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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Meses


Ainda é dezembro. Quando era março, as feridas começaram a dar sinais de trégua. Em abril, fecharam-se das margens para o centro, até virarem uma crosta dura e disforme. Arrancar a pele nada mais é do que um exercício de existência. Se há vida, há pele, logo, descamação. Em maio, era como se o acordo tácito entre a tristeza (dos outros) fosse se diluindo e dando lugar às pílulas (dos outros). A dor não precisa ser um caminho (constante), mas sempre será uma via de construção. Em junho, um homem diz que não é fácil jogar-se em fragmentos e que as possibilidades são mais reais quando se investe no fluxo contínuo, em algo que tenha sentido. Nunca havia tido tanta certeza de que a total falta de sentido era a coisa que mais fazia sentido no mundo. Em julho choveu. Em agosto, viagem. Em setembro, independência ou morte. Nesse período aprendeu a soltar pipas no céu e uma das garrafas que jogara há muitos anos ao mar, retornara, quase intacta, com o cordão de letras amarrando outros entendimentos sobre as coisas da vida, o amor, a solidão, o passado e o presente. Outubro, a vida segue. Novembro, o sol acorda mais cedo todos os dias. As noites ficaram mais claras, agitando a alma. Ainda é dezembro. Daqui a pouco tem janeiro e fevereiro.


Poema sob o sol




Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos - Manoel de Barros



Sentei sob o sol e senti sobre o que não sou
Essas coisas que orbitam acima de nossas cabeças:

Fazem arder por dentro a falta
Do que está dentro do oco da pele
Que fazem o caminho inverso
E devagar
Que recolhe as pedras, a poeira, o caminho
O que acontece antes das coisas acontecerem

O sol amarelou meu sentir
A grama sustentou minhas vestes,
Quase nuas de pele, de tanto que evaporei no verde de não saber
O caminho de volta




É Natal!


Quisera eu, no Natal, ser uma pintora. Para fazer um extrato isolado e silencioso das cenas cotidianas e nele, só seria possível encontrar beleza. Mas minha inventividade esbarra na incompetência de desenhar e na força que as palavras exercem sobre meus dedos e minha consciência. Então escrevo. Frequento os verbos como quem necessita de pão.

A primeira cena que vejo, vem das sombras da memória. Essa matéria que está muito mais próxima do que imaginamos que aconteceu, do que a realidade dos fatos passados. Eu ficava triste no Natal, ainda bem menina. Talvez porque Papai Noel não descesse pela chaminé da minha casa, porque na minha casa não tinha chaminé. E, por mais que eu me esforçasse em ser uma boa menina durante o ano inteiro e tirar notas boas, nem assim, ele me visitava. Teve uma vez, que eu pedi uma bicicleta. Naquela época, minha tia Côca me visitava, e ela deve ter atraído o Papai Noel. Só que ele se atrapalhou com as cartinhas e me deu uma caixa de chocolate. 

Eu sei que o Natal é a época do ano em que se comemora o aniversário de Jesus. Mas, estranhamente, tem sido cada vez mais raro ver um presépio. Hoje eu vi um homem vendendo raivinha e morangos no cruzamento. Sentados na esquina, a mulher e dois filhos. Pareciam saudáveis. Não seguiam o pai ou estendiam a mãozinha em busca de trocados, como costumo ver pela cidade. Distraidos, brincavam com uma bolinha de ping-pong. O taxista me disse que ele era conhecido na área e que não se metia com coisa errada. Era um homem trabalhador. Fiquei pensando como seria a sua casa e se nela tinha uma chaminé. Como seria o seu Natal, diante de tantas ideias e apelos vindos de todos os cantos; das televisões, dos shoppings, das lojas. Todos dizem "É Natal! É Natal!" e entendemos: "comprem, comprem, e serão mais felizes".

Eu sei também que essa é uma época em que as pessoas desejam com mais frequência felicidades umas às outras. E isso é bom. Isso reverbera dentro das coisas boas que guardamos e nos faz acreditar e reagir e querer mais e desejar cada vez mais o bem. Eu sei também que dar e receber presentes é algo prazeroso. Não estou aqui para estragar o Natal de ninguém. Mas, para mim, Natal só seria realmente uma época de plena felicidade, se eu fosse uma pintora. E pintasse quadros lindos, cheios de luz e a estrela dalva navegando pelo céu.

