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sábado, 30 de novembro de 2013

Sete Voltas



Queria de volta aquela sensação de ver o novo e deixar nascer o olhar. Queria estar estranha num lugar que não me pertencia, nem eu pertencia a ele. Sempre que viajo é como se pudesse me apropriar de uma das características mais encantadoras dos gatos: olhar para as coisas - e eles fazem isso todo santo dia - como se fosse a primeira vez. Como se fosse um momento único e irrevogável transitar pelas avenidas de uma cidade nova, atentar-se para os prédios, as casas, as pessoas circulando, paradas nas esquinas, pessoas que você, provavelmente, nunca mais verá, tampouco saberá sobre suas vidas. É isso que nos permite viajar dentro da viagem. De construir pequenos e únicos momentos com suas cores, cheiros e movimentos que jamais se repetirão.

Foi em Santa Catarina - o máximo ao sul do país aonde já cheguei - que vi pela primeira vez gaivotas no mar. Aqui na nossa região temos muito sol, céu azul, dunas e coqueiros e deve ser lindo para quem vê pela primeira vez. Mas eu me encantei com aqueles pássaros brancos, descansando placidamente pela areia das praias banhadas em prata lunar, porque foi ali que percebi de maneira definitiva que eles eram os habitantes e eu a visita. E, confesso, não tive coragem de adentrar no mar gelado do Sul. Jamais trairia as águas mornas do meu Nordeste.

Pouco tempo. Muitas cidades para visitar. Uma vontade imensa de esticar os dias em varais de muitas horas. Primeiro pouso, Floripa. Na manhã seguinte, deveria seguir a estrada para conhecer lugares como, Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil,  Blumenau e Joinville. Minha base seria Balneário Camboriú, um município que fica na Região Metropolitana da Foz do Rio Itajaí, no litoral norte. É lá onde tem uma enorme estátua do Cristo, não o Redentor, mas o Cristo Luz, com 33 metros de altura e 528 toneladas. Uma vista esplendorosa da cidade, a mais de 150 metros do nível do mar. Impossível não querer fazer uma prece e agradecer.

Quando ainda estava em Floripa, me arrisquei num desses passeios tradicionais e fui até a Praça XV de Novembro. A natureza plantou naquele lugar uma figueira que se sabe que ultrapassou os cem anos há muito tempo. Ela é tão grande e imponente em sua inércia gigantesca que dá, literalmente, para fazer um passeio ao seu redor. E, dizem os antigos que dando-lhe sete voltas, ela apressa a chegada do amor. Estava na terceira quando ouvi uma voz desconhecida e acolhedora: - A senhorita está querendo encontrar um grande amor?

Olhei para a direção da voz e vi um velho senhor sentado num banco bem cuidado, de boina e uma bengala acostumada às suas mãos, descansando do exercício de apoiar os passos trôpegos dos anos. Ele tinha um sorriso maroto e, de repente, fiquei envergonhada, censurando-me por acreditar que dando sete voltas ao redor de uma velha árvore eu pudesse encontrar alguma coisa senão o ridículo daquele ato. Talvez acreditar numa lenda boba como essa seja uma espécie de ponto de partida, de anunciação ao coração de que sim, o amor pode surgir e pode entrar; uma espécie de senha de acesso que damos ao acaso. Não lhe falei nada, só descansei o rosto numa expressão amigável e num sorriso tímido e desisti das outras quatro voltas. Arrumei a mochila nas costas e me encaminhei para o barco que já me esperava para conhecer um pouco da história da ilha.

Foi quando o acaso me fitou pela primeira vez, naquele barco.

- Você vem lá de cima? – ele me perguntou, com o sorriso mais simpático do mundo nos olhos azuis e uma cor clara de cabelo que nenhuma Loreal Paris seria capaz de reproduzir. Passei três segundos para decodificar que aquilo não era uma cantada barata e que ele estava falando em termos geográficos e, imediatamente, me lembrei do Atlas do mapa do Brasil, mostrado pela professa da terceira série. O Nordeste fica lá no alto.

– Sim. Respondi reticente, mas num tom amigável e ele engatou: – Seu cabelo é lindo. Quase tocando nos anéis dos meus cachos negros, como se meu tom de pele e o meu sotaque fossem uma iguaria para aquele mar de pessoas brancas, loiras e absolutamente lindas. - Meu cabelo é Tapuia. Brinquei, sem saber se ele entenderia. Mas ele entendeu e demonstrou interesse. E assim fomos cada vez mais nos entendendo nas próximas horas, enquanto falávamos sobre viagens, passeios, livros, música, política, economia, horóscopo, diferenças territoriais, encontros e uma vontade de não se desgrudar enquanto fosse possível. Principalmente depois do primeiro beijo, que aconteceu de frente para o mar, tendo as gaivotas como testemunha.

