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domingo, 17 de novembro de 2013

Aquele olhar e eu


Ele falava olhando nos olhos. A voz era compassada e baixa e, em sendo assim tão calma, me levava para o universo sonoro das palavras bem faladas. Tive vontade de ouvi-lo por muitas horas e de segurar a sua mão nas minhas e de dar-lhe a boca para ouvir a sua com mais ímpeto. Mas ali minha condição sobretudo de ouvinte, o tom era apenas de passiva admiração. O que não me torna morta por supuesto.

Se fosse possível eu o teria levado para dentro da minha casa inteira, já que lhe reservei - por algumas horas - cantos da minha alma. E o teria oferecido estados domésticos e prosaicos da minha existência com um pouco de café quente, uma taça de vinho, dois dedos de prosa, algumas páginas de poesia, uma música no rádio, a indiferença latente dos meus gatos e até, quem sabe, passados alguns dias, lhe ofereceria algumas gotas dos meus segredos, para que nascessem brotos de confiança e dor compartida. Porque seus olhos, além de falar com os meus, também eram tristes, o que a mim quer dizer que ali habitam dores presas na rede dos cílios.

O senhor A (vou chamá-lo assim) é um homem que, por ter tanto domínio de si mesmo, já percebeu que é completamente dominado; se não pelo total acaso, ao menos pela inevitável desordem natural dos dias que ainda não chegaram e que, sempre, bastando estar distraído, nos trazem algo a que damos o nome de vida.

Eu poderia ter me apaixonado pelo senhor A. Eu poderia ter encontrado nele um breviário amoroso, um algo que eu penso que é desejo, paixão e que, depois da necessária decantação dos dias, tornar-se-ía amor. Mas eu estava ocupada demais com aqueles olhos pousados nos meus, me dizendo coisas, me ensinando outras, me abrindo janelas, conduzindo-me a pontes por sobre rios de conhecimento, me mergulhando no mundo das palavras, das dele, das alheias e também das minhas, que logo ensaiaram alguns passos possíveis para se não chegar ao refrigério e à salvação, que ao menos chegue a um caminho possível, para quem vive nos perigos e nas veredas dessa vida curtida por sobre os suores da literatura.

Esse poderia ser um relato de paixão. Mas é muito mais, é um relato (verdadeiro e tímido) da mais pura admiração por um homem, um homem que sabe que é escritor e um homem que fala com os outros olhando profundamente para nossos olhos.



3 comentários:

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

"Tive vontade de ouvi-lo por muitas horas e de segurar a sua mão nas minhas e de dar-lhe a boca para ouvir a sua com mais ímpeto."

Posso estar equivocada achando que isso é um beijo. Mas se é... vixe! armaria, mainha! é metáfora mais pai dégua que eu já vi.

Como crítica literária sou zero. Outras, tiro de letra... Pior do que uma teta virar lixo hospital, nada... O resto é purpurina em bunda de passista de escola de samba.

Ela me procura - não a passista, a outra - e me está presente algumas vezes sob o efeito da síndrome da dor fantasma. Sei o nome correto dessa síndrome, mas ainda não digeri bem - estou administrando - e ainda me recuso em falar a palavra "amputação".

Mme. S. disse...

É um beijo sim. Vc acertou em cheio. Quanto àqueloutra sensação que vc me fala, já ouvi dizer que é comum quem passa por isso. Não há mais perna e osujeito a sente. Não há mama, entretanto ela esta la na memória, nos sentidos do corpo, na lembrança da pele. Queria poder te dar um grande e demorado abraço abuelita.

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

Obrigada, damadeshangay. Logo, logo, faço minha catarse. Estou grávida de um texto: O TERCEIRO CLITÓRIS.