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sábado, 28 de setembro de 2013

Jamais é palavra que nos deixa surdos


Achava que jamais gostaria de ritmos como rap ou funk algum dia na vida. Pura bobagem e preconceito. Eu penso que o preconceito está, geralmente, ligado à desinformação. O co-nhecimento abre portas da mente da gente e nos torna, principalmente, mais tolerantes e, portanto, mais generosos com o que não é espelho. Bom, o fato é que aquela ideia inicial já mudou faz um tempo. Mas tive um reforço grande na sexta-feira passada depois de assistir a cantora e compositora, natural de Curitiba (PR), Karoline dos Santos Oliveira, 26, mais co-nhecida como Karol Conka, no Festival Música Alimento da Alma (Mada). 

Não sou profunda conhecedora de música, não manjo tão bem de crítica quanto oss amigo Alexis Peixoto e Moisés de Lima, mas arrisco dizer que essa menina é uma promessa e uma esperança para um ritmo de periferia, nem sempre compreendido, apreciado e reconhecido como deveria.

Já logo de cara você olha para Karol Conka e, em não sendo um crítico musical, sente que ela é uma artista que domina o palco e quer se comunicar com sua voz e sua música dançante e não com sua bunda como, infelizmente, ainda é muito comum no nosso país para algumas moças que se arriscam a tocar funk. Não é o caso de Karol, cuja base é o rap, mas com influências de MPB, afrobeat e dubstep. Esses dois últimos eu nem sei para onde vai e peguei de informações da Folha de São Paulo. O visual então nem se fala. Bem vestida no palco, com saia preta, top brilhante e blazer, Karol parecia uma diva, mexendo-se com elegância e, a cada música executada, agradecendo por estar em Natal e diante daquela plateia receptiva.

Karol descobriu o talento para escrever cedo, aos 16 anos ganhou um concurso na escola, fazendo um rap. Em 2010, antes mesmo de gravar oficialmente, duas músicas suas "Boa Festa" e "Me garanto" bombaram na internet. De lá para cá já foi indicada ao VMB, na categoria Aposta, ganhando respeito de rappers como Racionais MC's, Criolo, Emicida e Marcelo D2. E esse ano ganhou o Prêmio Multishow.

Karol Conka (o segundo nome é uma referência ao primeiro nome "com ka") é prova de que quando há talento, trabalho e um tiquinho de sorte de encontrar as pessoas certas e músicos comprometidos, a arte se manifesta e se estabelece. Assistir à Karol no palco do Mada foi, além de um deleite artístico para mim, enquanto expectadora, também um recadinho às minhas amarras pessoais.  Aquelas que ainda podem escorregar em algum tipo de preconceito. Porque conhecê-la foi, principal-mente, uma conversa entre a sua música e meus ouvidos, os quais se espalharam e dominaram todo o resto do corpo. Sensação que só a arte e suas interseções com os seres humanos podem causar.

 Artigo publicado terça-feira passada, 24, no Novo Jornal.

Horóscopo



A vida não precisa ser injusta. Depois das tempestades de raios de felicidade extrema, e das paixões que fazem a montanha gemer, há de surgir o que chamamos de recompensa: uma coisa que, se não para sempre, deixará marcas profundas nos seus dias e nos trilhos do tempo, esse senhor que não para nunca (até mesmo quando não somos mais). 

Esse é um momento de receber o naco de pão (de azeite e vinho) que a Grande Mãe oferece e não há motivos para olhar para trás. Porque os ventos que chegam não arrancarão as raízes, mas também não impedirão que as sementes se espalhem pelos campos. É tempo de colheita e de cultivar. É tempo de desfrutar dos esforços. É tempo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Escrever: verbo infinito e indireto



Não sei se era exatamente uma dessas da foto que ensaiei o sapateado tímido e trôpego dos meus dedos, pela primeira vez, em suas teclas, cujos passos se refletiam no papel em branco. Mas, lembro-me bem da sensação de descobrir um novo jeito de escrever e de um certo orgulho que senti ao escrever em "letra de máquina". Era tudo tão mágico. Faz muito tempo. Nunca mais parei. Tampouco sei aonde vou chegar. O desconhecido dos espaços em branco me fascina tanto que não ousaria querer preencher tudo, ou vislumbrar se isso realmente seria possível. Não quero o impossível, talvez no máximo, o improvável. A imarcescível rosa ou a décima segunda Tábua de Moisés.

Já sou - somos - tão dominada pela letra de máquina que, às vezes, quando testemunho a letra em punho de alguém, sou tomada por um susto e por uma forte emoção nostálgica. Como antigamente, que se acreditava que as fotografias roubavam a alma das pessoas fotografadas, eu penso que a letra em punho revela sombras do espírito. Pedaços de vogais e consoantes perdidas desde os tempos de menina(o) podem estar ali representados no corte do "t" ou no ponto do "i". E isso me fascina. A verdade é que eu não seria se não fosse a escrita. A verdade é que eu não busco a verdade com a escrita, só o caminho possível para me reconhecer, todos os dias.

Escrevo para descobrir que essa tal felicidade pode se revelar - e se encerrar - num traço de Borges. E que, talvez, já pode até ter se apagado ou se extraviado junto com seus manuscritos. Escrevo para esquecer o que escrevi anteriormente. Para fazer nascer de novo a palavra e um outro significado possível. Escrevo para sobreviver às tempestades de areia no deserto e para emergir das águas profundas do oceano, depois de quase sufocar e de sonhar com um mililitro de ar nos pulmões em fogo. Escrevo porque amo o silêncio e às vezes luto, em vão, na tentativa de esgotar todos os sons inúteis que não tenham nascido do gemido de Deus. Escrevo porque tenho paixão. Escrevo porque nem sempre o amor salva ou redime. Escrevo porque estou presa ao mundo pelos fios dos meus cabelos e pelas pontas dos meus dedos. E às vezes, nada mais parece ter importância.




quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Triste




De repente veio uma dor do mundo. De repente, um sentimento profundo de que o que já está perdido é o que nem mesmo nasceu. Então eu canto para Oxalá e depois o que me resta é chorar. Choro por Iansã, choro por Iemanjá, choro por todas as mulheres que dançam com lágrimas. Choro porque mulheres perdem pedaços no meio do caminho, choro porque mulheres doam pedaços e morrem com costuras cravadas nas costas, no peito, nos olhos cegos. Choro pelos filhos mortos; choro pela morte do pai e pelo abraço findo da mãe; choro como se nunca tivesse gozado; choro por todos os gozos do mundo; choro pela solidão do abraço negado e pela ausência da cor.

(As mulheres dizem que eu sou forte. Os homens têm medo. As mulheres fortes têm medo do sonho porque viver acordadas é o que elas sabem fazer).

A mulher que me chama de "Damadeshangai" um dia me disse que eu tinha um olhar triste. Ela estava certa. Minha avó tinha olhos tristes, minha mãe, eu. Parece sina, parece furor, tempestade, pesadelo, sortilégio. Mas não tem nada de adivinhação, cartas ou revelações. É só tristeza e um punhado de vida.


PS.: Essa linda foto foi tirada pelo meu querido amigo, José. Nela, olhando bem direitinho, dá para ver a tristeza.

Carta (Nº 2) para N



Querido N,

Os dias agora se mantém num cinza pálido. Uma cor que só te pertencia nos esboços. Sempre que penso em ti, imagino cores terrosas. Um barro que se espreme por entre a tela e tuas mãos, dando forma aos teus pensamentos. Por um tempo eu quis subir no alto da montanha e deixar que o grito sucumbisse ao vento. Você sabe, não é meu querido? O quanto pertencemos um ao outro agora. E pensar que você jamais imaginaria que um dia, eu, uma completa estranha pudesse ser alguém confiável; uma mensageira dos teus dias que já foram e são para sempre indivisíveis.

Querido N, espero o sol. Podem ser aqueles contidos nos teus quadrados imperfeitos. E espero a chuva. Podem ser aquelas lembradas em teus versos, rememoradas de tua infância de cimento e giz.

N, e agora, o que será? Eu me pergunto. A que pertencem todo esse vazio e essa ciranda? Sinto tonturas depois do nascimento do nosso filho. Sinto saudades do que não descobri e do que virá depois.

Sinto que me pertenço em ti. (até quando?)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Ser farol


Os faróis me dão um grande sentido para a vida. Sempre achei que tomar conta de um farol fosse uma atividade das mais profundas e respeitáveis. Não há nada mais honroso que dar direção a um perdido. Nada mais alvissareiro que oferecer rumo a um náufrago sedento por chão de areia. 

Ser farol é, essencialmente, ser só e humildemente altivo. Guia do acaso e da eterna paisagem que singra o mar e se equilibra em suas linhas imaginárias. Uma linha que nunca chega porque sempre haverá o lado de lá. Uma linha que está sempre fugindo. Não é interessante que seja um farol aquele quem mais longe vê uma linha que não existe? Ver o invisível é tarefa árdua e, ao mesmo tempo, indulgente.

Tornar-se ao longo dos anos um farol é acreditar que sempre haverá - para alguém - a possibilidade de um encontro. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Dançar



Dançar em público, taí um negócio que eu faço, mas sempre me dá uma certa vergonha. Um pensamento assim de, "será que eu tô fazendo a coisa certa? Será que meus braços e pernas acompanham o ritmo da música? Aquela menina ao lado dança tão bem. E aquele rapaz, então? Nossa! Acho melhor eu balançar o corpo para lá e para cá, sem tirar os pés do chão. Assim, corro menos riscos de parecer ridícula". E assim vou levando meu corpo, entre movimentos e elucubrações bobas que se dissipam e reaparecem, enquanto não me entrego novamente à música.

Claro que, raros momentos, eu me solto por completo e balanço os braços, pernas, cabeça, cabelos, como se tivesse estreado e não nascido. E nessas horas dá uma alegria danada de sentir o corpo ocupando os espaços de maneira lúdica e livre. Sinto-me em conexão com a terra e me apercebo dessa confiança surda que temos pela a gravidade.

Mas dançar não se manifesta somente como um ritual individual. Dançar também pode ser uma brincadeira a dois, a três, uma multidão toda pode se transformar numa massa de gente feliz, se se põe a dançar. 

A dança  pode ser - e é  - o princípio, o meio e o ápice de um encontro amoroso. Não só nas cenas de filmes cai super bem a gente começar um beijo depois de alguns pequenos passos em direção ao outro, e de unir o corpo, a ponto de se conseguir, através da pele, ouvir as batidas do coração. O amor também é uma dança; que necessita de alguns passos iniciais; de uma certa sincronicidade e, sempre, de movimentos livres.

Oferenda


Por um dia de sol ou de chuva. Para que a fome e a sede sejam equidistantes ao desejo. Para que o mal se absorva em sua própria sombra. Pelas crianças, pelos rios, gatos, peixes, passarinhos. Para e pelos sonhos. Pelo sorriso de minha mãe. Pela paz que eu mereço. Pelo caminho que é descoberta. E pela descoberta do caminho. Pelo amor que é,

Ofereço-me por inteira ao acaso


Oferenda para a semana começar bem.

domingo, 22 de setembro de 2013

The Smiths -- Sheila Take a Bow



Então, Sheila não é só nome de bailarina de banda de axé, não! Sheila também é nome de letra de música dos Smiths! Yea!!!!

Otto - O Que Dirá o Mundo - Clipe Oficial



"O amor e o medo são pontas de facas"... Pirei!

sábado, 21 de setembro de 2013

Ladra



Eu roubei uma foto sua. Mas eu nem preciso dela para lembrar do teu rosto e da tua cor ou do tamanho das tuas mãos. Eu roubei um instante teu. Foi quando eu te abracei perto da janela - que dava para ver melhor a lua - e envolvendo tua cabeça com meus braços e te trazendo para bem perto do meu peito eu cheirei profundamente teu cabelo, até inundar as narinas com o ar completamente dominado por teus poros. Eu roubo alguns minutos do dia para não pensar em ti e poder me concentrar com afinco nas outras coisas que estão aí no mundo. Eu descubro pedaços de mim que estavam adormecidos, antes de fazer a tua descoberta. Depois de ti, eu roubo coisas que estavam escondidas no vão dos pensamentos e as revelo para meus gatos, para a lua. Guardo segredo para todo o resto, porque faço confissões ao barulho da chuva. Eu perdi o sentido de ridículo, perdi o medo de ficar falando sobre essas coisas que deixam as pessoas ridículas e frágeis e tolas, mas que são verdadeiras. Eu roubo palavras novas o tempo inteiro dos dicionários e dos livros, para poder inventar um verso novo, uma frase, uma exclamação qualquer - que seja - que defina o que eu sinto por ti.