O sabor inigualável da cuca alemã em Pomerode, a leveza dos cristais de Blumenau e o cheiro das flores da entrada de Joinville se misturaram com sua presença permanente e acolhedora. E ele ria quando eu dizia que o Jägermeister tinha gosto de biotônico Fontoura. E ríamos muito mais juntos depois de algumas tacinhas daquilo, e eu me sentia feliz e, de certo modo aliviada e livre de qualquer problema ou perigo. Tudo era possível e todo o resto poderia esperar. Bom, e é verdade que estava desacostumada de tanta gentileza masculina e quase tinha um susto quando ele tirava o casaco para ajudar a me aquecer, porque, todos os dias, eu batia os dentes de frio a partir das cinco da tarde.

Foram dias de alegria e contentamento. Dias em que as estrelas adiavam até às oito da noite a tarefa de espiar a terra e o sol tinha mais preguiça de amanhecer. – Quem sabe eu não subo o mapa para te encontrar, qualquer hora dessas,Tapuia. Ele me disse na despedida. E, embora eu não precisasse acreditar naquilo, o beijei longamente e com urgência, porque ainda queria manter intacta em mim a sensação de alívio por não necessitar procurar, nem dar mais voltas ao redor do mundo - ou de árvores - para encontrar um grande amor.

Atendendo a convite do querido Antonio Nahud, fiz esse texto que replico aqui, originalmente, para Revista Ícone (Turismo & Cultura no Nordeste) – sob o título: Viagem do Coração.





domingo, 24 de novembro de 2013

Radiohead - No Surprises



passei o dia inteiro com esse clipe e essa música na cabeça...

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

beijo


que a minha boca não se cale somente pelos teus beijos. que a minha boca esteja aberta e atenta para ouvir teus silêncios que me dizem tanto. que a minha boca seja a porta para receber as palavras que trarão, senão a verdade, ao menos a poesia. que a minha boca esteja ávida por receber tua saliva, teus fluidos e os sonhos contidos nele. que a minha boca seja a ponte para deixar que entre a noite e suas luas. que a minha boca faça uma prece para nunca se esquecer que não é só uma boca. que a minha boca guarde a paz para os dias em guerra. e que a minha boca seja arma para combater os covardes, os impuros de coração e a décima parte da hipocrisia. que a minha boca faça uma prece quando se instalar o desespero. que a minha boca sinta as paredes dos botecos da ribeira. e que, ao sentir os botecos, se entregue aos seus segredos e às suas verdades, como se fora uma boca que nunca, que antes, que depois e durante, seja somente uma boca aberta aos beijos. que a minha boca sinta teus beijos como se só neles se resumissem uma trepada. uma senhora trepada que se começa e se encerra no/com um beijo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Far From Alaska - Thievery (OFFICIAL)


tempos verbais

meus tempos verbais estão em desalinho. quando eu quero, eles dormem. quando eles querem, eu lavo o cabelo. quando durmo, sonho com uma mulher, um guarda-chuva e uma chuva que não tem barulho de chuva. ando tropeçando na falta dos desejos alheios. e querendo coisas que eu não sei bem se suportariam a intensidade dos meus segredos, dos meus cabelos, dos meus pedaços de passado tão vivos quanto a andorinha que canta na minha janela, das cenas da novela das nove. essas coisas todas que me afetam o tempo inteiro, como por exemplo ter uma natureza atenta em buscar o amor, mesmo quando ele não está lá.
ontem eu tomei um vinhho que veio de longe e ele revolveu as lembranças do rapaz que me tirou para dançar e trouxe de volta meu coração, como quem, por ventura, trouxesse a cabeça de joão batista numa bandeja. e tocava um tango quando todas essas coisas emergiram da minha alma já bem cansada e sonolenta e, como se não bastasse, tive saudades de Buenos Aires, esse lugar onde eu nunca fui nessa vida e, no entanto, eu pertenço como o arrepio pertence à pele.
eu quero. eu penso. eu choro. eu lido. eu canso. eu disparo. eu paro. eu corro. eu canto. eu disfarço. eu calo. e, por hora, eu vivo em desalinho com meus tempos verbais.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Um nome para guardar (*)






Acontece com todo mundo. Você interpela alguém, entoa uma conversa utilitária e, minutos depois, a pessoa te interrompe e diz: "desculpe, como é mesmo seu nome?". Os operadores de telemarketing sabem muito bem do que estou falando. Quando acontece comigo, me dá um desapontamento instantâneo e uma espécie de barreira se firma de imediato na conversa, nem que seja apenas por alguns segundos fico travada, questiono internamente por que a pessoa não ouviu quando eu falei a primeira vez. Nosso nome é a coisa mais simples e mais profunda que a gente carrega por toda vida. É só um nome, mas é nosso: com "S", com "H", com "E", com "Y", com "L" e com um "A". Todo mundo faz questão de soletrar o nome, sobretudo quando ele vem com a pecha do estrangeirismo que afetou o povo que fez filho nos anos 1970. Se você é Ruy, com "Y", não vai querer ser pichado por aí com um "i", não é mesmo?

Esquecer o nome é jogar piche na boa educação. E por esses tempos quentes debaixo do sol, a pichação corre solta. E olhe que eu não estou falando dessas que a gente encontra nos logradouros públicos; porque essas, quando não estão grafadas assassinando o vernáculo, até que me são bastante estimulantes. A rapaziada não tem vez nem voz então manda brasa nos recados urbanos. Sem falar nos grandes artistas de rua que deixam suas belas manchas nos muros. Mas o fato é que vivemos num mundo de esquecimentos e solidões compartilhadas.

Passando tanto tempo diante dos computadores, construindo um mundo de informações e contatos, sabendo através do feed de notícias que seu amigo que no momento mora na konchinchina está naquele exato instante calçando meias - e ele acha importantíssimo publicar isso - você cria a ilusão de que não está só. Mas está. E não só os estranhos estão esquecendo nossos nomes. Os próximos, se ainda não adentraram na pachorra de esquecer os nomes, estão esquecendo de atender aos telefones, de retornar as ligações, de responder a recados, de compartilharem cumprimentos e carinhos, de marcar um compromisso e, simplesmente não aparecer e sequer avisar ou pedir desculpas depois. Alguns amigos já me reclamaram tantas e tantas vezes de uma coisa ou de outra dessas situações que citei. E confesso não me orgulho disso e, por vezes, sofro quando é comigo. Sofro porque me sinto um ET. Sofro porque acho que todo mundo me acha uma chata do século passado reclamando porque ninguém chega mais no horário marcado.  E, quando se atrasa, não avisa, não pede desculpas, parece não se preocupar com a espera do outro. Parece não se preocupar muito com o outro. O mundo está ficando sem nome. E eu, muitas vezes extasiada e só, ainda estou aguardando ser um nome para guardar.


 (*) Texto publicado originalmente no Novo Jornal, nesta terça-feira, 19 de novembro




Passenger - Let Her Go [Official Video]


domingo, 17 de novembro de 2013

Aquele olhar e eu


Ele falava olhando nos olhos. A voz era compassada e baixa e, em sendo assim tão calma, me levava para o universo sonoro das palavras bem faladas. Tive vontade de ouvi-lo por muitas horas e de segurar a sua mão nas minhas e de dar-lhe a boca para ouvir a sua com mais ímpeto. Mas ali minha condição sobretudo de ouvinte, o tom era apenas de passiva admiração. O que não me torna morta por supuesto.

Se fosse possível eu o teria levado para dentro da minha casa inteira, já que lhe reservei - por algumas horas - cantos da minha alma. E o teria oferecido estados domésticos e prosaicos da minha existência com um pouco de café quente, uma taça de vinho, dois dedos de prosa, algumas páginas de poesia, uma música no rádio, a indiferença latente dos meus gatos e até, quem sabe, passados alguns dias, lhe ofereceria algumas gotas dos meus segredos, para que nascessem brotos de confiança e dor compartida. Porque seus olhos, além de falar com os meus, também eram tristes, o que a mim quer dizer que ali habitam dores presas na rede dos cílios.

O senhor A (vou chamá-lo assim) é um homem que, por ter tanto domínio de si mesmo, já percebeu que é completamente dominado; se não pelo total acaso, ao menos pela inevitável desordem natural dos dias que ainda não chegaram e que, sempre, bastando estar distraído, nos trazem algo a que damos o nome de vida.

Eu poderia ter me apaixonado pelo senhor A. Eu poderia ter encontrado nele um breviário amoroso, um algo que eu penso que é desejo, paixão e que, depois da necessária decantação dos dias, tornar-se-ía amor. Mas eu estava ocupada demais com aqueles olhos pousados nos meus, me dizendo coisas, me ensinando outras, me abrindo janelas, conduzindo-me a pontes por sobre rios de conhecimento, me mergulhando no mundo das palavras, das dele, das alheias e também das minhas, que logo ensaiaram alguns passos possíveis para se não chegar ao refrigério e à salvação, que ao menos chegue a um caminho possível, para quem vive nos perigos e nas veredas dessa vida curtida por sobre os suores da literatura.

Esse poderia ser um relato de paixão. Mas é muito mais, é um relato (verdadeiro e tímido) da mais pura admiração por um homem, um homem que sabe que é escritor e um homem que fala com os outros olhando profundamente para nossos olhos.



Janis Joplin- Piece of my heart



Janis para fazer o domingo terminar...

"Viola Enluarada", por Guilherme Moscardini ? Sr Brasil 24/11/2012



menino incrível...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

The Doors Indian Summer

https://www.youtube.com/watch?v=x8grCBChdow

Autobiografia quase não autorizada de Amelie *


Bom, há menos de dois dias eu vivia no meio do mato. Ou ao menos foi onde minha protetora me achou. Eu era só carrapichos, remelas e outras mazelas que os antibióticos já estão curando. Acham que eu tenho a cabeça - sobretudo as orelhas - e as patas desproporcionais ao resto do corpo, mas eu não estou nem aí para estética. Primeiro pensaram que eu era um menino e meu nome seria "Caê", depois ponderaram e, por enquanto, eu sou uma menina. E meu nome não poderia ser outro, senão Amelie. Eu não consigo explicar para minha protetora o que eu fazia antes de ela me resgatar ou o que diabos eu estava fazendo a caminho da estrada de Pirangi Praia; onde estaria minha mãe, meus irmãos e o que eu havia comido até então para ter aparentemente quatro semanas. Mas, o que ela não tem a menor dúvida é que eu sou muito feliz. Mesmo quando estava toda fraquinha, toda alquebrada, eu não parava de brincar. Eu olho para ela com meus olhos acinzentados e é como se eu desse um grande sorriso para ela e dissesse: "Ei, cara, a vida é legal!". É bem verdade que tem uns dois da minha espécie bem maiores que eu no lugar onde estou e eles não são nada amigáveis. Mas, por enquanto, está dando para me segurar num "barraco" improvisado e quando não estou praticando meus esportes prediletos - comer e dormir, dormir e comer - eu brinco. Esse aí embaixo de mim, é um ratinho, o Poulin. Alguém quer brincar?


Bom,  autobiografias à parte, Amelie (para tudo: parece que Amelie é um gatinho... estamos em dúvida) foi resgatada na estrada de Pirangi Praia, quando eu estava indo para a prainha com minha amiga Lu, porque simplesmente não havia outra opção. Não consigo ficar indiferente à dor, ao abandono e à inocência de um animal tão indefeso. Assim que ela me viu era como se pedisse ajuda. Tirei os milhares de carrapichos pregados no corpinho dela e já ía me despedindo quando ela fez menção de ir para a pista -  me seguindo - onde seria atropelada seguramente. Bom, o resto da história já dá para imaginar né? Há dois dias eu não teria coragem de postar foto dela. Mas, desde domingo Amelie tem dado respostas muito positivas aos cuidados que a gente desprende a ela. É dócil, não tem medo de gente, brincalhona como ela mesma confessou, come bem, toma água, faz as necessidades fisiológicas na areia e já está devidamente vermifugada, medicada com antibióticos para a conjuntivite e sem pulgas. Esse é um lar temporário porque os gatos adultos da casa não aceitam outros animais. Aqui ela está correndo outro tipo de perigo. Mas vai dar tudo certo. Amelie já é uma sobrevivente e eu tenho certeza de que tem uma família por aí que vai querer ter tanta alegria e esperança em casa.

domingo, 10 de novembro de 2013

Manifesto pela Liberdade das Biografias




No momento em que a Justiça brasileira discute o estatuto legal das biografias e que um amplo debate sobre a liberdade de pesquisa e de divulgação se estabelece no País, nós – historiadores, escritores, intelectuais e acadêmicos – vimos a público para expressar nosso apoio aos seguintes princípios.

Liberdade para as biografias

As vidas dos indivíduos são parte da história. As biografias são, portanto, formas de entender a realidade e não podem ser objeto de nenhum limite ou interdição. Castrar a biografia significa ferir mortalmente a compreensão das sociedades.

O biógrafo deve poder interpretar seus personagens livremente, assim como o historiador escolhe e analisa os seus temas sem entraves ou imposições.

O historiador não pede licença ao Estado ou aos partidos para escrever a história política; não solicita a benção de Igrejas ou templos para expor sua visão sobre a história das religiões; não depende de empresas ou corporações para analisar o fenômeno econômico. Do mesmo modo, o biógrafo não pode estar submetido à autorização do biografado para falar de seu personagem.

A biografia não busca elogiar nem insultar, mas entender. O biógrafo deve ser livre para reconhecer e expor as virtudes e os defeitos dos atores da história, acima das sensibilidades pessoais ou dos interesses de qualquer natureza. A biografia pode ser inconveniente, mas jamais desonesta com os fatos.

O respeito à privacidade não pode sobrepor-se ao interesse coletivo em se conhecer o passado e o presente. Cabe ao biógrafo distinguir criteriosamente entre a exposição inútil da vida pessoal e os detalhes significantes para a explicação do contexto.

A biografia não é uma invasão da vida alheia, mas um procedimento de análise sério e metódico, fundado em documentos e depoimentos, que visa a estabelecer as relações entre os personagens e sua época.

As trajetórias pessoais não são uma mercadoria. O direito de escrever sobre elas não deve ser objeto de negociações ou de contratos comerciais. A mercantilização dos temas e dos personagens históricos compromete a independência do autor.

A biografia não é uma causa jurídica. Não pode ser controlada pelos legisladores nem cerceada pelos tribunais. O Estado brasileiro já dispõe de amplo aparato legal para corrigir e coibir os eventuais abusos e desvios de uma biografia, sem necessidade de recorrer à censura prévia.

Em um Estado democrático e livre, a biografia e a história não podem ser reféns da censura privada ou de Estado, nem podem ser asfixiadas pelo medo de processos e de sanções indevidas. Negar isso seria transformar a biografia em peça de propaganda dos indivíduos biografados ou em veículo de uma verdade oficial.

A liberdade para as biografias é, em suma, parte da liberdade de expressão. É imperioso que sejam garantidas as condições de pesquisa e de divulgação de seus resultados.

