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sábado, 17 de agosto de 2013

Severina vai a Vezena



Severina nasceu Severina. Mas poderia ser Marina, Maria, Joaquina, Escolástica, Cristina. Nasceu porque seus pais uns meses antes conheceram-se num parque de diversões. Passearam na Roda-Gigante chupando din-din de batata-doce e de coco-queimado e com os lábios e dedos adormecidos pelo gelo e pelo sentimento que começava a desabrochar, apertaram-se um contra o outro, por medo de despencar lá de cima. Naquela mesma noite, Manoel Jerônimo – era esse o nome do pai da moça – já enamorado até as tampas por Florisbela, aperreou a paciência do locutor do mega-fone e ofertou uma linda “página musical para alguém que está com calça amarela, blusa vermelha e laço de fita verde nos cabelos castanhos, de outro alguém que muito lhe quer bem”. Não deu outra, nasceu Severina. Não antes de uns uis e ais por detrás da calçada da Sacristia. Lugar onde os casais menos abastados costumavam trocar juras de amor eterno, antes que a morte os separasse.

Já começando a amadurecer o talo, nos tempos em que os hormônios começaram a precisar ser combatidos, debaixo das axilas, com suco de limão sem açúcar, mãe decidiu mandar menina para casa de família. Ninguém sabia mas, Severina, às escondidas, passou a perder o sono e pular num pé só de alegria, pensando na cidade grande. Tão grande que seria capaz de engoli-la se não prestasse atenção ou soltasse a mão da dona fulana de tal que foi busca-la em casa, lá nos tanques de pedra e chão de terra batida. Para a cidade grande.

Quando se tornou moça formada, corpo atraía olhares do seu moço barrigudo dono da casa e inveja da dona coisa. Não deu outra, saiu de lá. Cansada de lavar banheiro, casa, pratos, cachorro, roupa. Comer sobejo. Espantar gripe, catapora, adenoide (pai diria, “doença de rico”) com poeira, mais trabalho e estudo (só se fosse à noite). Foi morar num pensionato. A cidade passou a ter nome: Natal. Algumas semanas depois de andar em coletivos apertados (naquela época não havia ainda bestas apertadas) a cidade já não era tão grande assim; nem perdia mais o sono. Caía durinha no colchão emprestado, nas poucas horas que lhe restavam depois de apertados dias de trabalho, estudo e trabalho, assim mesmo em sanduíche. 

Depois do fim da primavera-verão de amor com Nestor, moço trabalhador de vigia na Casa de Saúde, Severina conheceu o longo e tenebroso inverno que prosseguem as paixões desiludidas. Até então não conhecia o que era desilusão porque não sabia o que era ilusão. Antes, só conhecia aquele assalto que começa no olhar ora tímido ora dissimulado, ardente e predador dos enamorados. Com o moço, ela entendeu o significado do Par de Picasso. Mas não entendia muito bem dessas coisas de cubismo. Entendia mesmo era de beijos e abraços.

Foi depois de um inverno abafado de chuva com sol que ela encasquetou de ir embora para Veneza. Coisa de quem está vareando – diria sua avó Eustáquia se ainda viva estivesse. Nesse momento da história tudo fica meio incerto. Nebuloso, como a adolescência de Nosso Senhor Jesus Cristo. Alguns contaram que Severina decidiu ir embora para encontrar um grande amor, outros arriscam dizer que ela queria conhecer novas paisagens; ou quem sabe, simplesmente, ela quisesse se tornar apenas uma viajante. Mas, o que ela queria mesmo era ser feliz e pronto. Pois, ao contrário da maioria, que por vezes parece desistir do intento de ser mais feliz e contenta-se com aquilo que mais se parece com um arremedo do esboço que acreditou um dia ser capaz de desenhar, Severina não. Nunca foi de se conformar.

Há quem diga que ela chegou a Veneza numa tarde cor de laranja e poucas espumas no céu. Parecidas com aquelas que vemos em Natal, em dias comuns de tardes comuns. Severina gostava de ver tarde descendo e ela descendo junto na ladeira da Gustavo Cordeiro de Farias, na Ribeira. E ter aquela sensação de ar e tempo e órgãos suspensos numa corda bamba por alguns segundos. A viagem fora até mais curta do que pensara. Bastou a ladeira, mais algumas légua adiante e, ela já pode ver o Mar Adriático. Escuro, um pouco fétido para passar desapercebido e a Ponte dos Suspiros que mais parecia uam caveira de dinossauro, logo mais adiante.

Do outro lado do Arquipélago, dunas e algumas casas de telhado vermelho (dunas?, Tudo bem, não era muito boa em geografia mesmo). Subiu no barco. Nas gôndolas cabiam mais pessoas do que pudera imaginar. Não se importou muito com iss e resolveu apreciar o passeio. E se pôs a lembrar dos pares célebres que povoavam a história e o imaginário das pessoas e escritores: Helena e Ulysses; Tristão e Isolda; Desdêmona e Otelo; Marília e seu Dirceu; Margaria de Pato Donald; Frida e Diego; Camille e Rodin; o mundo era mesmo cheio de imaginação, cheio de amores. E riu consigo mesma e displicentemente para o gondoleiro. E tomada por um desejo quase febril de não mais voltar de sua viagem – em meio à embriaguez no estomago tomado pelo querosene – atirou-se à última esperança que guardava dentro de sua alma pequenina, escondida num corpo mirrado e cheio de manchas de pereba daquelas catapora mal sarada. Severina jogou-se ao mar. Em poucos segundos, o suficiente para ninguém notar sua ausência, a moça foi engolida naquela escuridão – retiro de poucos peixes marinhos. E no mergulho vencedor, Severina quase teve certeza de ser tomada pela mão de Iemanjá, aquela mesma mulher de concreto da Praia do Meio, a quem numa dessas noites de fim de ano, sidra e fogos artificiais, fizera um pedido para ser mais feliz. Decerto era mulher de palavra. Não esqueceu. Fora cumprir em Veneza. 

Esse conto foi publicado na Revista Preá # 1. E teve ilustrações do artista plástico Cláudio Damasceno. (E tem gente que pensa que Severina foi inspirada numa pessoa real. Mas não foi tá? Ela é fruto da minha imaginação. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou ocorridos terá sido mera coincidência. E ó, um recadinho para a mediocridade rastejante: eu não sou adepta do plágio. E, se o fosse fazer, o faria de gente grande, de grandes escritores e referências, de quem eu realmente admiro e sou leitora.



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