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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Esse carinha (artigo publicado originalmente para o Novo Jornal, hoje)


- É a vez d´eu!

- Não, Michael, 'é a minha vez' de jogar.

- Não tia, é a vez d´eu!

E assim foram alguns de nossos diálogos no decorrer do nosso encontro. Eu tentava corrigi-lo, e ele simplesmente não entendia, mesmo depois da quarta ou da quinta vez de pérolas como “João Paulo bateu n´eu!". Mais espontâneo do que costumeiramente as crianças são nos primeiros cinco segundos de um colóquio com um adulto absolutamente estranho ao seu universo, assim que me viu, Michael comentou: "eu nunca tinha visto uma calça dessa cor... Taí, gostei!". E desatou a perguntar outras coisas, dessas que adentram pela alma da gente pela simplicidade. Nosso encontro foi uma espécie de entrada ao vivo. Não tivemos qualquer ensaio prévio. E, de repente, era como se ele há muito fizesse parte da minha vida. Empatia imediata. Daquelas que não se resolvem apenas com palavras. Foram precisos abraços. Ele, pequenino, me agarrava pela cintura e, com o devido consentimento da mãe – que é um pouco ciumenta com o único rebento – de vez em quando vinha e sentava-se no meu colo. Numa apropriação sutil, porém contundente do meu bem querer. 

Ele não é somente Michael. É "Michael Douglas" mas ele não gosta muito do Douglas e quando eu pedi para soletrar Michael ele disse direitinho, mas não entende por que a pronúncia é diferente. Eu expliquei porque e em menos de dois segundos ele já não tinha o menor interesse. Michael é assim. Não presta atenção por muito tempo. Ou pelo menos finge que não liga e se ocupa rápido dos outros pedaços de tempo que a vida vai trazendo segundo a segundo e ele não quer perder nenhum. As professoras chamaram a mãe e reclamaram da falta de atenção, afixando uma placa de preconceito e desinformação sobre o menino branquinho de tez rosada e cabelinho cheio de anéis. A mãe, um pouco perdida um pouco desesperada, o trouxe para Natal e, lá no Centro de Reabilitação Infantil (CRI), um dos especialistas deu o diagnóstico: "mãe, seu filho não é doido não. É sim muito inteligente. E tem uma coisa chamada HIPERATIVIDADE".

A mãe suspirou aliviada. Mas por pouco tempo porque as pessoas insistem em afirmar que o menino “tem problemas” ou pior, “é doido” ou  "é especial". E a hiperatividade é um capítulo que ela tenta acompanhar todos os dias, todas as horas do dia e às vezes até mesmo da noite inteira, quando ele cisma em não dormir. Michael é um menino de sete anos, mas também poderia ser um pássaro, uma bola de futebol, duas sandálias com as tiras quebradas em menos de 12 horas, uma camiseta suja, uma disposição de carinho no meio do sol quente, uma dignidade de gente que um dia vai ser grande e um desgoverno apropriado no gostar que a gente só encontra nas emoções, no carinho e no encantamento da infância.



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