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terça-feira, 2 de julho de 2013

Tempos sombrios

Foto: da autora, meu, seu, nosso.

O jornalismo vive tempos sombrios. Eu não sei se é só o jornalismo, ou se também vivem assim outras coisas que cabem dentro do tempo. Só sei que quando ainda não sabia ler e escrever, eu desenhava. Porque precisava contar histórias. Às vezes fazia colagens e mostrava para o meu pai, orgulhosa daquelas figuras bem talhadas, e ele dizia – “isso não é original. Não faça cópias. Desenhe sua própria história”.

Segui desenhando a vida, como sabia e como podia. A criação do meu primeiro jornal foi na quinta-série. Eu era a repórter, a editora e a responsável pela entrega. Tinha um apego tão grande às palavras e sua capacidade de recontar os fatos que, no meu jornal, todas as notícias eram importantes, todas eram manchetes. Procurava contemplar tudo: página policial (relatando o desaparecimento de borrachas e lápis na sala de aula), coluna social (que fulana havia cortado o cabelo no estilo da moça da novela), cotidiano (que a prova de matemática tinha sido difícil) e cultura (uma resumidíssima opinião sobre o livro Fernão Capelo Gaivota). Sobrevivi a umas três edições depois parei porque a manufatura do jornal estava me tomando o tempo para estudar para as provas.

Trilhei, portanto, o que parecia um caminho óbvio e certo. Pouco tempo depois de ocupar os bancos da faculdade comecei a estagiar e mais ou menos em meados do curso comecei a frequentar a redação do Diário de Natal. Foi lá onde conheci grandes figuras do jornalismo potiguar, como Carlos de Souza, que foi meu primeiro chefe, no caderno de cultura e que não perdia a oportunidade para dizer – “magrela, isso aqui é uma selva”. Grande Carlão, o tipo de cara cujo coração é maior que a própria estatura e corpulência e cujo cinismo não amarra as chuteiras de sua doçura, nem que ele queira.

Escrevo sobre isso porque li recentemente a matéria “Ilusões Perdidas”, da jornalista argentina Graciela Mochkofsky, na Piauí (80) e, guardadas as devidas proporções,  teci a mesma trajetória e senti de maneira peremptória os tempos sombrios do jornalismo, que vem sofrendo quedas significativas, desde as demissões em massa nas grandes corporações mundiais, até pelos olhos estourados por balas de borracha dos policiais em manifestações de rua. Se antes as pessoas nos recebiam, sentindo-se amparadas, agora elas se sentem invadidas e algumas nos tratam mal. De repente, é como se ficar duas, três horas esperando uma fonte, para trazer à tona uma notícia que vai mexer com a vida de muita gente, deixasse de ter importância, porque hoje em dia, todo mundo acha que sabe fazer notícia, basta registrar na grande rede. Não quero parecer antiga ou contrária ao direito e à democratização da informação. Mas penso que vivemos sim tempos difíceis e, oxalá, possamos continuar desenhando nossa própria história – e a dos outros - nessa profissão.


 Texto publicado originalmente no Novo Jornal, hoje.



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