Google+ Followers

sábado, 30 de novembro de 2013

Sete Voltas



Queria de volta aquela sensação de ver o novo e deixar nascer o olhar. Queria estar estranha num lugar que não me pertencia, nem eu pertencia a ele. Sempre que viajo é como se pudesse me apropriar de uma das características mais encantadoras dos gatos: olhar para as coisas - e eles fazem isso todo santo dia - como se fosse a primeira vez. Como se fosse um momento único e irrevogável transitar pelas avenidas de uma cidade nova, atentar-se para os prédios, as casas, as pessoas circulando, paradas nas esquinas, pessoas que você, provavelmente, nunca mais verá, tampouco saberá sobre suas vidas. É isso que nos permite viajar dentro da viagem. De construir pequenos e únicos momentos com suas cores, cheiros e movimentos que jamais se repetirão.

Foi em Santa Catarina - o máximo ao sul do país aonde já cheguei - que vi pela primeira vez gaivotas no mar. Aqui na nossa região temos muito sol, céu azul, dunas e coqueiros e deve ser lindo para quem vê pela primeira vez. Mas eu me encantei com aqueles pássaros brancos, descansando placidamente pela areia das praias banhadas em prata lunar, porque foi ali que percebi de maneira definitiva que eles eram os habitantes e eu a visita. E, confesso, não tive coragem de adentrar no mar gelado do Sul. Jamais trairia as águas mornas do meu Nordeste.

Pouco tempo. Muitas cidades para visitar. Uma vontade imensa de esticar os dias em varais de muitas horas. Primeiro pouso, Floripa. Na manhã seguinte, deveria seguir a estrada para conhecer lugares como, Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil,  Blumenau e Joinville. Minha base seria Balneário Camboriú, um município que fica na Região Metropolitana da Foz do Rio Itajaí, no litoral norte. É lá onde tem uma enorme estátua do Cristo, não o Redentor, mas o Cristo Luz, com 33 metros de altura e 528 toneladas. Uma vista esplendorosa da cidade, a mais de 150 metros do nível do mar. Impossível não querer fazer uma prece e agradecer.

Quando ainda estava em Floripa, me arrisquei num desses passeios tradicionais e fui até a Praça XV de Novembro. A natureza plantou naquele lugar uma figueira que se sabe que ultrapassou os cem anos há muito tempo. Ela é tão grande e imponente em sua inércia gigantesca que dá, literalmente, para fazer um passeio ao seu redor. E, dizem os antigos que dando-lhe sete voltas, ela apressa a chegada do amor. Estava na terceira quando ouvi uma voz desconhecida e acolhedora: - A senhorita está querendo encontrar um grande amor?

Olhei para a direção da voz e vi um velho senhor sentado num banco bem cuidado, de boina e uma bengala acostumada às suas mãos, descansando do exercício de apoiar os passos trôpegos dos anos. Ele tinha um sorriso maroto e, de repente, fiquei envergonhada, censurando-me por acreditar que dando sete voltas ao redor de uma velha árvore eu pudesse encontrar alguma coisa senão o ridículo daquele ato. Talvez acreditar numa lenda boba como essa seja uma espécie de ponto de partida, de anunciação ao coração de que sim, o amor pode surgir e pode entrar; uma espécie de senha de acesso que damos ao acaso. Não lhe falei nada, só descansei o rosto numa expressão amigável e num sorriso tímido e desisti das outras quatro voltas. Arrumei a mochila nas costas e me encaminhei para o barco que já me esperava para conhecer um pouco da história da ilha.

Foi quando o acaso me fitou pela primeira vez, naquele barco.

- Você vem lá de cima? – ele me perguntou, com o sorriso mais simpático do mundo nos olhos azuis e uma cor clara de cabelo que nenhuma Loreal Paris seria capaz de reproduzir. Passei três segundos para decodificar que aquilo não era uma cantada barata e que ele estava falando em termos geográficos e, imediatamente, me lembrei do Atlas do mapa do Brasil, mostrado pela professa da terceira série. O Nordeste fica lá no alto.

– Sim. Respondi reticente, mas num tom amigável e ele engatou: – Seu cabelo é lindo. Quase tocando nos anéis dos meus cachos negros, como se meu tom de pele e o meu sotaque fossem uma iguaria para aquele mar de pessoas brancas, loiras e absolutamente lindas. - Meu cabelo é Tapuia. Brinquei, sem saber se ele entenderia. Mas ele entendeu e demonstrou interesse. E assim fomos cada vez mais nos entendendo nas próximas horas, enquanto falávamos sobre viagens, passeios, livros, música, política, economia, horóscopo, diferenças territoriais, encontros e uma vontade de não se desgrudar enquanto fosse possível. Principalmente depois do primeiro beijo, que aconteceu de frente para o mar, tendo as gaivotas como testemunha.

O sabor inigualável da cuca alemã em Pomerode, a leveza dos cristais de Blumenau e o cheiro das flores da entrada de Joinville se misturaram com sua presença permanente e acolhedora. E ele ria quando eu dizia que o Jägermeister tinha gosto de biotônico Fontoura. E ríamos muito mais juntos depois de algumas tacinhas daquilo, e eu me sentia feliz e, de certo modo aliviada e livre de qualquer problema ou perigo. Tudo era possível e todo o resto poderia esperar. Bom, e é verdade que estava desacostumada de tanta gentileza masculina e quase tinha um susto quando ele tirava o casaco para ajudar a me aquecer, porque, todos os dias, eu batia os dentes de frio a partir das cinco da tarde.

Foram dias de alegria e contentamento. Dias em que as estrelas adiavam até às oito da noite a tarefa de espiar a terra e o sol tinha mais preguiça de amanhecer. – Quem sabe eu não subo o mapa para te encontrar, qualquer hora dessas,Tapuia. Ele me disse na despedida. E, embora eu não precisasse acreditar naquilo, o beijei longamente e com urgência, porque ainda queria manter intacta em mim a sensação de alívio por não necessitar procurar, nem dar mais voltas ao redor do mundo - ou de árvores - para encontrar um grande amor.

Atendendo a convite do querido Antonio Nahud, fiz esse texto que replico aqui, originalmente, para Revista Ícone (Turismo & Cultura no Nordeste) – sob o título: Viagem do Coração.





Nenhum comentário: