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terça-feira, 19 de novembro de 2013

Um nome para guardar (*)






Acontece com todo mundo. Você interpela alguém, entoa uma conversa utilitária e, minutos depois, a pessoa te interrompe e diz: "desculpe, como é mesmo seu nome?". Os operadores de telemarketing sabem muito bem do que estou falando. Quando acontece comigo, me dá um desapontamento instantâneo e uma espécie de barreira se firma de imediato na conversa, nem que seja apenas por alguns segundos fico travada, questiono internamente por que a pessoa não ouviu quando eu falei a primeira vez. Nosso nome é a coisa mais simples e mais profunda que a gente carrega por toda vida. É só um nome, mas é nosso: com "S", com "H", com "E", com "Y", com "L" e com um "A". Todo mundo faz questão de soletrar o nome, sobretudo quando ele vem com a pecha do estrangeirismo que afetou o povo que fez filho nos anos 1970. Se você é Ruy, com "Y", não vai querer ser pichado por aí com um "i", não é mesmo?

Esquecer o nome é jogar piche na boa educação. E por esses tempos quentes debaixo do sol, a pichação corre solta. E olhe que eu não estou falando dessas que a gente encontra nos logradouros públicos; porque essas, quando não estão grafadas assassinando o vernáculo, até que me são bastante estimulantes. A rapaziada não tem vez nem voz então manda brasa nos recados urbanos. Sem falar nos grandes artistas de rua que deixam suas belas manchas nos muros. Mas o fato é que vivemos num mundo de esquecimentos e solidões compartilhadas.

Passando tanto tempo diante dos computadores, construindo um mundo de informações e contatos, sabendo através do feed de notícias que seu amigo que no momento mora na konchinchina está naquele exato instante calçando meias - e ele acha importantíssimo publicar isso - você cria a ilusão de que não está só. Mas está. E não só os estranhos estão esquecendo nossos nomes. Os próximos, se ainda não adentraram na pachorra de esquecer os nomes, estão esquecendo de atender aos telefones, de retornar as ligações, de responder a recados, de compartilharem cumprimentos e carinhos, de marcar um compromisso e, simplesmente não aparecer e sequer avisar ou pedir desculpas depois. Alguns amigos já me reclamaram tantas e tantas vezes de uma coisa ou de outra dessas situações que citei. E confesso não me orgulho disso e, por vezes, sofro quando é comigo. Sofro porque me sinto um ET. Sofro porque acho que todo mundo me acha uma chata do século passado reclamando porque ninguém chega mais no horário marcado.  E, quando se atrasa, não avisa, não pede desculpas, parece não se preocupar com a espera do outro. Parece não se preocupar muito com o outro. O mundo está ficando sem nome. E eu, muitas vezes extasiada e só, ainda estou aguardando ser um nome para guardar.


 (*) Texto publicado originalmente no Novo Jornal, nesta terça-feira, 19 de novembro




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