SIGNATÁRIOS

Adrián Pablo Fanjul – Professor da USP
Aldrin Castellucci – Historiador – Professor da UNEB
Alessandra Pellegrino Negrão – Historiadora e Jornalista – UCSAL
Alex Degan – Historiador – Professor da UFTM
Alexandre Galvão Carvalho – Historiador – Professor da UESB
Alfredo Bosi – Professor da USP – Membro da Academia Brasileira de Letras
Aline Vieira de Carvalho – Laboratório de Arqueologia Pública – UNICAMP
Alípio de Sousa Filho – Cientista Social – Professor da UFRN
Álvaro de Vita – Professor da USP
Ana Chrystina Mignot – Professora da UERJ
Ana Claudia Perpétuo de Oliveira da Silva – Professora da UFSC
Ana Lívia Bomfim Vieira – Historiadora – Professora da U. Estadual do Maranhão
Ana Luce Girão Soares de Lima – Historiadora – Pesquisadora da FIOCRUZ
Ana Paula Megiani – Historiadora – Professora da USP
Anamaria Marcon Venson – Historiadora – UFSC
Angela Alonso – Socióloga – Professora da USP-CEBRAP
Angélica Müller – Historiadora – Professora da Universidade Salgado de Oliveira
Anibal Bragança – Historiador – Professor da UFF
Antonio Andrade – Professor da UFRJ
Antonio Dimas – Professor da USP
Antonio José Barbosa – Historiador – Professor UnB
Arthur Alfaix Assis – Historiador – Professor da UnB
Benito Bisso Schmidt – Historiador – Professor da UFRGS
Breno Battistin Sebastiani – Professor da USP
Cândido Domingues – Historiador – Professor da UNEB
Carla Maria Carvalho de Almeida – Historiadora – Professora da UFJF
Carla Renata Antunes de Souza Gomes – Historiadora – Professora da FTSG
Carlos Augusto Ribeiro Machado – Historiador – Professor da USP
Carlos de Almeida Prado Bacellar – Historiador – Professor da USP
Carlos Eduardo Vidigal – Historiador – Professor da UnB
Carlos Henrique Barbosa Gonçalves – Historiador da Ciência – Professor da USP
Caroline Jaques Cubas – Historiadora – UFSC
Celso Taveira – Historiador – Professor da UFOP
Chiara Vangelista – Historiadora – Professora da Universidade de Gênova
Claudete Beise Ulrich – Coordenadora de estudos – U. De Hamburgo
Cláudia Schemes – Historiadora – Professora da FEEVALE
Cláudia Viscardi – Historiadora – Professora da UFJF
Claudio Henrique de Moraes Batalha – Historiador – Professor da UNICAMP
Cloves Macêdo Neto – Pesquisador – UFBA
Cristiano Roque Antunes Barreira – Psicólogo – Professor da USP
Cristina Scheibe Wolff – Historiadora – Professora da UFSC
Daiana Crús Chagas – Historiadora – Escola Politécnica Joaquim Venâncio
Daniel Aarão Reis – Historiador – Professor da UFF
Daniel Barbosa Andrade de Faria – Historiador – Professor da UnB
Debora Bastos – Historiadora – UFJF
Débora El-Jaick Andrade – Historiadora – Professora da UFF
Diogo Jorge de Melo – Historiador – Professor da UFPA
Diogo Ramada Curto – Historiador – Universidade Nova de Lisboa
Edgar de Decca – Historiador – Professor da UNICAMP
Edilece Souza Couto – Historiadora – Professora da UFBA
Eduardo H. B. Vasconcelos – Historiador – Professor da UEG
Eliana de Freitas Dutra – Historiadora – Professora da UFMG
Elizabeth Abrantes – Historiadora – Professora da UEMA
Elizabeth Cancelli – Historiadora – Professora da USP
Elza Filgueiras – Pesquisadora do Museu de Arte do Espírito Santo
Erivaldo Fagundes Neves – Historiador – Professor da UEFS
Estevão de Rezende Martins – Historiador – Professor da UnB
Fabrina Magalhães Pinto – Historiadora – Professora da UFF
Fatima Pivetta – Pesquisadora da FIOCRUZ
Felipe Spadari da Silva – Historiador – Centro de Documentação e Memória Maurício Grabois
Fernando Teixeira da Silva – Historiador – Professor da UNICAMP
Francisco Alambert – Historiador – Professor da USP
Francisco Alcides do Nascimento – Historiador – Professor da UFPI
Francisco Bethencourt – Historiador – Professor do King’s College London
Francisco Carlos Palomanes Martinho – Historiador – Professor da USP
Francisco Marshall – Historiador – Professor da UFRGS
François Dosse – Historiador – Professor da Universidade de Paris-XII
Gabriela Pellegrino Soares – Historiadora – Professora da USP
Gislene Aparecida dos Santos – Geógrafa – Professora da UFPR
Giuliana Ragusa – Professora da USP
Gláucia de Oliveira Assis – Antropóloga – Professora da UDESC
Graciela Foglia – Professora da UNIFESP
Heloisa Maria Murgel Starling – Historiadora – Professora da UFMG
Heloisa Pontes – Antropóloga – Professora da UNICAMP
Henrique Mondanez de Sant’Anna – Historiador – Professor da UnB
Ione Oliveira – Historiadora – Professora da UnB
Iris Kantor – Historiadora – Professora da USP
Izabel Andrade Marson – Historiadora – Professora da UNICAMP
Jacqueline Hermann – Historiadora – Professora da UFRJ
Jacyntho Lins Brandão – Professor da UFMG
Jefferson José Queler – Historiador – Professor da UFOP
Joana Maria Pedro – Historiadora – Professora da UFSC
João Fábio Bertonha – Historiador – Professor da U. Estadual de Maringá
João José Reis – Historiador – Professor da UFBA
Jorge Coli – Historiador – Professor da UNICAMP
Jorge Ferreira – Historiador – Professor da UFF
José Murilo de Carvalho – Historiador – Academia Brasileira de Letras
José Otávio Guimarães – Historiador – Professor da UnB
Josianne Francia Cerasoli – Historiadora – Professora da UNICAMP
Juliana Rodrigues Lucena – Historiadora – Professora da Faculdade Líder
Juliano Custódio Sobrinho – Professor da Uninove
Julio Cesar Magalhães de Oliveira – Historiador – Professor da USP
Júlio Pimentel Pinto – Historiador – Professor da USP
Junia Ferreira Furtado – historiadora – Professora da UFMG
Kátia Pozzer – Historiadora – Professora da ULBRA
Keila Grinberg – Historiadora – Professora da UNIRIO
Larissa Rosa Correa –Historiadora – Instituto Internacional de História Social de Amsterdam
