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sábado, 31 de agosto de 2013

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Eu escrevo apenas

Daqui de onde estou posso ver o perfil da Clarice, indiferente à minha presença. Na estante, vejo pedaços de outros escritores, enfileirados, de pé, rijos, inertes. Preciso escrever outras coisas. Coisas que implicam coisas. Coisas até importantes. Entretanto me chama atenção a minha própria existência de tecer linhas que me fazem amanhecer e adormecer, mas não me são fáceis de explicar. Se alguém me perguntasse agora neste momento por que eu escrevo, diria como num verso de Leminski: Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?

Tomei banho de chuva.
Matei uma barata.
Cozinhei carne de sol na pressão.
(carne de sol não é de sol é de sereno. os antigos, botavam a carne no sereno [decerto para serenar] e, quando era de manhã, o homem dizia: "maria, vai buscar a carne do sol". e assim, de preposição em preposição, virou carne de sol [que se deita pra lua].

Abri os olhos bem cedo e senti três suspiros de preguiça.
Penso de trás pra frente e escrevo da esquerda para a direita.

Sinto que nem Clarice, nem Leminski, nem Marie NDiaye, nem Gullar, nem Gonçalo, nem Ted, nem Inês, nem de Barros e Virgínia W, só para citar alguns mortos e vivos, existiriam se não fosse essa minha estranha devoção por santos, nomes e letras.

É isso. Tenho devoções.
Tenho segredos.
Tenho dias e noites guardadas dentro das gavetas.

Eu dei de presente a barata morta para o caldeirão da bruxa. Ela recusou, a ingrata. 
(desde os antigos as pessoas têm necessidade de esconder seus mortos. gato, cachorro, cavalo, lagartixa, rinocerontes morrem e os seus não têm a mesma necessidade que os nossos. deixam os corpos lá, no sol, esperando a chance de se deitarem para a lua).




Hoje é dia de poesia



A Estrela 


Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
      coberto de oceanos e montanhas
      é menos que um grão de poeira
      se comparado a uma delas

Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco importa
                quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
                 querido amigo,
                 e esses teus olhos azul-safira
                 com que me fitas


(Ferreira Gullar - em alguma parte alguma - José Olympio Editora)





terça-feira, 27 de agosto de 2013

Por uma vida digna para eles também

Meu Fellini.

A Marcha

Enquanto caminhava pela avenida Engenheiro Roberto Freire, no domingo passado, durante a caminhada em defesa dos animais, uma senhora que se compadece com as centenas de gatos abandonados e que perambulam no Calçadão que liga os bairro de Capim Macio e Ponta Negra, disse que muitas vezes já foi xingada por ser vista alimentando os animais. A incompreensão à sua atitude é tanta que ela já se sentiu obrigada a fazer um BO na delegacia, tamanhas foram as ameaças. Eu penso que quem é intransigente e intolerante a um ato de solidariedade aos animais, na melhor das hipóteses, não sabe o que é fome, sede, frio ou medo. Sob outras perspectivas é alguém que tem sérios problemas para desenvolver empatia com a dor e as necessidades que não provenham do seu próprio umbigo; assim como também tem sérias dificuldades para compreender e aceitar que a existência humana não é mais importante que qualquer outra existência no planeta e que somos, sim, responsáveis por esses milhares de animais que perambulam pelas ruas da cidade. Da cidade que será sede de uma copa do mundo.

Abraçar a causa animal, querer que eles tenham uma vida digna, desejar punições severas para quem os maltrata, para quem os abandona à própria sorte em terrenos baldios e esperar que o poder público faça sua parte criando leis e fazendo grandes campanhas de castração, recolhimento e adoção dos animais já abandonados, isso não me tira nenhum pedaço naquilo que eu quero de melhor para os seres humanos, para as crianças, os adultos e os velhos. Ora, se eu concordo que precisamos ter melhores escolas, creches, hospitais, postos de saúde, segurança, praças públicas, lazer e arte, salários justos, empregabilidade e o bom uso dos nossos impostos, eu também posso colocar nesse pacote atitudes que levam à proteção e ao respeito aos animais. E isso implica na minha mais absoluta solidariedade, empatia e apoio àquela senhora que alimenta os gatos e à outras pessoas que fazem o mesmo com outros animais. Não posso conceber que ainda possamos ver cavalos e burros sendo chicoteados no meio das ruas de Natal, muitas vezes, arrastando nas carroças cargas visivelmente desleais ao seu tamanho e peso e ficar imune a um imenso mal estar e vergonha de ter gente que ainda financia esse tipo de prática. Porque se existem carroceiros é porque existem pessoas que pagam pelos seus serviços.