Texto originalmente publicado no Novo Jornal, terça passada.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Eu quero essa



Quando não se tem filho, uma das coisas mais gratificantes que se pode ter é a confiança que uma mãe desprende a você nos cuidados com a prole. Uma vez tive um papo ótimo com Cecília, no jardim, enquanto a mãe dela fazia sei lá o quê no meu quarto. Ali, eu e aquela menininha de olhos puxadinhos e cabelos negros éramos só duas pessoas batendo papo e confiando uma na outra. Teve uma outra vez - e essa eu conto para os amigos quando o assunto é falar sobre o que criança diz e faz - que Soraya me confiou a companhia de Antônia até o shopping. Já no caminho, eu negociei com ela que se fôssemos em tal loja e coisa e tal, não ía comprar presente caro. Ela concordou de pronto, olhando pela janela a paisagem, meio concentrada em seus devaneios de três anos. Não deu outra, quando chegamos ao lugar, cinco segundos depois, Antônia estava agarrada com uma Barbie de R$ 99,99. E dizia alto e freneticamente: "Eu quero essa, eu quero essa, eu quero essa!". Nesse ínterim, meu telefone toca e era meu chefe. Atendo o telefone e ela continua seu empreendimento em me convencer em altos brados. Eu, em meio ao desespero entre ser uma profissional compenetrada e uma tia atenciosa, deixo um pouco o telefone de lado e sussurro: "Estou falando com meu chefe" (como se ela pudesse compreender tal afirmação) e ela, também em tom bem baixinho: "Tá bem, mas eu quero essa!".

Quando se é criança é tão mais fácil dizer o que se quer, sem que isso seja um peso ou uma ofensa para os outros. E não estou falando em nostalgia e sim em perda de espontaneidade. Nesse período do ano é mais comum ganharmos presente e, quase sempre, quando indagado sobre o que queremos ganhar, nunca sabemos dizê-lo, ou se o sabemos, temos constrangimento em dizer. Como se o desejo do outro de presentear não se encaixasse no desejo de receber. Salvo - salvíssimo aliás, exceções, na intimidade, quando se pode realmente dizer o que se está precisando. Como quando você diz para sua tia, “olha eu quero ganhar um cinto de presente”. E não vale aquelas respostas estapafúrdias do tipo, "ok, você quer me presentear? Quero um emprego novo, um carro, um iate ou uma casa na praia". Fala sério, quem é que dá um presente desses a alguém? É o mesmo que dizer, "se não vai me dar nada disso, não quero receber presente". Na verdade, os presentes não precisam ser utilitários. Presentes são surpresas, são afetos táteis, são pedaços do outro, o tempo que o outro desprendeu para você, a lembrança sua no elenco dos mais queridos que gerou um movimento do outro para sua direção. Do contrário, se poderia pedir com naturalidade uma obturação nova no dente ou um açucareiro para substituir o pote de vidro.

Se pudesse pedir algo aos meus amigos, sem que o constrangimento me tomasse a face, pediria que continuem me confiando seus filhos; que continuem me chamando para tomar cerveja e, se com eles não perdi a espontaneidade, é porque deles qualquer presente será válido. E, para quem está curioso, naquela ocasião, consegui convencer Antônia a “trocar”  a Barbie por dois brinquedinhos de R$ 5,99, cada.


Publicado na terça, 16, no Novo Jornal

sábado, 13 de dezembro de 2014

entremeios




Uma preocupação atravessa minhas pálpebras. Entrava meu descanso. Distrai-me dos meus sonhos. Melhor, sonho em estado permanente de alerta. Minha casa é feita de pedras. Mas meu peito é feito de areia. Sou revolvida facilmente por rios que me levam a caminhos desconhecidos. Os mais céticos e cínicos - como eu - diriam: ESCOLHAS. Isso mesmo. Deita a cabeça, mesmo que metaforicamente, no travesseiro e guarda a tranquilidade de ser livre para as escolhas, nem sempre muito convincentes ou condizentes com o status quo ou com a grama mais verde do vizinho. Escolher é sentar no provável, sentindo a força do improvável vento batendo à porta. Uma preocupação atravessa minhas pálpebras. Uma hora, um dia, o sono chega. E, o bom é que estarei atenta e livre, como sempre, para dormir justamente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sobras do tempo (*)



Todos os dias em alguma hora, Fellini, meu gato mais velho, de oito anos, me chama para um tête-à-tête no tapete da cozinha. Eu chamo de "nosso momentinho". Mas, na verdade, é ele quem dá a deixa. Ele faz uma corridinha até o referido recinto, ciente de que o estou seguindo, depois se joga no tapete, aciona o "motor do amor", aquele que o povo ignorante associa com asma e não tem nada a ver, e se perde nos meus afagos. Primeiro, começo com a mão espalmada, depois faço umas coceirinhas sem unhas que é para exercitar o afeto na ponta dos dedos. Ele pira, se vira para lá e para cá, oferece o espinhaço, depois põe a barriga pra cima, ordenhando o nada, abandonado na satisfação de ser tocado. E eu, simplesmente, relaxo. Deixo o tempo para depois. Melhor, deixo o tempo viver sem as regras do ponteiro. Simplesmente me deixo estar ali, convicta e desatenta, com o que ainda está por vir no dia e nas horas com agendas marcadas em X.

Estou quase sempre assim: uns textos (pendentes) para escrever. À espera da ligação do meu chefe. Uns amigos para ligar. Uns projetos para pensar e me reinventar. Umas cervejas para tomar com meu amigo Mário. Preciso devolver aquele macacão emprestado. Meu livro de contos que não saiu ainda da primeira página. Imprimir uns pôsteres e mandar emoldurar para deixar a casa do "cueca" mais colorida. Retornar a ligação da minha amiga que mora em Brasília e chegou de férias. Marcar aquele almoço na casa da minha tia e, finalmente, conhecer o mais novo membro da família, uma mocinha que se chama Laura (Laurinha) e que já me arrebatou o coração só por fotos. Marcar a volta na consulta com a ginecologista. Usar o creme do rosto na hora certa. Acordar e tomar o remédio para o estômago antes de botar qualquer coisa na boca. O dia nem começa direito e já vamos contando o tempo e suas exigências e obrigações. Perdemos pouco tempo. Ou ao menos, nos é proibido pensar em desperdiçar o tempo.

Pois eu confesso: adoro "perder" aquele tempo com o Fellini no tapete da cozinha. Ele me conecta com a respiração (minha e dele); meu tato fica mais aguçado ao simples toque de seu pelo macio; não penso ou declamo, mas sinto uma poesia pousando no espaço entre o tempo e o resto do tempo. Gosto tanto dos espaços entre o que está sendo e o que ainda vai ser, quanto gosto dos silêncios. Preciso muito dessas coisas. Foi-se o tempo em que eu me jactava da pecha de "workaholic". Não, obrigada. O tempo não pára. Mas eu posso parar um pouco, pedir um intervalo. 

Gosto de pés-direito altos. Acho que é para poder olhar para cima mais demoradamente. Gosto também de entrar numa casa com grandes cômodos, porque me dá a sensação de que há mais espaço entre os objetos. Um intervalo físico entre uma coisa e outra, que é para dar tempo de respirar e de piscar os olhos entre o sofá e a estante; a mesa e as cadeiras; o jarro e o abajur. Tinha uma janela enorme na minha infância. Era alta para subir e, mesmo em pé, eu não alcançava o topo. Havia sobras entre eu e aquela janela. As sobras do tempo.


(*) Publicado hoje, com alterações, no Novo Jornal

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Anotações sobre a História do Circo no RN e outras cositas más

O lançamento é hoje, às 17h, lá na Pinacoteca. E depois, é só descer a ladeira e, a partir das 19h, se jogar na sacanagem lá em Nalva Melo Café Salão, com o lançamento do Entre Dedos... Coletânea de Contos Eróticos. Bora?






terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O silêncio do peixe (*)




Vivemos num mundo de sons. Chega-se em casa, liga-se a televisão. No carro, o som do carro; nos consultórios médicos, a televisão está ligada - mas sem som, porque a senha eletrônica demora, mas uma hora chama. Os aparelhos eletrônicos têm sons. Lembro-me das geladeiras cujos barulhos deixavam os abalos sísmicos de João Câmara no chinelo. Até hoje não entendo como é que conseguíamos dormir com o trinado de alguns ventiladores lá em casa. Mas, os sons mais irritantes do momento são aqueles que saem dos aparelhos telefônicos. Se você está diante do interlocutor e o celular dele (pode ser o seu também) apita, ressoa, canta ou repercute desista, companheiro, de querer sua atenção. A pessoa não vai sossegar até ver qual a origem daquele chamado. O som do celular é uma espécie de santo graal que atrai o olhar, os ouvidos e a atenção. O mundo pára para quem está do outro lado. Pode até ser uma mensagem super sem futuro de um grupo no whatzzap, de alguém que não tem absolutamente nada para fazer e decidiu compartilhar com todo mundo sua inércia, enviando uma foto ou um vídeo ainda mais sem noção. Aí, o sujeito que recebe a mensagem envia um "kkkkk", e o mundo volta a girar. Podendo ser interrompido a qualquer momento.