Laura de Mello e Souza – Historiadora – Professora da USP
Leandro Ranieri – Professor da UFSCar
Lenira Zancan – Pesquisadora da FIOCRUZ
Lia Gomes Pinto de Sousa – Historiadora – FIOCRUZ
Lídia Cunha – Historiadora – Professora da UESB
Lídia Maria Vianna Possas – Historiadora – Professora da UNESP
Lúcia Guimarães – Historiadora – Professora da UERJ
Luiz Bernardo Pericás – Historiador – Professor da USP
Luiz Carlos Soares – Historiador – Professor da UFF
Luiz Cláudio Machado – Historiador
Luiz Eduardo Catta – Historiador – Professor da UNIOESTE
Luiz Estevam de Oliveira Fernandes, Historiador – Professor da UFOP
Luiz Mott – Antropólogo – Professor da UFBA
Luiz Teixeira – Historiador – Pesquisador da FIOCRUZ
Maciel Henrique Carneiro da Silva – Historiador – Professor do IFPE
Mafalda Cunha – Historiadora – Professora da Universidade de Évora
Marcelo Cândido da Silva – Historiador – Professor da USP
Marcelo Rede – Historiador – Professor da USP
Márcia Maria Menendes Motta – Historiadora – Professora da UFF
Márcio de Souza Soares – Historiador – Professor da UFF
Márcio Souza Gonçalves – Professor da UERJ
Marco Antonio Silveira – Historiador – Professor da UFOP
Marcos Fábio Freire Montysuma – Historiador – Professor da UFSC
Marcos Martinho – Professor da USP
Marcos Napolitano – Historiador – Professor da USP
Margareth Rago – Historiadora – Professora da UNICAMP
Maria Carolina Bissoto – Consultora – Comissão de Anistia – Ministério da Justiça
Maria Clementina Pereira Cunha – Historiadora – Professora da UNICAMP
Maria Cristina Pereira – Historiadora – Professora da USP
Maria Helena P. T. Machado – Historiadora – Professora da USP
Maria Helena Rolim Capelato – Historiadora – Professora da USP
Maria Lêda Oliveira – Historiadora – Professora da USP
Maria Paula Nascimento Araujo – Historiadora – Professora da UFRJ
Maria Rosa Dória Ribeiro – Historiadora – Fulbright Scholar – College of New Rochelle
Maria Stella Martin Bresciani – Historiadora – Professora da UNICAMP
Maria Valéria Barbosa – Arquivista – UNICAMP
Mariângela Nogueira – Tradutora
Marilia Barcellos – Professora da UFSM
Marina de Mello e Souza – Historiadora – Professora da USP
Marineide de Oliveira Gomes – Professora da UNIFESP
Mariza do Carmo Rodrigues – Historiadora – Professora da UNEB
Mary del Priore – Historiadora – Professora da Universidade Salgado de Oliveira
Mary Junqueira – Historiadora – Professora da USP
Mateus H. F. Pereira – Historiador – Professor da UFOP
Maurício Cardoso – Historiador – Professor da USP
Maximus Santiago – Médico – Professor da UFF
Milton Guran – Professor da UFF
Moacir Rodrigo de Castro Maia – Historiador – Professor da UFRJ
Monica Duarte Dantas – Historiadora – Professora da USP
Nara Azevedo – Historiadora – Pesquisadora da FIOCRUZ
Neide Elias – Professora da UNIFESP
Neri de Barros Almeida – Historiadora – Professora da UNICAMP
Nikelen Acosta Witter – Historiadora – Centro Universitário Franciscano
Nivaldo Rodrigues da Silva Filho – Professor da UEPB
Orávio de Campos – Núcleo de Arte e Cultura
Orlando Luiz de Araújo – Historiador – Professor da UFCE
Patrícia Melo Sampaio – Historiadora – Professora da UFAM
Patrícia Santos Hansen – Historiadora – Universidade de Lisboa
Paulo Elian – Historiador – Pesquisador da FIOCRUZ
Paulo Fontes – Historiador – Professor do CPDOC-FGV
Pedro Ernesto Fagundes – Professor da UFES
Peter Robert Demant – Historiador – Professor da USP
Priscila Musquim Alcântara – Historiadora – UFJF
Rachel Soihet – Historiadora – Professora da UFF
Raquel Glezer – Historiadora – Professora da USP
Regina Dantas – Historiadora – Professora da UFRJ
Renato da Silveira – Professor da UFBA
Renato Lessa – Cientista Político – Presidente da Biblioteca Nacional
Renato Pinto Venâncio – Professor de Arquivologia da UFMG
Ricardo Figueiredo de Castro – Historiador – Professor da UFRJ
Ricardo Henrique Salles – Historiador – Professor da UNIRIO
Ricardo Lima – Jornalista – Coordenador da Editora da UNICAMP
Rita de Cássia da Silva Almico – Professora da UFF
Robert W. Slenes – Historiador – Professor da UNICAMP
Ronald Raminelli – Historiador – Professor da UFF
Ronaldo Vainfas – Historiador – Professor da UFF
Sandra Reimão – Professora da USP
Sérgio Alcides – Professor da UFMG
Sérgio da Mata – Historiador – Professor da UFOP
Sidney Chalhoub – Historiador – Professor da UNICAMP
Silvana Rubino – Historiadora – Professora da UNICAMP
Silvia Hunold Lara – Historiadora – Professora da UNICAMP
Sonia Faerstein – Professora da UERJ
Stuart B Schwartz – Historiador – Professor da Universidade de Yale
Suzana Chwartz – Professora da USP
Tânia Mara Pereira Vasconcelos – Historiadora – Professora da UNEB
Tania Maria Dias Fernandes – Pesquisadora da FIOCRUZ
Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira – Historiadora – Professora da UERJ
Tânia Salgada Pimenta – Pesquisadora da FIOCRUZ
Teresa Cristina de Novaes Marques – Historiadora – professora da UnB
Teresa Cristófani Barreto – Professora da USP
Théo Lobarinhas Pinero – Historiador – Professor da UFF
Thiago Rattes de Andrade – Historiador – UFJF
Thomás Haddad – Historiador da Ciência – Professor da USP
Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses – Historiador – Professor Emérito da USP
Valéria Andrade – Professora da UFCG
Valéria Gomes da Costa – Historiadora – Professora da Faculdade Anglo Líder
Vanda Arantes do Vale – Historiadora – Professora da UFJF
Vânia Vasconcelos – Historiadora – Professora da UNEB
Vavy Pacheco Borges – Historiadora – Professora aposentada da Unicamp
Vima Lia de Rossi Martin – Professora da USP
Walter Fraga – Historiador – Professor da UFRB
Yara Aparecida Couto – Professora da UFSCar
***