E se o leitor acha que fico somente no blábláblá, deixo um exemplo simples: tenho dois animais adotados das ruas – gostaria de ter mais, mas não dá - e jamais compraria um bicho, sabendo que existem tantos por aí abandonados precisando de um lar; e precisando também descobrir que o bicho homem pode ser muito mais do que uma sombra, um grito ou um chute em sua existência.

* Texto publicado originalmente no Novo Jornal.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Amigos(as)


- Ei, tô passando aí para a gente caminhar.
- Eita, então vou me arrumar!
- Beleza É tempo que eu vou chegando.

Dentro de uma amizade cabem muitas palavras. Cabem poucas palavras. Cabe uma caminhada de quase duas horas com um pedaço de bolo de milho e um café no meio e dez contos emprestados.

Cabe uma ligação no meio da tarde só para matar a saudade de meses sem ver aqueles olhos brilhantes. Cabe uma mensagem rápida às 23h17 no facebook para a amiga que mora há quilômetros de distância, só assim, dizendo "eu te amo". Cabe um sonho a dois, a três, a quatro, cinco e que depois viram umas 300 páginas. Cabem telefonemas a cada dois minutos, numa insistência brincalhona até que o outro decida ligar de volta. Cabe uma intimação (ou um ultimato) para o amigo/compadre que tem o dom de deixar os outros roxos de saudade. Cabe um quarto de hóspedes com o melhor colchão de hóspedes e os lençois mais cheirosos da face da terra.  Cabe uma lembrança fresquinha de um acontecimento distante, porque amigo tem o dom de se fixar na gente como as lembranças. Essa matéria que nos desenha e que une as linhas do passado no presente. E nos tira a angústia do futuro.

Ter amigos é ter certeza de coisas que a gente às vezes nem consegue saber o nome, mas consegue sentir num olhar, num abraço, num 'obrigado', num 'tchau, até logo', na disposição para ouvir e para falar, no aconchego de um abraço e na bronca quando necessária, no incentivo para um sonho virar realidade, na felicidade alheia que preenche.

Ai, como é bom ter amigos.






sábado, 24 de agosto de 2013

Sou Sheyla com "y"



Mas essa Sheila não é mole não... Sensacional!

domingo, 18 de agosto de 2013

sábado, 17 de agosto de 2013

Severina vai a Vezena



Severina nasceu Severina. Mas poderia ser Marina, Maria, Joaquina, Escolástica, Cristina. Nasceu porque seus pais uns meses antes conheceram-se num parque de diversões. Passearam na Roda-Gigante chupando din-din de batata-doce e de coco-queimado e com os lábios e dedos adormecidos pelo gelo e pelo sentimento que começava a desabrochar, apertaram-se um contra o outro, por medo de despencar lá de cima. Naquela mesma noite, Manoel Jerônimo – era esse o nome do pai da moça – já enamorado até as tampas por Florisbela, aperreou a paciência do locutor do mega-fone e ofertou uma linda “página musical para alguém que está com calça amarela, blusa vermelha e laço de fita verde nos cabelos castanhos, de outro alguém que muito lhe quer bem”. Não deu outra, nasceu Severina. Não antes de uns uis e ais por detrás da calçada da Sacristia. Lugar onde os casais menos abastados costumavam trocar juras de amor eterno, antes que a morte os separasse.

Já começando a amadurecer o talo, nos tempos em que os hormônios começaram a precisar ser combatidos, debaixo das axilas, com suco de limão sem açúcar, mãe decidiu mandar menina para casa de família. Ninguém sabia mas, Severina, às escondidas, passou a perder o sono e pular num pé só de alegria, pensando na cidade grande. Tão grande que seria capaz de engoli-la se não prestasse atenção ou soltasse a mão da dona fulana de tal que foi busca-la em casa, lá nos tanques de pedra e chão de terra batida. Para a cidade grande.

Quando se tornou moça formada, corpo atraía olhares do seu moço barrigudo dono da casa e inveja da dona coisa. Não deu outra, saiu de lá. Cansada de lavar banheiro, casa, pratos, cachorro, roupa. Comer sobejo. Espantar gripe, catapora, adenoide (pai diria, “doença de rico”) com poeira, mais trabalho e estudo (só se fosse à noite). Foi morar num pensionato. A cidade passou a ter nome: Natal. Algumas semanas depois de andar em coletivos apertados (naquela época não havia ainda bestas apertadas) a cidade já não era tão grande assim; nem perdia mais o sono. Caía durinha no colchão emprestado, nas poucas horas que lhe restavam depois de apertados dias de trabalho, estudo e trabalho, assim mesmo em sanduíche. 

