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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Foram muitos primeiros beijos

Foto do Visualizeus


Acordei com aquela mesma fome que sentia há muitas e muitas manhãs do tempo vivido. Uma fome que não se contenta com as cartas guardadas em um velho baú ou não se reconhece apenas nas imagens presas na parede. A sensação era do mesmo vazio que eu sentia quando atravessava o sol calmo da madrugada para chegar à escola e antes de tudo queria escrever poemas, queria ouvir o que você dizia, queria aprender com as tuas mãos macias e, confesso, também queria te beijar. 

Foram muitos primeiros beijos.

Um deles foi no meio do acostamento, em plena Avenida, disputando a atenção com o vai-e-vem dos carros. Nós não nos importávamos com os carros, com a poluição, o barulho negro do asfalto. Só fazia sentido o ruído silencioso e tímido dos nossos dentes e línguas e lábios se encontrando naquele burburinho todo que nós nem ligávamos. 

Teve um outro, no sofá da casa da Diana. Nem me lembro bem como foi que ficamos na horizontal. Eu tinha um vestido azul escuro, moldando o corpo e você estava tão junto dele que dava para sentir teu coração batendo contra minha pele. O beijo foi doce, as línguas deitadas, dançando um ritmo lento, saboreando os gostos, sorvendo os silêncios daqueles dias todos que conseguimos ficar separados, ocupados com coisas absolutamente desimportantes como a lua em quadratura com júpiter, ou se faríamos ou não o lançamento em off-set do livro do nosso amigo poeta.

Depois, você me beijou com aquele gosto de cigarro e cravos. Começou levando-me para a beira da praia. Falou sobre conexões antigas, da força da lua cheia, dos segredos da minguante, disse que não sabia cantar, que só sabia dançar pequenos passos de uma antiga dança cigana e começou a tomar minha boca pela cintura. Explico: primeiro você pegou sua mão quente e explorou pedaços das minhas costas; pedaços que eu nem imaginava que pudessem ter alguma ligação com os meus joelhos e a minha nuca. Quando, finalmente, sua língua entrou na minha boca, entrou poderosa, exploratória, experimentando a intumescência de um corpo iminente à entrega, ao delírio de não ser mais um só.

Muitos beijos depois, quando eu já nem sabia mais se existiriam tempos bons ou ruins ou se as luas ainda se esconderiam em mistérios acima da terra, você me chamou para jantar e eu me apaixonei pela sua camiseta, seu tênis, seu cabelo, seu olhar miúdo, seus dedos curtos, seu cabelo fininho e assanhado, as pintas nas suas costas e braços, seu jeito despojado e dominador ao mesmo tempo de sentar no meio-fio. Naquela noite, bem depois de eu rir tanto até ficar com dor nas bochechas e saber que eu estava num êxtase contemplativo e besta que as pessoas dão o estranho nome de felicidade, eu quis saber como seria nosso primeiro beijo. Você também queria saber, eu percebi desde o momento em que você começou a me olhar assim de soslaio, de cima para baixo, estreitando os olhos como se me desafiasse e duvidasse que meu jeito pudesse ser mesmo tão desprotegido. Você não parecia ter muita pressa. O beijo começou pelo pé. Você pediu-me gentilmente o pé direito (eu me lembro muito bem) e massageou meus dedos, trespassando seu indicador em cada intervalo entre um e outro. Eu nunca quis tanto um beijo em toda a minha vida. Porque teu beijo vinha de uma boca que produzia um som agradável de ouvir. Porque de tua boca brotavam palavras que eu desconhecia, mas preservavam uma certa familiaridade sonora e harmônica do som da tua voz em meu ouvido.

Foram muitos primeiros beijos. Nem um igual ao outro. Semelhante só o jeito de nunca esquecer.


Um comentário:

Cacau disse...

Vc sempre me surpreende... AMEI


Bjs She