sábado, 9 de novembro de 2013

eu quero uma chuva pra mim...





... dessas que me tocam a pele do rosto como se fossem pequenos alfinetes tímidos a provocar os poros. Eu quero uma chuva para mim que espante os maus-olhados, que regue minhas plantinhas e que me faça dormir com barulho de gotas cantando para o vento. Eu quero uma chuva para mim, dessas que têm caído em pleno novembro, num fenômeno climático atípico que me pegou desprevenida e cheia de admiração pelas coisas inesperadas.

eu quero uma chuva para mim que atravesse as janelas das minhas lembranças e inunde a sala onde descansam minhas memórias de infância, as cantigas de ninar da minha avó, a volta do meu pai, o entardecer de Bom Jesus, meia dúzia de bonecas de pano, um banho de bica.

eu quero uma chuva para mim que lave até a alma e me deixe levinha levinha levinha para suportar as coisas que descansam no futuro.

eu quero uma chuva pra mim.

Eu vi no Don´t Touch...

... e trouxe para cá.


a kim deal fez essa canção para a mãe, que tem alzheimer. kim deal já foi do pixies, agora está no Breeders. e eu gosto da música. c´est tout!


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Amor incomoda?





Amor é capaz de despertar muitas reações nas pessoas. Mas, nunca  havia pensado se o amor realmente pudesse incomodar, até me deparar com essa pichação na parede do Museu Djalma Maranhão, na Praça Augusto Severo, na Ribeira. Vi há alguns dias. Não tive tempo de fotografar mas, hoje, em meio à correria das horas e da dança dos ponteiros que insistem em me deixar sempre uns 15 minutos para trás, em descompasso, eu parei e fiz a(s) foto(s). E me fiz também a pergunta provocativa da parede: Amor incomoda? 