Depois do fim da primavera-verão de amor com Nestor, moço trabalhador de vigia na Casa de Saúde, Severina conheceu o longo e tenebroso inverno que prosseguem as paixões desiludidas. Até então não conhecia o que era desilusão porque não sabia o que era ilusão. Antes, só conhecia aquele assalto que começa no olhar ora tímido ora dissimulado, ardente e predador dos enamorados. Com o moço, ela entendeu o significado do Par de Picasso. Mas não entendia muito bem dessas coisas de cubismo. Entendia mesmo era de beijos e abraços.

Foi depois de um inverno abafado de chuva com sol que ela encasquetou de ir embora para Veneza. Coisa de quem está vareando – diria sua avó Eustáquia se ainda viva estivesse. Nesse momento da história tudo fica meio incerto. Nebuloso, como a adolescência de Nosso Senhor Jesus Cristo. Alguns contaram que Severina decidiu ir embora para encontrar um grande amor, outros arriscam dizer que ela queria conhecer novas paisagens; ou quem sabe, simplesmente, ela quisesse se tornar apenas uma viajante. Mas, o que ela queria mesmo era ser feliz e pronto. Pois, ao contrário da maioria, que por vezes parece desistir do intento de ser mais feliz e contenta-se com aquilo que mais se parece com um arremedo do esboço que acreditou um dia ser capaz de desenhar, Severina não. Nunca foi de se conformar.

Há quem diga que ela chegou a Veneza numa tarde cor de laranja e poucas espumas no céu. Parecidas com aquelas que vemos em Natal, em dias comuns de tardes comuns. Severina gostava de ver tarde descendo e ela descendo junto na ladeira da Gustavo Cordeiro de Farias, na Ribeira. E ter aquela sensação de ar e tempo e órgãos suspensos numa corda bamba por alguns segundos. A viagem fora até mais curta do que pensara. Bastou a ladeira, mais algumas légua adiante e, ela já pode ver o Mar Adriático. Escuro, um pouco fétido para passar desapercebido e a Ponte dos Suspiros que mais parecia uam caveira de dinossauro, logo mais adiante.

Do outro lado do Arquipélago, dunas e algumas casas de telhado vermelho (dunas?, Tudo bem, não era muito boa em geografia mesmo). Subiu no barco. Nas gôndolas cabiam mais pessoas do que pudera imaginar. Não se importou muito com iss e resolveu apreciar o passeio. E se pôs a lembrar dos pares célebres que povoavam a história e o imaginário das pessoas e escritores: Helena e Ulysses; Tristão e Isolda; Desdêmona e Otelo; Marília e seu Dirceu; Margaria de Pato Donald; Frida e Diego; Camille e Rodin; o mundo era mesmo cheio de imaginação, cheio de amores. E riu consigo mesma e displicentemente para o gondoleiro. E tomada por um desejo quase febril de não mais voltar de sua viagem – em meio à embriaguez no estomago tomado pelo querosene – atirou-se à última esperança que guardava dentro de sua alma pequenina, escondida num corpo mirrado e cheio de manchas de pereba daquelas catapora mal sarada. Severina jogou-se ao mar. Em poucos segundos, o suficiente para ninguém notar sua ausência, a moça foi engolida naquela escuridão – retiro de poucos peixes marinhos. E no mergulho vencedor, Severina quase teve certeza de ser tomada pela mão de Iemanjá, aquela mesma mulher de concreto da Praia do Meio, a quem numa dessas noites de fim de ano, sidra e fogos artificiais, fizera um pedido para ser mais feliz. Decerto era mulher de palavra. Não esqueceu. Fora cumprir em Veneza. 

Esse conto foi publicado na Revista Preá # 1. E teve ilustrações do artista plástico Cláudio Damasceno. (E tem gente que pensa que Severina foi inspirada numa pessoa real. Mas não foi tá? Ela é fruto da minha imaginação. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou ocorridos terá sido mera coincidência. E ó, um recadinho para a mediocridade rastejante: eu não sou adepta do plágio. E, se o fosse fazer, o faria de gente grande, de grandes escritores e referências, de quem eu realmente admiro e sou leitora.



