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terça-feira, 3 de setembro de 2013

O problema vai muito além dos médicos estrangeiros (*)


Por princípio desconfio de textos bem arrumados que mais se parecem com anúncios publicitários. O do site oficial de apresentação do Programa Mais Médicos diz: "O Programa Mais Médicos faz parte de um amplo pacto de melhoria do atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde, que prevê mais investimentos em infraestrutura dos hospitais e unidades de saúde, além de levar mais médicos para regiões onde há escassez e ausência de profissionais".

Vivi muitos anos da minha vida no interior e sei o que é precisar de médicos e infraestrutura nas unidades de saúde. Minha mãe me carregou muitas vezes nos braços até Natal, onde enfrentávamos filas horrendas em busca de ajuda médica. De lá para cá, não mudou muita coisa. Talvez até tenha piorado porque aumentou o número da população. Há pouco tempo levei-a ao Centro Clínico da Ribeira e as filas quilométricas continuavam lá, as salas caindo aos pedaços, o teto com buracos, um calor infernal e funcionários desestimulados. Cinco meses de espera para uma consulta com o otorrino, para nos depararmos com um médico até atencioso, porém de mãos atadas porque, com os equipamentos quebrados não tinha como fazer um simples exame nela para ver se havia alguma perda auditiva. Nada mudou mesmo.

Posso até estar enganada mas eu não acredito nesse Mais Médicos. Não são médicos cubanos, espanhóis ou búlgaros que vão resolver a problemática da saúde no Brasil. Não adianta ter médico estrangeiro ou brasileiro em mil municípios se outros quatro mil continuarão desassistidos. Sem infraestrutura, equipamentos e insumos, o cara pode ser a maior sumidade e não vai conseguir resolver o problema do paciente, que continuará sendo transferido para os grandes centros. Por enquanto o que eu vi foi somente pressa em trazer esses profissionais que, convenhamos, têm pouquíssima isonomia para criticar um sistema de saúde que eles não conhecem ou vivenciam, como os médicos brasileiros. Esse programa me soa como eleitoreiro, para evidenciar o ministro Alexandre Padilha, que está de olho no Governo de São Paulo nas eleições de 2014.

Eu quero mais médicos para o interior sim. Para a Zona Rural se for o caso. Mas eu também sonho em mais saúde para a população; em mais financiamento público para a área. Os R$ 92 bilhões previstos para ano que vem ainda é pouco. Não me empolgam importações ou promessas falaciosas que, daqui a seis meses, vão se mostrar inócuas, vocês vão ver.  E tenho me assustado profundamente com a quantidade de gente que se volta contra a categoria médica como se eles fossem vilões. Eles merecem nosso respeito e solidariedade tanto quanto os professores, os engenheiros, os motoristas de ônibus, os jornalistas, os policiais e as empregadas domésticas, dentre todos os outros. E qual o problema de se querer preservar a reserva de mercado? Já pensou se a moda pega? Se toda categoria de profissionais do Brasil, que trabalha no serviço público, resolver botar a  boca no trombone e, ao criticar medidas extravagantes e paliativas do Governo Federal, de repente se verem substituídos por profissionais estrangeiros da mesma área?

Na verdade, não tenho nada contra a vinda de estrangeiros para trabalhar no país. Mas desde que isso não esconda intenções duvidosas, nem escamoteie problemas que não se resolverão somente com a presença dessas pessoas, e sim com ações e políticas públicas consistentes, a médio e longo prazo, e com real planejamento.

(*) Publicado hoje no Novo Jornal com alguns cortes, por conta do espaço...





Um comentário:

Lobo da Caatinga (Canis lupus caatinguensis ssp,) disse...

Muito mais fácil distribuir a própria responsabilidade "nos outros". Penso num programa de "Mais Políticos", uma vez que estes daqui falharam. Talvez da Spica ou mesmo de Sirius. Alguns colegas sugeriram a distante Betelguese... Qualquer coisa para tapar este buraco negro deixado sobre a terra.