"Freguês da meia-noite", por Criolo



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

sábado, 14 de setembro de 2013

Miles Davis - Around The Midnight (1967)



Quarenta e quatro minutos e 53 segundos de Miles Davis. Pro sábado começar feliz!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A primeira dedicatória




Finalmente chegou.
A primeira dedicatória foi escrita para você que teve três filhos varões mas, que não fechou os braços para acolher uma "sobrinha-emprestada" que lhe chegou quase pronta. Nas poucas linhas, algo que dizia mais ou menos assim: "esse livro conta a história desse homem tão importante para o estado, mas também é um pouco da minha história e, por consequência um pouco da sua". 

Acho que nunca te disse mas, eu achava o máximo você se preocupar de eu sentar no chão quente da calçada da escola. E dizer que aquilo poderia "ofender". Eu também me lembro daquele dia que caí doente, sangrando, e você me levou às pressas para o pronto-socorro. E também teve aquele outro dia que um morcego me mordeu enquanto eu dormia - inacreditavelmente no pescoço, o que é mais doido - e você me levou para o Giselda, preocupado, sabendo que poderia ter consequências graves. Eu perguntava, meio na dúvida, por que você havia ligado para a diretora do hospital da época, sua colega na Universidade, e você impassível, disfarçava. "Não, a gente só vai mesmo por desencargo de consciência", e mexia o ombro, num cacoete que você tem e a gente já está acostumado. Eu poderia até morrer, mas você não me fez medo. Você simplesmente estava lá. E só parou de mexer o ombro quando a médica disse que eu tomaria o soro e ficaria bem. Outra vez, você me deu carona e aproveitou para me dar um pequeno conselho e pedir que eu tivesse calma e conversasse que tudo poderia acabar bem. É que você tinha ouvido uma discussão minha aos berros com o meu namorado da época, o Tuca, e achou que a gente poderia se dar uma chance. Conversar, compreender, perdoar. Foi o que você falou. Deve ser por isso que você está há 39 anos com a mesma pessoa. Seu conselho não surtiu o mesmo efeito que reverbera até hoje na sua relação com a minha tia mas, naquele sábado, funcionou super bem.

E mesmo discordando, mesmo dizendo que eu estava errada, mesmo escancarando as possibilidades e as portas, você deixou que eu saísse da sua casa para ir encontrar a minha nova vida que não tinha teto, não tinha nada, mas me dava a perspectiva de ter asas e ser livre para fazer minhas escolhas e desenhar o meu caminho. E, com o tempo eu aprendi que isso  é, essencialmente, poder fazer escolhas, que não desrespeitem ou firam ninguém. 

Você entrou comigo na formatura. Temos poucas fotos mas você fez questão de colocar sua Beca de professor. Fiquei me achando. O tempo foi passando, as expectativas mudando e você embora não fosse muito de demonstrar, se orgulhava de mim e das minhas conquistas.Como essa que eu te entreguei ontem. Hoje eu sei que você nunca foi muito mesmo de conversar e, agora, às vezes suas ideias - e as minhas ideias - são paralelas ou, se se cruzassem certamente teriam nós para desatar, porque é assim que acontecem com as gerações de pais e filhos. Mas, a mim, a seu respeito não importam os nós, importam os laços que eu criei contigo. Importam as conversas sobre política, sobre o Governo Federal e sobre os meninos - que diga-se de passagem, já lhe deram outros meninos de presente. Importa quando a gente se abraça na entrada e na saída de qualquer encontro e eu sinto que estou abraçando um homem honrado, dedicado e comprometido em tudo o que escolheu fazer.

Tio, você foi e é peça importante da minha história. Obrigada, com todo meu amor. Foi  mais ou menos assim que eu terminei aquela dedicatória.

FLOATING IN MY MIND



Simplesmente lindo!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Um quê que vem de dentro


Sinto saudades até do que não vivi. Mas não significa que o que vivi - e viva estou - não seja bom, certo ou suficiente. É que às vezes transbordo. E se falta chão ou abraço, transbordo para dentro. Não é uma questão de culpa ou de culpados. Minha sutileza é assim: lunar, úmida, intensa até no silêncio.

