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terça-feira, 8 de outubro de 2013

A gente sempre dava um jeito (*)



Nos dias de sol, a gente brincava de amarelinha, "tica", bola de gude, corda, cozinhado, queimada e o que mais desse na telha. Se chovia, a gente tomava banho de bica e ainda ajudava as mães a encher as jarras, de água que vinha das estrelas. Em qualquer situação, dávamos um jeito para irmos para a rua, encontrar os amigos, dar boas gargalhadas, brincar e não ver o tempo passar até a mãe da gente gritar pelo nosso nome para que viéssemos para casa. E elas tinham de gritar muitas vezes.

Só agora, nesse pouco tempo em que tento fazer uma rápida viagem pelos trilhos da minha infância, lembro-me de tanta coisa. Teve uma vez que era prova de matemática. E impressa em meu lápis havia a tabuada dos sete. Eu ía colar. Eu tinha que colar. Era impossível não sucumbir àquela facilidade. Minha professora Gilda, a mais bonita e doce professora que eu tive, percebeu e, talvez pela minha cara de cachorro que se perdeu na mudança, não me repreendeu ou castigou. Só substituiu momentaneamente meu lápis por um outro seu, preto, apagando minhas chances de não precisar contar mentalmente nos dedos quanto seria sete vezes oito. Na infância a gente pode contar nos dedos e, mesmo isso sendo um mico total até na infância, a gente não está nem aí para mico. 

Teve uma época em que meu grande sonho de consumo era ter uma daquelas bonecas bebê. Minha mãe não podia comprar uma daquelas caras que eu via na casa das primas e me comprou um boneco de plástico na feira. Eu não esperava para ter nada. Fazia minhas bonecas de pano, com cabelos compridos de pedaços de calças jeans desfiados. Fazia das caixas de fósforos móveis de brinquedo e ganhei, uma vez, uma bicicleta velha numa rifa que estava com os pneus furados e eu nunca brinquei com ela como queria. 

Se engana quem pensa que minha infância foi pobre. Minha infância foi das mais ricas em imaginação, criatividade, descobertas, brincadeiras e amizades. Quando enjoei do boneco de plástico, adotei uma melancia (eu teria enjoado também do boneco bebê da estrela). Isso mesmo. Peguei uma melancia, fiz um furo, botei uma chupeta, enrolei num pano e saí com o bebê pela pracinha.

Criar um mundo de possibilidades; não ter insônia depois das dez da noite; não saber o que danado é dor de cabeça; odiar sopa de carne e de feijão; fazer cara feia para comer alface e substituir arroz e feijão por bolo de chocolate e pipoca fazem parte da infância. Se não for assim, não tem graça. Não é tempo de felicidade. Não sou nostálgica com o tempo que passou. Tenho saudades do futuro. Mas, às portas de mais um Dia das Crianças, tive vontade de falar disso. Minha infância foi linda porque eu acreditava integralmente que a gente sempre dava um jeito de ser feliz.

publicado originalmente hoje no Novo Jornal (*)



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