Já percebi que estamos começando a não nos cumprimentar mais nas redes sociais. (A não ser nos grupos de whatzzap que é tanto “bom dia”, tanta frasezinha de efeito, que o dia já começa irritante logo no início do dia!). Mas, voltando, tem gente que chega falando com você e quando termina de falar não avisa que está indo embora, e você fica dois dias sem saber se dá de volta um simples “tchau”. “Oi Sheyla, dá uma olhadinha naquela mensagem que te mandei por email”. E você pensa em escrever: “Oi! Já olhei! Já tenho opinião e...”. Mas a pessoa já não está mais on-line. Ela jogou a isca e foi embora. E você se descobre um peixe solitário nesse mar de bites e bytes. Um peixe e seus silêncios. Por isso, no fim das contas, gosto tanto do silêncio.

O silêncio não é a ausência de palavras. O silêncio é quando qualquer palavra se torna desnecessária. É quando o signo prescinde do testemunho da fala; bastando a realidade e seus desdobramentos. Os segundos sem os ponteiros. Os minutos diluídos no vento. O silêncio é, também, uma forma de chegar ao absoluto. Àquilo que não tem nome. Existem pessoas que não suportam o silêncio. Talvez nelas, haja a necessidade de nominar ou de fazer da palavra um tratado, um pacto, um laço com o que está fora ou dentro. Talvez elas não compreendam que as palavras guardam em si significados que vão além da percepção audível. Toda palavra é um mistério. Toda palavra também tem seus silêncios. Nem tudo precisa ser revelado. Uma palavra é oportuna agora, no próximo segundo pode se tornar um incômodo, um inconveniente, uma incompreensão. Eu gosto de ouvir os silêncios dos outros. Tem vezes que me abraço com o meu próprio como se ele fosse uma salvação.


Texto publicado hoje no Novo Jornal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Bora?


Depois do lançamento eu publico aqui o conto Petit Mort, de minha autoria...
tá todo mundo convidado. o livro ficou lindo, capa "dura" e tudo! coisa chique, bem!

Lançamento do livro de contos eróticos Entre dedos... do Caravela Selo Cultural
Dia: quarta-feira, 3 de dezembro
Hora: 19h
Local: Nalva Melo Café Salão
Preço: R$ 40
Vai ter performance, exposição com o artista plástico José Clewton, que também assina as ilustrações delicadas do livro.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O apanhador de desperdícios







Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas do informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


p. 47 - Memórias Inventadas - As Infâncias de Manoel de Barros


Precisa dizer mais nada? Manoel de Barros já estava cansado. Precisava ir. Dele, ficam as palavras e suas desimportâncias. Essas coisas que nos dão sentido para a vida na arte. Para mim, ele só virou um passarinho. Coisa que já era.



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Um ano depois

Em modo comportada #sqn



Eu já havia fechado a conta aqui em casa de moradores de quatro patas. Um é pouco, dois é bom, três é demais era o meu lema. Aí a Lu me chama para irmos à prainha. Tava super cansada do Flin, que ano passado teve quatro dias e era minha primeira vez como responsável pelo encarte especial da Tribuna do Norte. Pensei: prainha é uma boa! Ela estaciona o carro na marginal, em frente a um casebre aparentemente abandonado. Quando abro a porta, sai de debaixo do carro uma coisinha minúscula, xexelenta, cheia de carrapichos. "Pessoa, que tanto carrapicho é esse?" - e vou tirando alguns encrustados em sua cabecinha (parecendo uma coroa enfiada em um mártir). O primeiro impulso foi de, ok, tirei os carrapichos, agora sigo com a minha vida. Mas a "pessoa' não estava satisfeita. E me seguiu ao atravessar a pista. "Pessoa, não faz isso, que tu morres! Volta para lá, vai", tentei convencê-la em vão. Atravessei novamente. Ela me seguiu novamente. Naquele momento, meu coração já me dizia com todas as letras que eu não poderia deixar aquele serzinho ali, abandonado, famélico, estrupiado, minúsculo. Minha mente repetia: um é pouco, dois é bom, três é demais. Bate coração mais forte, ensurdece meus pensamentos racionais. Seguro-a como sua mãe original a seguraria - ela se entrega totalmente, confiante e exausta. Coloco-a dentro da bolsa. Até então, indiferente, a Lu me diz meio incrédula, meio estupefata: "Você vai levar, Sheylinha? Mulher, você tem muita coragem".

Não era exatamente coragem. Impulso, compaixão, responsabilidade, amor? Talvez. Não posso fazer isso com todos os animais, gatos e cães que eu vejo na rua; não posso libertar do açoite infeliz dos carroceiros os burricos que eu vejo carregando as carroças em Natal; não consigo adotar 15 crianças igual dona Salete fez um dia. Mas, naquele momento, não me senti tendo escolha. Era resgatar ou resgatar. O plano inicial seria tratar, alimentar, deixar crescer um pouco mais e colocar no Adote RN, no FB, fazer uma divulgação em massa para que ela conseguisse um lar definitivo. Porque o meu seria temporário.