Tem vezes que não basta vento ou chuva: vem a tempestade. E não é uma questão somente de fluidez e águas que escorrem. Minha natureza é assim: carece de rios; de veios que jorram desejos.

Sinto perguntas que não têm respostas na fala e sim na pele. Sou generosa: empresto sorrisos, canções e alegorias até aos transeuntes. Pessoas que jamais verei novamente. Completos estranhos. Gente. Só peço uma coisa, que não me seja tirada a fome. E nem o desejo. E nem o amanhã.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A louca da janela

Representação de Medéia de Eurípedes


Tem momentos em que não cabe a normalidade, não cabe a parcimônia dos gestos, não cabe a dissimulação das emoções e sentimentos e não dá para esconder as raivas e frustrações. Ainda existem pessoas - e o que é pior, mulheres - que pensam que o comportamento feminino tem de ser pautado no simulacro do bom comportamento, da economia de gestos e na voz mansa e baixa (leia-se, muitas vezes, falsa e perigosa). Para muitos, não aceitar cumprir esse roteiro patriarcal que impõe à mulher a imagem de um feminino "doce" e contrário às intenções de força, decisão e assertividade, é ser... desequilibrada, inconveniente, louca! 

Não abuso dos meus momentos de loucura. Mas também não me poupo deles quando necessário. E algumas coisas me tiram do sério. Todo mundo sabe que tem uma parcela de homens que acha que pode levar na conversa mulheres e seus carros na oficina, mulheres e suas obras de reforma, mulheres e o botijão de gás e a troca de um interruptor ou uma tomada. 

Pois bem, resolvi trocar as esquadrias de casa. Era preciso quebrar completamente as que existiam, de madeira, para que fossem instaladas as novas, de alumínio. Não precisa ser um gênio para saber que, ao serem retiradas as janelas antigas, por alguns instantes, a casa ficava com um enorme buraco, exposta ao vento, à poeira, aos olhares e quiçá a coisas piores que viessem do lado de fora. Tudo corria bem até que, num belo dia, o pedreiro que deveria chegar às 8h, chegou às 15h daquela sexta-feira, último dia da empreitada. Quebrou a janela do banheiro e, por volta das 17h, percebeu que a nova esquadria estava maior que as dimensões do buraco e, portanto deveríamos conviver com aquela cratera até a segunda-feira seguinte, para que ele viesse chumbar a janela com as dimensões corretas, já que ele tinha um outro compromisso no sábado e, no domingo todo mundo é filho de Deus. E nesse ínterim eu (e minha família) que fosse filha da puta para transformar meu banho num espetáculo de streep-tease.

Bem, antes de pular no pescoço dele ou de começar a chorar, espernear e tentar arrancar as calças pelo pescoço. Eu comecei a gritar. Isso mesmo. Abri o berro. Disse cobras e lagartos, critiquei o atraso (até então eu só tinha falado mansinho, oferecido suquinho e biscoitinho), disse que ele não tinha o direito de abrir um buraco no banheiro e me avisar de última hora que só terminaria o serviço três dias depois, lembrei que sequer havia barganhado o preço do serviço, que já tinha dado mais de 80% do valor, etcétera, etcétera. E sabe o que aconteceu? Funcionou.

Sem exageros. Depois que eu botei os pingos nos "is", com a indignação e o tom que ele merecia ouvir, o sujeito passou a me respeitar. No dia seguinte, isso mesmo, no sábado, chegou antes das 8h, fez os ajustes necessários e, duas horas depois, o banheiro voltava à sua normalidade. E eu, que me permito ser doida se estiver do lado da razão, ofereci-lhe uma caneca de café.

PS.: Atenção mulheres de verdade: abaixo a dissimulação; abaixo a vozinha mansa que tenta persuadir pela falsidade; abaixo a  ditadura da imagem certinha (afinal de contas é só uma falsa imagem mesmo); abaixo o mundinho cor de rosa que algumas mulheres insistem em colorir sua existência opaca; convenhamos, até mesmo as personagens da Jane Austen, (tô falando de século XIX) já tinham personalidade forte. Yes!

(Publicado hoje no Novo Jornal, com alguma edição devido a limitação de espaço no meu hebdomadário)


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

domingo, 8 de setembro de 2013

Radiohead - Lotus Flower



Charmoso, diferente, atraente, talentoso, maluco, doido, bailarino.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Coldplay - The Scientist



O dia inteiro cantarolando na vitrola do pensamento essa música...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Lanternas

 

Eu quero os lençois do mar banhando meu corpo que tem sede e treme.
Eu quero a luz invadindo essa janela e lançando-se por sobre os objetos, com a mesma entrega com que me lanço, agora, a esse desconhecido tempo.
Eu quero uma dúzia de rosas despontando na roseira. Eu quero uma chuva fina para alegrar as franjas dos meus olhos.
Eu quero tua língua na minha boca, brincando com meus dentes, conversando com minha saliva, despejando teu calor molhado por entre meus desvãos.
Eu quero
E quero

Que você queira o meu desejo no seu.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

O problema vai muito além dos médicos estrangeiros (*)


Por princípio desconfio de textos bem arrumados que mais se parecem com anúncios publicitários. O do site oficial de apresentação do Programa Mais Médicos diz: "O Programa Mais Médicos faz parte de um amplo pacto de melhoria do atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde, que prevê mais investimentos em infraestrutura dos hospitais e unidades de saúde, além de levar mais médicos para regiões onde há escassez e ausência de profissionais".

Vivi muitos anos da minha vida no interior e sei o que é precisar de médicos e infraestrutura nas unidades de saúde. Minha mãe me carregou muitas vezes nos braços até Natal, onde enfrentávamos filas horrendas em busca de ajuda médica. De lá para cá, não mudou muita coisa. Talvez até tenha piorado porque aumentou o número da população. Há pouco tempo levei-a ao Centro Clínico da Ribeira e as filas quilométricas continuavam lá, as salas caindo aos pedaços, o teto com buracos, um calor infernal e funcionários desestimulados. Cinco meses de espera para uma consulta com o otorrino, para nos depararmos com um médico até atencioso, porém de mãos atadas porque, com os equipamentos quebrados não tinha como fazer um simples exame nela para ver se havia alguma perda auditiva. Nada mudou mesmo.

Posso até estar enganada mas eu não acredito nesse Mais Médicos. Não são médicos cubanos, espanhóis ou búlgaros que vão resolver a problemática da saúde no Brasil. Não adianta ter médico estrangeiro ou brasileiro em mil municípios se outros quatro mil continuarão desassistidos. Sem infraestrutura, equipamentos e insumos, o cara pode ser a maior sumidade e não vai conseguir resolver o problema do paciente, que continuará sendo transferido para os grandes centros. Por enquanto o que eu vi foi somente pressa em trazer esses profissionais que, convenhamos, têm pouquíssima isonomia para criticar um sistema de saúde que eles não conhecem ou vivenciam, como os médicos brasileiros. Esse programa me soa como eleitoreiro, para evidenciar o ministro Alexandre Padilha, que está de olho no Governo de São Paulo nas eleições de 2014.

Eu quero mais médicos para o interior sim. Para a Zona Rural se for o caso. Mas eu também sonho em mais saúde para a população; em mais financiamento público para a área. Os R$ 92 bilhões previstos para ano que vem ainda é pouco. Não me empolgam importações ou promessas falaciosas que, daqui a seis meses, vão se mostrar inócuas, vocês vão ver.  E tenho me assustado profundamente com a quantidade de gente que se volta contra a categoria médica como se eles fossem vilões. Eles merecem nosso respeito e solidariedade tanto quanto os professores, os engenheiros, os motoristas de ônibus, os jornalistas, os policiais e as empregadas domésticas, dentre todos os outros. E qual o problema de se querer preservar a reserva de mercado? Já pensou se a moda pega? Se toda categoria de profissionais do Brasil, que trabalha no serviço público, resolver botar a  boca no trombone e, ao criticar medidas extravagantes e paliativas do Governo Federal, de repente se verem substituídos por profissionais estrangeiros da mesma área?

Na verdade, não tenho nada contra a vinda de estrangeiros para trabalhar no país. Mas desde que isso não esconda intenções duvidosas, nem escamoteie problemas que não se resolverão somente com a presença dessas pessoas, e sim com ações e políticas públicas consistentes, a médio e longo prazo, e com real planejamento.

(*) Publicado hoje no Novo Jornal com alguns cortes, por conta do espaço...