Talvez, pensando rápido, sim. Incomoda quando é propalado em demasia ou quando é revestido de pieguices de novela. Mas, convenhamos, eu não estou aqui para questionar os roteiristas de televisão. O fato é que desde que vi pela primeira vez essa pergunta e sentei no ônibus a caminho de casa, fiquei a pensar se por acaso o amor alguma vez me incomodou. E a resposta foi sonora e límpida: não! (Me incomoda mais ter de usar a partícula "me" antes do verbo em início de frase).

Falando sério, me incomoda mais a falta de amor. Isso sim me deixa inquieta e, algumas vezes, infeliz. Quando eu vejo alguém ou um grupo desperdiçando uma boa oportunidade de amar - alguém ou um grupo - eu fico muito chateada. Um amigo dizia dia desses para mim que tinha acabado de sair de uma badalação cultural e que tinha sido muito legal e coisa e tal mas, no entanto, ele estava cansado e que preferia conversar com a filha, com a ex-mulher, comigo que sou sua amiga, dentre outras pessoas que lhes são caras. E eu disse para ele, porque isso é, simplesmente, amor. A gente pode passar três horas apreciando um Van Gogh no museu; pode ter uma experiência sensorial única e avassaladora ouvindo Bach ou Debussy e pode chorar diante de um poema de Leminski. Mas a arte sem amor não se completa. E o amor é simples. Não precisa de penduricalhos. Não precisa, muitas vezes, sequer de explicações ou tergiversações. O amor é pão com manteiga. O resto é perfumaria.

Amor pode ser tudo isso mas, isoladamente, não é somente sexo; não é somente desejo; não é somente certeza; não é somente alegria; não é somente epifania ou purificação. Amor, às vezes, nem é. Fica sendo. Vai se instalando devagar e longe, mesmo a gente não sabendo e mesmo a gente nem querendo.

O amor é, talvez seja, uma grande distração de todos esses conceitos que lhes impingem os homens. O amor é assentamento da alma nos territórios do corpo. Acho que é isso. Amor é um negócio tão doido que é como se, do nada percebêssemos que desde sempre, éramos capazes de sermos os mesmos só que completamente diferentes. Sacou? 

Pois é, o amor não incomoda. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Esse carinha (artigo publicado originalmente para o Novo Jornal, hoje)


- É a vez d´eu!

- Não, Michael, 'é a minha vez' de jogar.

- Não tia, é a vez d´eu!

E assim foram alguns de nossos diálogos no decorrer do nosso encontro. Eu tentava corrigi-lo, e ele simplesmente não entendia, mesmo depois da quarta ou da quinta vez de pérolas como “João Paulo bateu n´eu!". Mais espontâneo do que costumeiramente as crianças são nos primeiros cinco segundos de um colóquio com um adulto absolutamente estranho ao seu universo, assim que me viu, Michael comentou: "eu nunca tinha visto uma calça dessa cor... Taí, gostei!". E desatou a perguntar outras coisas, dessas que adentram pela alma da gente pela simplicidade. Nosso encontro foi uma espécie de entrada ao vivo. Não tivemos qualquer ensaio prévio. E, de repente, era como se ele há muito fizesse parte da minha vida. Empatia imediata. Daquelas que não se resolvem apenas com palavras. Foram precisos abraços. Ele, pequenino, me agarrava pela cintura e, com o devido consentimento da mãe – que é um pouco ciumenta com o único rebento – de vez em quando vinha e sentava-se no meu colo. Numa apropriação sutil, porém contundente do meu bem querer. 

Ele não é somente Michael. É "Michael Douglas" mas ele não gosta muito do Douglas e quando eu pedi para soletrar Michael ele disse direitinho, mas não entende por que a pronúncia é diferente. Eu expliquei porque e em menos de dois segundos ele já não tinha o menor interesse. Michael é assim. Não presta atenção por muito tempo. Ou pelo menos finge que não liga e se ocupa rápido dos outros pedaços de tempo que a vida vai trazendo segundo a segundo e ele não quer perder nenhum. As professoras chamaram a mãe e reclamaram da falta de atenção, afixando uma placa de preconceito e desinformação sobre o menino branquinho de tez rosada e cabelinho cheio de anéis. A mãe, um pouco perdida um pouco desesperada, o trouxe para Natal e, lá no Centro de Reabilitação Infantil (CRI), um dos especialistas deu o diagnóstico: "mãe, seu filho não é doido não. É sim muito inteligente. E tem uma coisa chamada HIPERATIVIDADE".

A mãe suspirou aliviada. Mas por pouco tempo porque as pessoas insistem em afirmar que o menino “tem problemas” ou pior, “é doido” ou  "é especial". E a hiperatividade é um capítulo que ela tenta acompanhar todos os dias, todas as horas do dia e às vezes até mesmo da noite inteira, quando ele cisma em não dormir. Michael é um menino de sete anos, mas também poderia ser um pássaro, uma bola de futebol, duas sandálias com as tiras quebradas em menos de 12 horas, uma camiseta suja, uma disposição de carinho no meio do sol quente, uma dignidade de gente que um dia vai ser grande e um desgoverno apropriado no gostar que a gente só encontra nas emoções, no carinho e no encantamento da infância.



domingo, 3 de novembro de 2013