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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Assumir o leme


Já plantei algumas árvores por ai e outra sorte de flores, avencas, crótons, capim santo; acabei de lançar meu primeiro livro; agora, assobio com as mãos nos bolsos, apreensiva, imaginando quando viverei novamente a árdua e comovente tarefa de escrever o próximo - e amo como se fossem meus os filhos dos outros, dos amigos.

Sou uma pessoa completa? Realizada? Estou longe disso. Nem sei se existe uma fórmula exata que leve à plena satisfação da existência. Muitas vezes, acho que a ideia de felicidade e realização que nos impõe o mundo, tal qual se apresenta no momento, é uma espécie de traça que corrói e gera crateras entre o real e a vida possível. Viver é mais importante que ser feliz.

Falando em amigos e em seus filhos, dia desses, minha amiga Luana me surpreendeu com um pequeno vídeo, acho que eram 38 segundos em que estou eu e seu pequeno Theo, descobrindo qual a lógica contida numa tarefinha matemática para crianças. Nunca imaginei que fosse capaz de fazer qualquer tarefa que envolvesse lógica. Sou errada de contas; acerto muito mais no escuro da intuição. Colava na tabuada dos sete. Mas ali junto a Theo, o mundo era possível. Inclusive ser feliz. Quando ela me mandou o vídeo eu, que não lembrava que ela estava nos filmando, vi com toda clareza que a felicidade pode estar contida numa brecha ou numa réstia de sol, no balançar das asas de um beija-flor e seu encontro amoroso com a flor amarela e está, principalmente, contida na distração, na grandiosidade de pequenos gestos. No dela, por exemplo, de gravar um momento tão único e singelo, guardar e me enviar dias depois e que fora capaz de me tocar tanto. Eu ali me revendo como uma expectadora e sentindo tanta emoção por, simplesmente, estar tão distraída, sem perceber o quanto podia ser fácil ser feliz ao descobrir uma pequena tarefinha de lógica com meu amigo Theo. (Mais fácil que a própria lógica).

Às vezes acho que ser feliz é não fazer ideia do que é essa tal felicidade. É entender que o cobertor só faz sentido quando o frio existe; é dar uma pausa no querer tanto. Despir-se de tantos desejos e ser mais necessidade. É não ter medo do silêncio e sentir o momento certo para tirar os sons presos na garganta. É ficar aliviado não com o reencontro, mas sim com a descoberta de que não é preciso mais esperar. É enxergar o caule antes de chegar nas finas e delicadas pétalas. É acender a luz do candeeiro e passear com o indicador dentro da chama azul e descobrir que brincar com fogo pode ser divertido. É assumir o leme, inclusive e principalmente do acaso. Se deixar levar antes que a vida passe.

 

 Crônica publicada hoje, originalmente, no Novo Jornal.

2 comentários:

Eliade Pimentel disse...

A felicidade é um dom que a gente mesmo domina.

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

A felicidade é isso aí, Damadeshangai. Ela está onde menos esperamos encontrar. Acho - acho! - que já estaria na hora de deixar de ser a tia e ter seu momento de felicidade com um bebê. Ser mãe é felicidade pura, embora seja, sempre, "padecer num paraíso".