Preguiça de tanta banalidade


Eu não gosto de escrever sobre mim. Não tenho o menor interesse em revelar o que eu estou sentindo, fazendo ou pensando. Quando isso acontece, geralmente, é diluído em algo que realmente não tem nada a ver comigo, foi uma criação, um empréstimo da vida real para minha necessidade de escrever ficção (mais no blog) ou artigos e crônicas no jornal. Dia desses, por exemplo, fiz um texto absolutamente inspirado num parente distante e algumas pessoas acharam que estava me referindo a um namorado. Eu não sei bem o que eu quero quando escrevo, porque esse lance de querer "causar" isso ou aquilo quando se escreve é tão relativo e, possivelmente maniqueísta, que eu não me preocupo com o que eu quero. Mas, se pudesse fazer alguma diferença para meus leitores o que eu quero, eu diria que gostaria que meu texto fosse deles e não meu. Ou seja, que ocorresse uma apropriação natural das ideias postas no texto (o que aqui para nós é o eldorado de todo escritor e o sonho de 11 entre dez cabeções que escrevem, seja em blogs, jornais, livros, roteiros, etc.). Queria que meus leitores lessem e concordassem ou não, que se sentissem refletidos ou desistissem da leitura no meio se fosse assim sua vontade. E c´est fini, porque na verdade na verdade eu vou continuar escrevendo e não gostando muito, vou continuar me angustiando, vou continuar no meu caminho e na minha necessidade de ir além de mim, só para ter um jeito de me encontrar nessas palavras que deixo aqui no blog e que se amontoam em arquivos virtuais.

Mas, voltando ao tema inicial: eu não tenho necessidade de dizer a que horas eu levanto, ou o que como no café da manhã, se a minha calcinha combina com meu soutien ou se lavo o cabelo todos os dias e passo condicionador. Também não perco horas da minha vida escolhendo que roupa vou vestir ou passando cremes. Eu também não sinto necessidade de dar "bom dia" para os virtuais da rede, nem de anunciar que comprei uma blusinha m.a.r.a.  na promoção numa loja de departamento ou que arrebentei as correntes do bom senso econômico e comprei cinco livros nesses sites de compra. Eu não sou um E.T. eu faço isso e outras coisas. E às vezes tenho medo de escuro, de rugas e do julgamento fútil alheio. Mas tenho horror de transformar os meus fatos cotidianos em notícia, talvez porque seja jornalista por profissão e por vocação, e porque eu sei que nem tudo que é fato pode ser interessante a ponto de se transformar em notícia e que sirva para forjar-se como algo que realmente valha à pena na vida das pessoas e de seus afazeres.

Eu nem tenho vontade às vezes de acordar de manhã! E enche o meu saco a quantidade de gente que tenta passar uma ideia de felicidade suprema encontrada nas prateleiras que, na verdade, escamoteia um consumo exacerbado e um narcisismo crônico passível de tratamento psíquico. Socorro! Só Dr. Sigmund salva! 

É que às vezes me dá uma preguiça braba da humanidade e me sinto sufocada em tantas banalidades.

Esse post poderá ressurgir em outros posts ou ter algum acréscimo. Agora, sorry, vou cuidar da minha vida não escrita.


NI UNA SOLA PALABRA DE AMOR



Quem nunca?

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Qual o limite?



Recentemente, o presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara, o pastor deputado Marco Feliciano, conhecido pela defesa de ideias fundamentalistas e notório homofóbico, muito embora o negue, foi hostilizado por passageiros durante um voo. Assisti ao vídeo que, a princípio pode ser visto como uma brincadeira inconsequente. Dois caras se levantam no corredor, param ao lado do assento do polêmico parlamentar e cantam um dos hits dos Mamonas Assassinas, o "Robocop Gay". Enquanto o fazem, passam a mão no cabelo e no rosto do deputado, numa clara demonstração de afronta. Constrangido, ele nada fala, sequer olha para seus agressores, que seguem com as provocações até que um dos passageiros sentado na fileira atrás do Feliciano sai em defesa dele e dá um basta na "brincadeira" que, a meu ver, desqualifica o direito das pessoas de protestar sem que confundam isso com o direito de fazerem o que bem entendem, sob o amparo da manifestação pela manifestação, no vazio de ideias e de argumentos.

Sou favorável desde sempre ao direito das pessoas de exercerem sua orientação sexual sem que isso seja alvo de chacotas, piadinhas, discriminação ou preconceitos na família, no trabalho e na vida social. Deve ser muito difícil e doloroso andar na "contramão" do que é definido como certo pelo patriarcado e pela Bíblia.

