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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Escrever: verbo infinito e indireto



Não sei se era exatamente uma dessas da foto que ensaiei o sapateado tímido e trôpego dos meus dedos, pela primeira vez, em suas teclas, cujos passos se refletiam no papel em branco. Mas, lembro-me bem da sensação de descobrir um novo jeito de escrever e de um certo orgulho que senti ao escrever em "letra de máquina". Era tudo tão mágico. Faz muito tempo. Nunca mais parei. Tampouco sei aonde vou chegar. O desconhecido dos espaços em branco me fascina tanto que não ousaria querer preencher tudo, ou vislumbrar se isso realmente seria possível. Não quero o impossível, talvez no máximo, o improvável. A imarcescível rosa ou a décima segunda Tábua de Moisés.

Já sou - somos - tão dominada pela letra de máquina que, às vezes, quando testemunho a letra em punho de alguém, sou tomada por um susto e por uma forte emoção nostálgica. Como antigamente, que se acreditava que as fotografias roubavam a alma das pessoas fotografadas, eu penso que a letra em punho revela sombras do espírito. Pedaços de vogais e consoantes perdidas desde os tempos de menina(o) podem estar ali representados no corte do "t" ou no ponto do "i". E isso me fascina. A verdade é que eu não seria se não fosse a escrita. A verdade é que eu não busco a verdade com a escrita, só o caminho possível para me reconhecer, todos os dias.

Escrevo para descobrir que essa tal felicidade pode se revelar - e se encerrar - num traço de Borges. E que, talvez, já pode até ter se apagado ou se extraviado junto com seus manuscritos. Escrevo para esquecer o que escrevi anteriormente. Para fazer nascer de novo a palavra e um outro significado possível. Escrevo para sobreviver às tempestades de areia no deserto e para emergir das águas profundas do oceano, depois de quase sufocar e de sonhar com um mililitro de ar nos pulmões em fogo. Escrevo porque amo o silêncio e às vezes luto, em vão, na tentativa de esgotar todos os sons inúteis que não tenham nascido do gemido de Deus. Escrevo porque tenho paixão. Escrevo porque nem sempre o amor salva ou redime. Escrevo porque estou presa ao mundo pelos fios dos meus cabelos e pelas pontas dos meus dedos. E às vezes, nada mais parece ter importância.




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