Ainda na praia, dois banhos de mar. Momento escatológico: tinha tanto pus saindo dos olhinhos que estavam grudados em sua carinha pequena e pálida. A água do mar ajudou a amolecer. Mas o pelo saiu junto. Feridas. Dezesseis pulgas retiradas ali mesmo. Derreti um pedaço de gelo dentro de uma quenga de coco, mas ela não sabia beber água. Achei uma torneira de água morninha para dar o terceiro banho e retirar o sal. Sem as pulgas, embora sem nada dentro da barriga naquelas três horas de sol, ela adormeceu dentro da bolsa.

Antibióticos para a infecção intestinal, anti-inflamatório para os olhos e ração para filhote, três dias depois, "Amelie" já estava feliz e passava o dia a brincar, quando não dormindo. Começou o imbróglio, todo mundo opinou que Amelie é machinho. E eu dizia, Amelie é Amelie. Voto vencido. Virou Nico, com a anuência e toda a paixão rasgada da Antônia que, nessa altura do campeonato acordava e tocava na campanhia para desfrutar das brincadeiras com Nico. Duas semanas depois, com aproximadamente dez semanas, o veterinário nem pestaneja, Nico é Amelie! Melhor, Nico será eternamente Nico, mas sempre foi fêmea.

Não teve campanha nas redes sociais que desse jeito. Nico foi crescendo, querendo cada vez mais sair do "barraco" improvisado na varanda, conquistou o coração de Fellini depois de dois dias de convivência, porque antes era uma riscadeira de fósforo que só vendo. Dolores se manteve indiferente, como sempre. Hoje ela está maior que ele e ganha todas as lutas de jiu-jitsu que eles fazem a cada duas horas e meia. São companheiros inseparáveis. Amigos para sempre.

Nico não é mole não. Não consegui tirar-lhe da cabeça que não precisa mais comer calango, mosquito, lagartixa, rã, cadarço de tênis, fio de carregador de celular, alça de soutien. Ela come bem a ração, mas segue mastigando qualquer coisa que der sopa, ou borracha, pedra, capim. Por isso, vivo me assustando (já passou oito dias com uma alça de soutien dentro do estômago), já ficamos sem telefone fixo, porque ela comeu o fio, já levou choque na cerca elétrica e caiu do outro lado do muro do condomínio, já subiu até o topo do pinheiro do jardim que quase é da altura de dois andares, já fez meu coração palpitar muitas vezes, sobretudo porque a amo muito. Porque ela virou a caçula da família, porque ela é minhha tapioca, meu pudim de leite com cereja no meio (o nariz dela ficou vermelhinho e é a cereja, sacou?). 

E hoje faz exatamente um ano que ela me escolheu, que ela me achou e que ela me convenceu que, embora eu não possa mudar o mundo nem a triste realidade dos animais abandonados, das crianças sem lar, dos velhinhos que perdem seus parentes e os referenciais, da crise econômica mundial, do buraco na camada de ozônio, dos coxinhas e das pessoas alienadas e narcisistas, que eu posso deixar que um pequeno amor, que foi crescendo, me modifique, me fortaleça, me dê (mais) sentido pra vida.

Feliz aniversário Nico, que você continue me dando sustos, me fazendo raivas, me tirando do fundo da garganta muitas gargalhadas, que continue amando seu irmão mais velho mas que, pelamordedeus, arranhe menos meu sofá azul turqueza que eu acabei de mandar cobrir novamente, ok?

Uma parceria que virou livro

Foto: Alex Regis/Tribuna do Norte


Não sei precisar bem como começou a conversa. Mas, inicialmente ele pensava que poderíamos, cada um, pegar dois nomes para serem biografados. Coisa de empolgação do "início de namoro". Nesse caso, do projeto Biografias 2011, pensado, proposto e aprovado em Lei, pela competência e persistência do meu amigo, José Correia (meu sempre mucuinho ou maruinho) porque intimidade com amor, carinho e respeito não se perde, só, se fortalece e se ressignfica com o tempo, mesmo que já não sejamos mais os mesmos de outrora.

Durante o processo de feitura do meu livro sobre o grande Newton Navarro (escritor, artista plástico, poeta, dramaturgo, bebum, atrabiliário, doce, edipiano, inesquecível, nome de ponte) não havia uma única entrevista, um único achado nas pesquisas nos jornais velhos da cidade, na viagem que fiz a Fortaleza, que eu não ligasse para ele para contar com entusiasmo ou decepção como tinha sido. Quando o prazo de entrega do texto começou a se aproximar e a tirar meu sono, ora delicadamente ora com os aperreios escapando pelas orelhas, eu dizia para ele: vou atrasar! Segura a tua onda! E ele ficava calado ou falava alguma coisa incentivadora, no seu modo baixo e 76 rotações de falar. Sempre calmo. Mesmo que esteja implodindo por dentro e aí, nesses casos, ele faz um leve bico de contrariedade. Detesta admitir que "é" e não mais "está ficando" e não vou nem pronunciar o adjetivo, mas, acho que a pista de voo pra mosquito acima da sua testa aumentou bastante durante o processo de feitura dos quatro livros. Todo mundo deu trabalho. Todo mundo, em certa hora, encheu o saco do cara. Todo mundo merecia que ele atrasasse o pagamento quando da entrega do livro, diga-se todos com prazo estourado. Alguns, inclusive, estouradíssimos. Mas ele não o fez. 

Depois da entrega, do e-mail que ele esperava há 45 dias e que não chegava, vieram outros tramites. Porque escrever livro não é só fazer texto. Tem escolha de capa, título, etc. Eu disse para ele, quero da cor de um sol (laranja terroso) que Newton usava muito em seus quadros. José me manda uma prova com um verde abacate e depois com uma cor de burro quando foge. Ligo para ele com a moléstia dos cachorros "qual a parte que você não entendeu que eu quero aquele sol terroso que o Newton fazia heim?". "Qué qué isso, Mucuinha. Ei, tenha calma" (falando grosso). Fiquei calma, porque gente calma quando fica braba, é melhor gente braba ficar calma, para não atiçar né? No mesmo dia ele mandava a cor que virou capa e que nunca mais virou motivo de discórdia entre nós dois. 

Ele é tão abestado que sequer recebeu alguma coisa do montante aprovado e captado através da renúncia fiscal da Prefeitura, para o Colégio CEI, que destinou a grana para o projeto e pagou a todos nós uma grana boa, em se tratando de mercado editorial potiguar, nunca antes vista por essas terras. O que prova que além de diletante ele é apaixonado pelo que faz. Ele é generoso. Ele quer ver o(s) livro(s) pronto(s). E isso lhe basta. Sentir o cheiro da tinta, folhear as páginas que ele, m.e.t.i.c.u.l.o.s.a.m.e.n.t.e., lê, relê, juntamente com o brilhante trabalho de Kaline e Zeca (revisora e diagramador), parceiros dessa empreitada. Sabe um leitor que vira escritor? José é um grande leitor que virou editor, que encontrou seu caminho de reverência aos livros, ajudando a botar livros no mundo.

Maruinho ou Mucuinho (tanto faz), ter feito parte daquela conversa sobre os livros na quinta passada, no Flin, me encheu de orgulho. As palavras fluíram tão facilmente. Bem diferente de quando eu escrevia o livro e travava na página 30, na 53 ou na 87, e ligava para ti, achando que não ía conseguir, que não era escritora porra nenhuma, que nem jornalista eu estava conseguindo ser e você, na sua calma e tranquilidade, sempre dava um jeito de me fazer acreditar em mim.

Pôxa, cara! Correndo todos os riscos de virar um grande lugar comum esse finalzinho, eu queria dizer o quanto sou agradecida por você ter acreditado em mim, viu? Não à toa, o livro - que tu fez cara de cuscuz como se nada fosse - é dedicado a tu, pedro bó!

te amo, sua sempre amiga, 

S.




quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Passagem de ida



Nunca tinha visto tamanha virulência e preconceito numa eleição como essa que acabou de ocorrer. Ouvi muitos absurdos de um lado e de outro. A verborragia correu solta. Gente como Lobão, dizendo que se a Dilma ganhasse, iria embora do país. Já vai tarde! Venho construindo consciência política desde o final dos anos 1980, quando ainda nem votava, mas já acalentava o sonho de ver um país mais igual e mais justo. De lá para cá, muitas águas rolaram debaixo desse moinho, parte delas, só foram revolvidas de um lado para outro, guardando a lama e o lodo por debaixo de velhas práticas coronelistas; noutras algumas pequenas correntezas varrendo a desigualdade. Nos últimos 12 anos é inegável a melhoria social das classes menos favorecidas. O índice de desemprego caiu; agora, quando a inflação periga chegar em 6%, já vira uma catástrofe. Em outras épocas, o dobro disso era visto como um mal necessário para manter a economia funcionando. Temos mais universidades públicas e 40 milhões de pessoas saíram da miséria.

Os nordestinos - grandes beneficiários da política social desse governo - reconheceram o valor dessas políticas e responderam nas urnas, renovando o crédito à presidenta Dilma. Por conta disso, temos sido taxados de burros, vagabundos e atrasados, e há quem chegue ao extremo da virulência, incitando que nordestinos sejam queimados, até movimento separatista eu ouvi por aí.

Seria cômico se não fosse trágico, perceber que toda essa raiva, escamoteia uma grande frustração e inabilidade em aceitar as verdadeiras e significativas mudanças sociais. Não está mais tão fácil encontrar um miserável que se sujeite a ganhar R$ 5 para cortar a grama ou lavar banheiro na casa da classe média que, estranhamente, no nosso país não se vê como classe trabalhadora e assalariada. Assim como também não é fácil ver o filho da empregada - que agora precisa ter carteira assinada - viajando para o exterior, para estudar pelo Ciência sem Fronteiras. “O governo dá bolsa esmola e compra os votos dos nordestinos”, alardeiam. “O PT é corrupto e o socialismo é responsável pelos genocídios em todo o mundo”, ouvi algumas barbaridades desse tipo; e só faltou ouvir que foi o PT quem inventou a corrupção e todos esses vícios centenários dessa política predadora e oligárquica.

Não sou cega. Nem acho que o PT fez o governo dos sonhos. Penso que, sobretudo, a classe média paga um preço alto no país, sem a garantia de serviços públicos como educação, saúde e segurança. Muita coisa precisa melhorar para termos verdadeiramente o binômio crescimento/qualidade de vida. Mas, convenhamos, não faz sentido tanta amargura. Tanto rancor. Seria trágico se não fosse cômico, morar num país em que pobre não pode receber bolsa "esmola", mas magistrado e promotor tem direito a receber auxílio-moradia; que a política oligárquica pode ter financiamento privado em suas campanhas, mas pobre não deveria ter direito a cotas nas universidades. Deixo a dica, aos inconformados, como Lobão, compra uma passagem só de ida e vai morar em Miami.



Texto publicado originalmente, ontem, no Novo Jornal -

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Tempo de espera




Eu sei que o Dia das Crianças já passou e que tratar sobre esse tema pode parecer datado. Mas em tempos sombrios de ódio e retrocesso políticos, de descrença nos discursos e uma sensação de que 90% do que está circulando nas redes sociais, mídia convencional e quetais faz parte de um urro cego e sem direção sobre os rumos do meu Estado e do meu país, então eu me peguei hoje pensando nos meus tempos de menina e no quanto era saudável o alheamento sobre esses assuntos chatos de adulto que entra ano, sai ano, pouco mudam e, quando mudam, incomodam tanto. Não é nostalgia não. Era melhor mesmo ser criança.

Vi em algum livro ou filme dia desses que o ser criança é um estado de espera. Eu acho que tem a ver com o estado de esperar crescer. Mas, crescer para onde? Para quê? Para quem? A gente só se apercebe dessas perguntas quando já é tarde e não é mais à espera do tempo que nos dedicamos a viver e sim, à espera das coisas, das pessoas, dos objetos, da riqueza, do poder, das conquistas, da ostentação, assim como também do desapontamento - que chega quando menos esperamos - da falsidade, traição, mentiras e roubos de nossa inocência no mundo.

Sei que a minha infância não é a mesma de hoje. Tampouco minhas necessidades naquela época são as mesmas que alimentam as crianças desse tempo. Estava num aniversário semana passada quando, duas meninas chegaram para a dona da casa e, tímidas, cutucavam-se entre si, instigando uma à outra a pedir algo. Eu, na minha ingenuidade, achava que elas queriam comer brigadeiro, pipoca ou quem sabe até antecipar a partilha do bolo. Elas queriam passe livre para tomar banho na jacuzzi no quarto da anfitriã e depois acessar a internet nos computadores superpotentes da Mac do escritório da casa. Tempos modernos. Mas, percebi que a surpresa do pedido delas não afastou meu espanto ao perceber a beleza indiscreta de seus desejos, muito parecidos com os meus de brigadeiro e pipoca de outrora. Ser criança é querer aqui e agora. Ser criança é pedir e arriscar o sim sob qualquer circunstância. Um "não" é só um obstáculo a ser ultrapassado. Talvez, instintivamente, saibamos que um dia ouviremos a negativa que anulará e deixará para trás nossa infância e, por isso, o tempo de espera da infância é, paradoxalmente, o tempo mais presente e mais possível que teremos em toda a nossa vida.

Nesses momentos sombrios pelos quais passamos, registro aqui meu desejo de criança, de que sejamos ainda abertos ao sonho, aos riscos, aos pedidos e na crença do sim. Seja pelo brigadeiro ou pela jacuzzi. Seja pelo que for. Mas, que não seja sem a inocência das crianças.

