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domingo, 7 de julho de 2013

Pequeno relato de um sentimento


Eu me lembro daquele nosso primeiro jantar e ainda posso sentir o gosto macio, mas enfático, dos teus lábios experimentando os meus pela primeira vez. Um tempo antes, durante nossa conversa, em que eu ria e te via como alguém muito interessante, você me disse - e olhou com tanta convicção - que eu seria sua namorada. E a mim, só restou acreditar.

Não foi rápido, nem intenso, nem frenético a ponto de eu achar que estava perdendo a cabeça. Eu acho mesmo é que eu estava encontrando alguma coisa, estando ali ao teu lado. Encaixando uma peça que parecia perdida do quebra-cabeças. Ouvindo teus discos, lendo teus livros, bebendo teus vinhos, aprendendo com teus anos, fazendo ares de quem não sabe muito para deixar você ensinar. Você não gostava muito de sorrir, eu reparei. Mas cantarolava para mim no elevador e eu achava aquilo tão terno e íntimo que eu só podia mesmo te amar, mesmo sem querer buscar significados para isso.

Falando sobre isso agora, eu vejo que eu queria te pegar pela mão e te convidar para voar, dar um passeio em outras paisagens, sair um pouco daquele universo constante. Mas você sempre queria ficar dentro. Às vezes trancava a porta e não deixava ninguém entrar. Dias em silêncio. O olho apagado de emoções. As mãos frias, o peito frouxo, as cortinas fechadas. Era difícil não enlouquecer com aqueles vazios. E eu fiquei louca. Eu chorei, eu sangrei, eu quis morrer, eu saí correndo, eu juntei as linhas e construí uma teia para sobreviver. Uma espécie de tela se proteção para o abismo que era amar e não saber até onde.

E eu sei dessas coisas todas de que o tempo faz tudo passar e, num belo dia, acidentalmente, a gente cruza na rua, estende a mão, aperta, dá um abraço, dois pra cá, dois pra lá, e percebe que acabou, está morto. 

E eu acho que estou te revivendo em mim porque eu te vi sorrindo na foto esses dias, e percebi que entre nós não há - e talvez nunca tenha existido - aquela tela de proteção. Que olhar para você é como se eu não tivesse medo daquele abismo. Pelo contrário, como se nele eu tivesse deixado escapulir para sempre um sentimento de mim.

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