Google+ Followers

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Um dia, um olhar...



O menino de quase dois metros de altura fazia muitas caretas. Inquieto de dentro para fora. Brincava com as formas do rosto, enquanto alguns o olhavam perplexos e estranhos. Dava mesmo para se estranhar. Pelo tamanho dele, pelo fato de ser corpulento e pesado e, principalmente, por fazer caretas como se estivesse revelado alguma informação através de mímica facial. Eu pensava: ao menos a careta desse moço me distrai dessa espera infindável por esse ônibus que nunca vem; e esse calor que me sufoca e esse sol inclemente e essa fome do meio-dia dançando nas paredes do meu estômago. Esperar é um exercício que cansa até a alma. (A gente fica de alma cansada quando espera, não é?)/

Foi quando eu olhei para o senhorzinho de cabelos muito brancos e tênis esportivo. Mas eu não olhei para ele de soslaio como a gente costuma fazer com pessoas estranhas na rua (como se tivéssemos vergonha de encarar quem não é conhecido). Eu olhei bem profundamente para os olhos dele. E ele segurou o olhar.

Quis me desvencilhar daquele momento de estranheza íntima logo nos próximos dois segundos, mas ele não parecia que queria ceder. Manteve-se firme e eu não tinha outra alternativa a não ser segui-lo naquele ritual, naquele encontro, naquela dança de cílios abertos. Tive vontade de lhe perguntar muitas coisas, sobretudo se ele tinha medo, ou se sentia honra por alguma coisa ou se estava satisfeito com a vida. Ele havia me prendido no seu olhar. Eu poderia me apaixonar por aquele homem se a roda do tempo lhe retrocedesse em 30 anos, e tivéssemos nos encontrado na parada de ônibus e nos encarado daquela forma e então bateríamos um papo qualquer sobre o sol quente; ele me chamaria para sair, eu aceitaria; depois ambos contaríamos nossos segredos, dos sonhos aos pesadelos; e juntos, anos depois, veríamos que mesmo com tanto tempo passado e vivido, a corda rota, outrora fita encarnada que enlaça duas pessoas ao que os homens deram o nome de amor, não se rompera. Estava velha e gasta porém, permanente. Tão velha e tão gasta que invisível estava. Dela, na verdade, só restara aquela sensação física e táctil na pele de algo que não está mais lá, mas que continuamos sentindo sua presença (o que é, na verdade, a memória da alma).

O fato é que, nem cansada, nem resoluta, eu sabia o tempo todo como poderia me desvencilhar daquele momento tão poderoso entre mim e o senhorzinho de cabelos brancos e tênis esportivo na parada de ônibus da Praça Cívica. Sem piscar, sem retirar os olhos de minha missão de enxerga-lo eu lhe dei um sorriso de canto de boca. Ele finalmente piscou, eu retruquei. E partimos nossos olhares, cada qual em seu destino, para outras paisagens.


Nenhum comentário: