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terça-feira, 23 de julho de 2013

Último desejo

Monet

Quando pequena, meu pai costumava cantarolar, batucando numa caixinha de fósforo, o simpático sambinha: "Quando eu morrer/ Não quero choro nem vela / Quero uma fita amarela/ Gravada com o nome dela". Um clássico quando se trata da definição de uma boa morte, consequência de uma travessia de uma boa vida. De lá para cá, sempre achei que ao invés de testamento, as pessoas deveriam deixar como herança para os que ficam essa recomendação do sambinha do Noel Rosa.

Nessa semana que passou meu tio Lelinho morreu. Na verdade, ele não era meu tio. Ele era primo da minha mãe e as gerações mais novas o chamavam de tio, porque é assim na minha família como as gerações mais novas tratam os parentes mais velhos. Pessoalmente, não tive muita conversa com ele. Lembro-me de que era um homem muito sério, não me dava muita trela. Às vezes se sentava em sua cadeira, na área de casa, de frente para a Praça Padre João Maria, em Bom Jesus, e ficava lá no fim da tarde, como se vigiasse e guardasse alguma coisa que lhe pertencia. Nem que fosse apenas a paisagem no seu entardecer. Como todo político de interior, havia quem o amasse, havia quem não. O fato é que ele foi responsável por momentos marcantes na vida da minha mãe e da minha avó, e em todos havia a marca do acolhimento e da generosidade.

O legal quando nos deparamos com atitudes assim é que, em muitos casos, nasce na gente uma coisa chamada gratidão e isso se estende para outras ações e outras pessoas. Gratidão é um negócio que tende a se multiplicar quando é um sentimento compatível com um caráter justo e simples. Tive a chance de experimentar esse sentimento desde muito cedo e devo parte disso a tio Lelinho.

Depois da notícia de sua morte bateu uma tristeza serena, decantada pela distância e diluída nas lembranças da minha infância, no meu tempo de vida em "Bomja" (minha abreviação pessoal de Bom Jesus), antes de vir estudar em Natal. Não deu para ir ao velório, mas minha mãe foi e fiquei apreensiva sobre como ela encararia aquele momento que, certamente, revolveria muitas lembranças de uma parte significativa de sua vida.

“O velório foi muito bonito”, disse assim que voltou. Como assim?, perguntei curiosa. “Tinha banda de música, que tocou as canções preferidas dele, atendendo ao seu último pedido”, acrescentou. Um velório bonito – sem ignorar toda a força da tristeza e da dor da perda dos parentes que ficam – é sinônimo de uma vida bem vivida. Desejar que a música abafe os gemidos e soluços de quem fica é tentar distrair da dor definitiva. É sair de fininho, deixando a vida roubar a cena para seguir seu curso, embalada num sambinha do Noel Rosa.


 Publicado hoje, originalmente, no Novo Jornal




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