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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O bicho papão já era


No meu tempo de criança, a gente tinha medo de bicho-papão. A ameaça, geralmente, chegava junto com a noite. Os monstros habitavam-se atrás da porta, debaixo da cama ou até mesmo nas sombras feitas pelas réstias produzidas pela lua ou pelos mil furos do paraíso no céu da noite. Era um medo que não fazia o menor sentido para a lógica do meu pai, já que as portas e janelas estavam devidamente trancadas. E, no entendimento da mamãe, seria facilmente controlado desde que eu rezasse. Nem sempre dava certo. Muitas vezes eu rezava e continuava com medo. Noutras, carregava os medos para dentro do sono e acordava assustada,  para novamente ouvir da minha, mãe o conselho de sempre.

O bom daqueles medos é que eles embalavam a minha fantasia infantil de que um dia eu me tornaria uma super-heroína e nada mais me assustaria. E também guardava a crença de que, caso não desse certo me tornar uma super-mulher, ainda havia o plano B: tornar-me milionária.

Com o tempo, o bicho-papão se aposentou e fui me apropriando um pouco da lógica do meu pai e prestando mais atenção às trancas da porta, das fechaduras da janela, dos fechos das bolsas, tomando como aliados os segredos das senhas de banco e, até mesmo e infelizmente, trancando um pouco o coração para sorrisos estranhos.

O fato é que os monstros da minha vida adulta são muito mais assustadores e incontroláveis que outrora e passam ao largo do poder das rezas infantis. De uns tempos pra cá, sou assaltada diariamente com imagens do monstro da vaidade e do consumo que insistem em me dizer que estou barriguda, tenho rugas e que minha bunda não se parece com uma melancia. E, já que eu não tenho a pele da atriz da novela, nem o corpo da modelo, eu não sirvo. O monstro da competição vez por outra me força a olhar para as pessoas e vê-las não como seres da mesma espécie, mas como concorrentes do pedaço de carne ou da fatia do bolo. E até hoje, não consegui me acostumar com os predadores de plantão.

Tem também o monstro da completude. Aquele que dita regras e fecha estatísticas de que você só é completo e pleno caso tenha um amor – ou vários ao mesmo tempo – uma conta gorda no banco, um filho – ou vários; tenha feito algumas viagens internacionais e tenha, no mínimo, um carro do ano.

Há monstros restritivos também quanto aos sentimentos. Os monstros do “não fique assim”. Aqueles que tiram o direito de você ficar triste e de não encontrar o endereço dessa tal felicidade; de não aceitar que você se irrite, se indigne ou muito menos tenha raiva de atitudes machistas, classistas, da falta de educação no trânsito e da falta de compromisso com a palavra dada. Quando penso nesses monstros tenho uma certeza inolvidável: saudades dos monstros da minha infância.

 Publicado terça passada no Novo Jornal.



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