para isso estamos cá nós. e depois, beleza assim até aumentada, o que lhes tirou deus em préstimo de espírito deu-lhes em curvas e cor, servem perfeitamente para nos multiplicar e muito agradar.

esse é um trecho do livro "o remorso de baltazar serapião", do escritor angolano valter hugo mãe. não consigo passar do capítulo "dezanove" e vou dizer o porquê.

eu, que sei na própria pele, na ponta dos dedos e no miolo do quengo o que significa a transpiração de escrever (que não tem muito a ver com a romântica inspiração), que tento sobreviver nesse mar de caos e desordem - enfileirando algumas letras, palavras e pensamentos em espaços virtuais e em gavetas digitais -, eu, que acho que gostar ou desgostar de um escritor deve ser algo tão pessoal e intransferível quanto sua senha do banco, jogo a toalha e confesso aqui no meu sítio: não consigo acabar de ler esse livro. mais de um mês na cabeceira. entre ele, já tracei outros dois, mas, simplesmente não consigo gostar. talvez porque haja uma evidente misoginia disposta em cada página e uma obsessão por cu que me dão uma preguiça tão grande que eu sou capaz de abstrair a magistral e elaborada costura à mão que é a sua escrita, um texto trabalhado como se fosse um bilro ou um macramé feito por uma sábia rendeira. entretanto ele carrega nas tintas e a forma acaba subindo ao púlpito mais que o próprio conteúdo. talvez seja a sua intenção. respeito. mas não sou obrigada a gostar. talvez insista mais um pouco, talvez folheie mais algumas páginas. quem sabe eu chegue ao fim.

desistir de ler um livro é como desistir de um amigo. é doloroso. nunca é fácil. quando não dá para seguir adiante com as páginas, quando estacionamos em um capítulo mal resolvido, a saída é recorrer às páginas passadas. revisitar o que já foi escrito. reler os acontecimentos, avaliar os sentimentos e o sentido do que já foi escrito. tudo isso pode ser um bom exercício. mas nem sempre oferece os trilhos necessários para seguirmos o caminho. um velho e sábio amigo, dessas amizades cujo tempo já levantou muros de proteção contra as intempéries, me disse certa vez que às vezes é preciso perder alguma coisa para se ganhar outra. é difícil assimilar isso quando se está diante do abismo. prestes a picotar as páginas e jogá-las ao vento, para que tenham a chance de se transformarem em outra coisa. quem sabe, no espírito de algum pássaro.



4 comentários:

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

Te dou toda razão. Há de haver química entre o livro e o leitor. Releio Clarice e Nassar mil vezes e não me canso, e sempre encontro novidades que me encantam. Ler Garcia Marquez no original, então, nem se fala!. Tudo começou por acaso: queria saber se os livros dele eram magistralmente traduzidos ou se o colombiano escrevia assim mesmo. O lado bom disso tudo é que estou lendo até Bíblia em espanhol. E me aperfeiçoando na língua. Mas... falar é que são elas. Digo cada asneira e meus amigos morrem de rir. Mas, vergonhoso mesmo é o fato de uma professora de Literatura não ter conseguido passar da 5ª página de Proust ou tentar ler uma 5 vezes o Ulysses. Nem vou tentar mais. Joguei a toalha. Um abraço, Dama de Shangai.

Mme. S. disse...

Então, eu quase me envergonho de dizer que não consigo ler Saramago. Mas é a mais pura verdade. só consegui ler dois livros dele, a muito custo. o autor valter hugo mãe ganhou o prêmio saramago em 2007, portanto, acho que a chatura é muito parecida...

Nassar e Clarice fazem parte do meu pódio. outros vips: jorge luís borges... falando nisso, tenho planos de ir a BAires para conhecer a terra do meu escritor favorito. bjs, querida. obrigada pela visita.

Anastácia Vaz disse...

Eu quase não termino de ler seu texto, por conta de como se iniciou. Quem dirá esse livro inteiro.

Estou na mesma situação sua, ganhei um livro em Agosto do ano passo, de uma amigona da época de colégio. Quatro ou mais já atropelaram o término dele. Inclusive Recomendações à todos está desbancando ele atualmente. Mas por consideração a amiga, vou fazer o esforço de terminar, como quem cata conchinhas na areia da praia.

Mme. S. disse...

Anastácia, minha flor, eu não pensei nisso? Que o leitor poderia desistir de ler, só por conta desse período? Risos.

Mas comigo funcionou ao contrário. Depois que escrevi o post, acabou meio que sendo uma válvula de alívio e estou a conta-gotas, lendo página a página para ver se consigo terminar.

Um cheiro grande minha flor delicada, qualquer hora dessas vamos se ver né?