Google+ Followers

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A tatuagem



- Está tudo bem?

Ele sempre perguntava naquele tom de voz suave e quase musical, que ela gostava tanto de ouvir. E mesmo quando não estava nada bem, quando ela nem tinha a menor vontade de responder àquela pergunta tão simples e ao mesmo tempo tão íntima e profunda, ela tentava manter o mesmo tom de voz e sem suspirar nem nada, sem levantar as sobrancelhas, sem dar de ombros ou sem sequer piscar, simplesmente respondia:

- Tudo

Tinha também aqueles dois gestos dele, dessa vez sem palavras, que ela amava tanto e que ela sonhara tanto que alguém fizesse com ela, porque seria uma espécie de senha que identificaria uma conexão, uma ligação que jamais outra pessoa alcançara, que era quando, ele, por sobre seu corpo pequeno e claro, muitas vezes com uma parte ainda dentro dela, levantava o tronco e beijava-lhe o joelho. Beijava com os olhos fechados, para sentir melhor o calor e a textura daquela parte da perna que ela dizia que não gostava muito, e que às vezes tinha uns fios fininhos e pontiagudos que furavam os lábios dele. E aquele outro gesto quando, bem devagar, ele baixava a cabeça calmamente próximo ao seu ventre e beijava a tatuagem que guardava tantos segredos, além da junção de todos os sons do mundo.  E perguntava:

- O que signfica essa tatuagem?

Existia um significado universal e seria esse ao qual ela se prenderia para falar e, quem sabe, escamotear as verdadeiras razões pelas quais ela tatuou um Om na barriga. 

- Bom, acho que é um símbolo hindu, o Om que, rasteiramente, seria a junção de todos os sons do universo, logo, a síntese da criação. 

Ignácio olhou profundamente para ela e parecia que não tinha acreditado em uma única palavra. Se sentiu quase ridícula.

- Eu sei o que significa o Om. Se esqueceu? Estou perguntando o que significa para você, tatuado no seu corpo.

Mina desconversou:

- Eu nunca pensei em fazer uma tatuagem evidente. Estou pensando em fazer outra agora, depois de tantos anos que fiz essa. Sabia? Mas também será em outro lugar secreto.

Ele fechou os olhos e a boca num gesto único. Ela não falaria nada sobre aquela tatuagem, que guardava seus segredos; os sons que ela não queria revelar, porque Mina sempre achava que se os sons não guardassem o mínimo de poesia, não havia necessidade de torná-los audíveis.

Ignácio, provocou. Mesmo sabendo que era um terreno perigoso e incerto.

- Você sabe que há muita poesia na dor, não sabe? 

- Sim, assim como dor até pode rimar com cocô! 

Ela tentou brincar, tentou mudar de assunto. Queria que ele esquecesse aquela maldita tatuagem já esverdeada pelo tempo. Tentou ela mesma esquecer os significados guardados porque, muitas vezes, das lembranças dolorosas do tempo reverso da dor, muitas vezes, as lembranças se transformam em sombra, depois nuvem, depois nada. E era isso o que deveria permanecer.

- Tudo vai ficar bem, não é?

Ignácio perguntou. Ele mesmo tentando mudar de assunto. Ele mesmo querendo esquecer do varal de lembranças que se descortinava em sua mente, de tantas outras mulheres que amou, tatuadas, púberes, maduras, claras, escuras, e que jamais chegaram perto daquele silêncio que ele tanto amava em Mina. Silêncio que ocultava um universo sombrio, mas próximo; estranho, mas fraternal; escuro, mas espelho. E Mina respondeu.

- Tudo


Nenhum comentário: