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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

tempos verbais

meus tempos verbais estão em desalinho. quando eu quero, eles dormem. quando eles querem, eu lavo o cabelo. quando durmo, sonho com uma mulher, um guarda-chuva e uma chuva que não tem barulho de chuva. ando tropeçando na falta dos desejos alheios. e querendo coisas que eu não sei bem se suportariam a intensidade dos meus segredos, dos meus cabelos, dos meus pedaços de passado tão vivos quanto a andorinha que canta na minha janela, das cenas da novela das nove. essas coisas todas que me afetam o tempo inteiro, como por exemplo ter uma natureza atenta em buscar o amor, mesmo quando ele não está lá.
ontem eu tomei um vinhho que veio de longe e ele revolveu as lembranças do rapaz que me tirou para dançar e trouxe de volta meu coração, como quem, por ventura, trouxesse a cabeça de joão batista numa bandeja. e tocava um tango quando todas essas coisas emergiram da minha alma já bem cansada e sonolenta e, como se não bastasse, tive saudades de Buenos Aires, esse lugar onde eu nunca fui nessa vida e, no entanto, eu pertenço como o arrepio pertence à pele.
eu quero. eu penso. eu choro. eu lido. eu canso. eu disparo. eu paro. eu corro. eu canto. eu disfarço. eu calo. e, por hora, eu vivo em desalinho com meus tempos verbais.

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