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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Eu escrevo apenas

Daqui de onde estou posso ver o perfil da Clarice, indiferente à minha presença. Na estante, vejo pedaços de outros escritores, enfileirados, de pé, rijos, inertes. Preciso escrever outras coisas. Coisas que implicam coisas. Coisas até importantes. Entretanto me chama atenção a minha própria existência de tecer linhas que me fazem amanhecer e adormecer, mas não me são fáceis de explicar. Se alguém me perguntasse agora neste momento por que eu escrevo, diria como num verso de Leminski: Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?

Tomei banho de chuva.
Matei uma barata.
Cozinhei carne de sol na pressão.
(carne de sol não é de sol é de sereno. os antigos, botavam a carne no sereno [decerto para serenar] e, quando era de manhã, o homem dizia: "maria, vai buscar a carne do sol". e assim, de preposição em preposição, virou carne de sol [que se deita pra lua].

Abri os olhos bem cedo e senti três suspiros de preguiça.
Penso de trás pra frente e escrevo da esquerda para a direita.

Sinto que nem Clarice, nem Leminski, nem Marie NDiaye, nem Gullar, nem Gonçalo, nem Ted, nem Inês, nem de Barros e Virgínia W, só para citar alguns mortos e vivos, existiriam se não fosse essa minha estranha devoção por santos, nomes e letras.

É isso. Tenho devoções.
Tenho segredos.
Tenho dias e noites guardadas dentro das gavetas.

Eu dei de presente a barata morta para o caldeirão da bruxa. Ela recusou, a ingrata. 
(desde os antigos as pessoas têm necessidade de esconder seus mortos. gato, cachorro, cavalo, lagartixa, rinocerontes morrem e os seus não têm a mesma necessidade que os nossos. deixam os corpos lá, no sol, esperando a chance de se deitarem para a lua).




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