Discordo absolutamente de Feliciano, uma pessoa que pauta assuntos de cunho democrático e legais à luz de textos bíblicos, cujas interpretações, diga-se de passagem equivocadas, já foram capazes de tantos estragos ao longo dos séculos. E também não poderia compactuar com alguém que luta contra o direito homoafetivo, dentre outras defesas polêmicas dele, como a redução da maioridade penal, por exemplo, que eu sou contra.

Mas isso não me dá o direito de chacotea-lo, numa espécie de pagamento na mesma moeda baixa e vazia. Isso não seria igualmente intolerante? Claro que eu sei que o cara tem o poder da caneta na mão, mas será que esse tipo de atitude não acaba dando mais pontos a ele? Tornando-o um coitadinho ou vítima dos discordantes? Essa atitude dos engraçadinhos durante o voo é muito parecida com a dessas pessoas que entraram numa roubada de pirâmide financeira, pensando que íam ganhar dinheiro fácil, sem esforço ou trabalho e, ao se depararem com uma decisão judicial se acham no direito de "protestar" fechando uma BR, confundindo privilégios com a luta coletiva e o processo democrático.
O direito de protestar pode ser tão soberano quanto equivocado. Basta que o colo-quemos em posições demarca-das pelos que defendem somente seus únicos e exclusivos privilégios. Já pen-sou se a moda pega? Vou juntar mulheres que, como eu, têm joanete, e fechar a Salgado Filho contra as fábricas de scarpin, porque, em geral, são sapatos desconfortáveis.

Publicado originalmente hoje na minha coluna no Novo Jornal

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O bicho papão já era


No meu tempo de criança, a gente tinha medo de bicho-papão. A ameaça, geralmente, chegava junto com a noite. Os monstros habitavam-se atrás da porta, debaixo da cama ou até mesmo nas sombras feitas pelas réstias produzidas pela lua ou pelos mil furos do paraíso no céu da noite. Era um medo que não fazia o menor sentido para a lógica do meu pai, já que as portas e janelas estavam devidamente trancadas. E, no entendimento da mamãe, seria facilmente controlado desde que eu rezasse. Nem sempre dava certo. Muitas vezes eu rezava e continuava com medo. Noutras, carregava os medos para dentro do sono e acordava assustada,  para novamente ouvir da minha, mãe o conselho de sempre.

O bom daqueles medos é que eles embalavam a minha fantasia infantil de que um dia eu me tornaria uma super-heroína e nada mais me assustaria. E também guardava a crença de que, caso não desse certo me tornar uma super-mulher, ainda havia o plano B: tornar-me milionária.

Com o tempo, o bicho-papão se aposentou e fui me apropriando um pouco da lógica do meu pai e prestando mais atenção às trancas da porta, das fechaduras da janela, dos fechos das bolsas, tomando como aliados os segredos das senhas de banco e, até mesmo e infelizmente, trancando um pouco o coração para sorrisos estranhos.

O fato é que os monstros da minha vida adulta são muito mais assustadores e incontroláveis que outrora e passam ao largo do poder das rezas infantis. De uns tempos pra cá, sou assaltada diariamente com imagens do monstro da vaidade e do consumo que insistem em me dizer que estou barriguda, tenho rugas e que minha bunda não se parece com uma melancia. E, já que eu não tenho a pele da atriz da novela, nem o corpo da modelo, eu não sirvo. O monstro da competição vez por outra me força a olhar para as pessoas e vê-las não como seres da mesma espécie, mas como concorrentes do pedaço de carne ou da fatia do bolo. E até hoje, não consegui me acostumar com os predadores de plantão.

Tem também o monstro da completude. Aquele que dita regras e fecha estatísticas de que você só é completo e pleno caso tenha um amor – ou vários ao mesmo tempo – uma conta gorda no banco, um filho – ou vários; tenha feito algumas viagens internacionais e tenha, no mínimo, um carro do ano.

Há monstros restritivos também quanto aos sentimentos. Os monstros do “não fique assim”. Aqueles que tiram o direito de você ficar triste e de não encontrar o endereço dessa tal felicidade; de não aceitar que você se irrite, se indigne ou muito menos tenha raiva de atitudes machistas, classistas, da falta de educação no trânsito e da falta de compromisso com a palavra dada. Quando penso nesses monstros tenho uma certeza inolvidável: saudades dos monstros da minha infância.

 Publicado terça passada no Novo Jornal.