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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sorriso da manhã



Quantos anos, histórias de vida e sentimentos cabem num olhar? Se prestarmos atenção, há muitos espaços preenchidos dentro do silêncio desse gesto. Acho que todo mundo se permite vivenciar o calor de um olhar e vislumbrar tudo o que ele tem para dizer, sem que para isso seja necessária a emissão de um único som, a não ser aquele que provém do inefável. A gente só está pronto para ouvir as palavras que vêm dos outros, depois que não tememos mais o silêncio dos cílios. E sentimos que é possível olhar bem de perto e ir além de Narciso. Sei que me aproximo da medida do amor quando, quieta e atenta, encaro a íris da pessoa amada e não tenho mais medo de ser eu mesma. É quando sinto um misto de paz, alívio, compreensão, admiração e carinho pelo que vejo e que está além de mim. Já vi e vivi muitas coisas. Mas, essas mesmas coisas estão constantemente dando lugar a outras que nem sempre eu sei o nome ou sinto necessidade de ter domínio. E a isso eu chamaria de esperança. Mas você pode dar o nome que quiser.

Quando conheci a pequena Antonia, ela chegou meio tímida e com a mudez inerente às crianças sensíveis e inteligentes num primeiro momento com adultos estranhos. Estudou e avaliou minhas intenções o quanto quis. E eu deixei, porque tinha esperanças de que em algum momento ela me devolveria com aquele olhar inédito. Aquele olhar infantil por sobre as coisas importantes do mundo como o voo da borboleta no jardim, o desenho da TV, o balanço do parquinho ou o pulo do "bebê gatinho". E, finalmente, aconteceu. Estávamos sozinhas conversando qualquer coisa, fizemos uma pequena pausa e nos olhamos com aquele olhar primitivo e livre dos dicionários e das gramáticas. Que continha só o léxico da cumplicidade. E a manhã se abriu num sorriso.

Outro dia, enquanto olhava as fotografias do aniversario da minha mãe, observei mais atenta a uma das fotos em que saíram meu tio Veríssimo e minha tia Leda. Havia ali um olhar dele sobre ela no qual cabiam seus 39 anos de casados; cabiam os três filhos, as noras e os dois netos; cabiam as febres, as  cataporas e os deveres de casa dos meninos ainda pequenos; as prestações do carro, a casa dos primeiros anos no Alecrim, a de Nova Descoberta que reserva o maior número de páginas em suas histórias até então e a casa de agora; cabiam o almoço de domingo e o banho de piscina na Apurn; o mestrado em Minas; todos os outros parentes agregados ao longo desses anos; cabiam a saúde e a doença; a tristeza e a alegria; o passado e o presente de mãos dadas com um laço indissolúvel que fazem do olhar dele a extensão do dela e vice-versa. E quando eu vi aquele olhar, me encostei de novo no sorriso da manhã e senti uma esperança urgente nessa coisa a que não temos total domínio e a que chamamos de amor, e que é sempre capaz de subverter até mesmo um momento ruim, um triste crepúsculo.


Publicado originalmente hoje no Novo Jornal.

Um comentário:

www.abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

Esperança num olhar que contenha
"só o léxico da cumplicidade"...
é isso que se busca
quando se busca o amor,
seja ele que amor for.