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terça-feira, 10 de setembro de 2013

A louca da janela

Representação de Medéia de Eurípedes


Tem momentos em que não cabe a normalidade, não cabe a parcimônia dos gestos, não cabe a dissimulação das emoções e sentimentos e não dá para esconder as raivas e frustrações. Ainda existem pessoas - e o que é pior, mulheres - que pensam que o comportamento feminino tem de ser pautado no simulacro do bom comportamento, da economia de gestos e na voz mansa e baixa (leia-se, muitas vezes, falsa e perigosa). Para muitos, não aceitar cumprir esse roteiro patriarcal que impõe à mulher a imagem de um feminino "doce" e contrário às intenções de força, decisão e assertividade, é ser... desequilibrada, inconveniente, louca! 

Não abuso dos meus momentos de loucura. Mas também não me poupo deles quando necessário. E algumas coisas me tiram do sério. Todo mundo sabe que tem uma parcela de homens que acha que pode levar na conversa mulheres e seus carros na oficina, mulheres e suas obras de reforma, mulheres e o botijão de gás e a troca de um interruptor ou uma tomada. 

Pois bem, resolvi trocar as esquadrias de casa. Era preciso quebrar completamente as que existiam, de madeira, para que fossem instaladas as novas, de alumínio. Não precisa ser um gênio para saber que, ao serem retiradas as janelas antigas, por alguns instantes, a casa ficava com um enorme buraco, exposta ao vento, à poeira, aos olhares e quiçá a coisas piores que viessem do lado de fora. Tudo corria bem até que, num belo dia, o pedreiro que deveria chegar às 8h, chegou às 15h daquela sexta-feira, último dia da empreitada. Quebrou a janela do banheiro e, por volta das 17h, percebeu que a nova esquadria estava maior que as dimensões do buraco e, portanto deveríamos conviver com aquela cratera até a segunda-feira seguinte, para que ele viesse chumbar a janela com as dimensões corretas, já que ele tinha um outro compromisso no sábado e, no domingo todo mundo é filho de Deus. E nesse ínterim eu (e minha família) que fosse filha da puta para transformar meu banho num espetáculo de streep-tease.

Bem, antes de pular no pescoço dele ou de começar a chorar, espernear e tentar arrancar as calças pelo pescoço. Eu comecei a gritar. Isso mesmo. Abri o berro. Disse cobras e lagartos, critiquei o atraso (até então eu só tinha falado mansinho, oferecido suquinho e biscoitinho), disse que ele não tinha o direito de abrir um buraco no banheiro e me avisar de última hora que só terminaria o serviço três dias depois, lembrei que sequer havia barganhado o preço do serviço, que já tinha dado mais de 80% do valor, etcétera, etcétera. E sabe o que aconteceu? Funcionou.

Sem exageros. Depois que eu botei os pingos nos "is", com a indignação e o tom que ele merecia ouvir, o sujeito passou a me respeitar. No dia seguinte, isso mesmo, no sábado, chegou antes das 8h, fez os ajustes necessários e, duas horas depois, o banheiro voltava à sua normalidade. E eu, que me permito ser doida se estiver do lado da razão, ofereci-lhe uma caneca de café.

PS.: Atenção mulheres de verdade: abaixo a dissimulação; abaixo a vozinha mansa que tenta persuadir pela falsidade; abaixo a  ditadura da imagem certinha (afinal de contas é só uma falsa imagem mesmo); abaixo o mundinho cor de rosa que algumas mulheres insistem em colorir sua existência opaca; convenhamos, até mesmo as personagens da Jane Austen, (tô falando de século XIX) já tinham personalidade forte. Yes!

(Publicado hoje no Novo Jornal, com alguma edição devido a limitação de espaço no meu hebdomadário)


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