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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Quando as palavras faltam



Duas pessoas passam um tempo sem se ver. Quando elas retornam ao ponto que ficou lá atrás e percebem que esse ponto não existe mais, que foi fincado na marcescível pedra do passado, as palavras faltam. A princípio, pode ocorrer uma dança ensaiada dentro das convenções mas, passados os cumprimentos iniciais, as palavras perdem o compasso, ficam tímidas e se retiram. A intimidade precisa de convivência e é uma entidade que só se realiza de houver duas pessoas dispostas. Os distantes podem até se respeitar e nutrir encantamentos mas, intimidade precisa de mãos dadas, de cheiros e de silêncios. Intimidade vai além de só confiar, é preciso também estar aberto e sereno.

Quando a gente fica triste, as palavras faltam. Quando a gente se sente injustiçado, as palavras faltam. Quando alguém nos ofende, as palavras faltam. Quando alguém nos engana e desdenha da nossa dignidade, as palavras faltam, ficamos como se tivéssemos com uma virose. A garganta fecha, os olhos ardem, a cabeça gira e as palavras perdem os sentidos.

Mas palavras são o elo da existência não só em coisas ruins. Estava no ônibus dia desses e uma moça sorridente, com aparelhos cheios de borrachinhas vermelhas nos dentes, segurava seu filho nos braços. Pequenino de alguns meses, careca, olhos azuis acinzentados, sonolento. Olhei para ele e sei que ele olhou para mim, embora aquilo não significasse nada mais além do que era. E, por um instante, percebi que a falta de elaboração da linguagem naquele serzinho tão bonito e primário - além do óbvio - é o que o tornava frágil, sensível, desamparado, necessitado de cuidados todo o tempo. As palavras nos protegem. Mas, falando nas coisas boas: quando ganhamos um sorriso de um completo estranho, as palavras dão lugar a outro sorriso. Quando avistamos alguém que nos é muito caro e que estava distante, as palavras dão lugar ao abraço. Quando ganhamos um presente, desavisados, no meio da manhã, as palavras dão lugar ao espanto. Quando olhamos para alguém e temos a mais absoluta certeza de que estamos diante de um grande amor, as palavras dão lugar a um suspiro. E, quando, de alguma maneira, percebemos que não estamos mais diante de um grande amor, as palavras dão lugar à verdade. Mesmo que a verdade não seja comumente um espelho.

As palavras nos definem. Antes delas, somos um elo perdido, sem comunicação. As palavras vão além dos nossos improvisos, elas nos permitem viver nossos grandes atos.

Um comentário:

Cacau disse...

Confesso que não sou boa com as palavras,me saiu melhor e prefiro os gestos... e depois de tudo isso aqui lindamente escrito as palavras me fogem :)