Publicado originalmente para o Novo Jornal.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Minha infãncia



Eu acreditava em anjo da guarda. Lia gibis e nunca li Alice no País das Maravilhas. Tinha também minha avó, medo de escuro, bolo de fubá, "grachinha" em cima da comida e verme, piolho e asma. Não podia criar gatos, mas tinha os dos vizinhos. Nota baixa nem pensar, mas tinha carinho, danoninho quando mamãe vinha para Natal e uma vontade descomunal de ter mil colants (até hoje eu não entendo esses desejos fashionistas). 

Tinha brincadeira de menina e menino. Tinha amarelinha, "Tô no Poço", queimada, a total inabilidade com a bola de vôlei, brincadeira de cozinhado, sair escondido para andar na roda-gigante, primeira comunhão, as primeiras cartas de amor, conga, o macaco agarradinho, a bonequinha fofolete, o disco de vinil colorido, filmes na sessão da tarde com o Roberto Carlos e o Elvis Presley, uma surra do painho, mil cascudos da mainha e algumas horas de castigo só para não deixar a vida tão doce, porque era doce demais, regada a doces de coco, de leite, de mamão com coco e beterraba e creme de leite, queijo de manteiga raspado do tacho, sopa de verdura só com a japonesa do lado, pão assado, cuscuz e solda preta, pipoca doce, romeu e julieta, refrigerante grapette e pastel com caldo de cana no intervalo da escola. Tinha professor João Neto e sua inteligência e deliciosa paciência com minha desatenção crônica. Tinha os amigos como Didiza, Naldinho e Rejane. Tinha os primos Freud, Joselma e Netinho. Tinha a casa grande de tia Julita e tio José, que até hoje é o único e derradeiro patriarca que guarda consigo o olhar de toda a família da minha mãe e um biquinho ao falar que é só deles. Tinha circo com ou sem lona. Tinha que buscar leite na garrafa bem cedinho lá na caixa prego. Tinha minha cadelinha Biu e meu gato Kiko. 

Tem dentro da minha infância memórias que não cabem nesse texto. Tem muito esquecimento também e algumas coisas que até hoje eu não entendo direito porque aconteceram. Mas, tem, sobretudo, uma saudade e um orgulho danado desse tempo de espera que é ser criança. 


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A natureza do chão



Será que cair vai de encontro à natureza? Um desencontro entre os pés e a gravidade. A confiança dos passos se quebra em míseros traços de segundos e zás! Você ali no chão, em contato com o desequilíbrio momentâneo, de nariz colado com a vergonha. Hoje eu caí no meio da rua. Até agora não entendi o motivo exato. Não tropecei, não havia uma pedra, não havia um buraco, simplesmente caí, quase flutuando, até chegar ao chão. Não machuquei as mãos, que caíram espalmadas, freando o mergulho. Não ralei os joelhos que tatearam a calçada com a rapidez de um soldado em marcha. Só um pouco de dor no pé esquerdo. Dor tímida, bissexta. Nada demais. 

Será que bípedes caem mais? Confesso que não lembro de ter visto uma galinha cair. Tampouco passarinhos.

Cair no chão é o de menos. Difícil mesmo é encarar o asfalto na cara das pessoas. Você tentando regar algum tipo de bom dia e a pessoa impermeável às xananas das suas palavras. Minha manhã poderia ter sido só uma manhã de calor, caso não tivesse encarado a aridez de uma segunda-feira regada à poeira de velhos poderes. Acompanhados de rêmoras que devoram mesquinhas possibilidades de exercerem poderezinhos ainda mais podres de tão pequenos que são.

O que sei é que minutos antes, eu havia caído e tive uma vontade imensa de rir. Do ridículo. Da vergonha. Do ridículo de sentir vergonha. Quando a gente é criança e cai, a gente chora, noutras ri. Depois é como se ficássemos proibidos de cair. Mas, duro mesmo é quando nos proibimos de sentir algo parecido com o que sentimos quando caímos. Uma sensação de que nada é tão sério ou tão grave a ponto de não admitirmos que não há tanto peso na gravidade que agarre e garanta nossos pés ao chão.

Queria ter mais tempo e permissão para cair. Para descobrir outras naturezas que moram em mim, por trás da firmeza dos passos, os ombros para trás e o nariz empinado. Mas o mundo exige outras coisas da gente. O mundo quer que você ande cada vez mais rápido. Se puder correr então, corra! Ultrapasse obstáculos! Siga em frente! Não olhe para trás!

O que não ensinam para a gente, é que em algum momento ali da queda, nos miligundos de contato do corpo todo ao chão, a gente se depara com uma enorme humanidade, com o descanso de todas as convenções e ditames e regramentos que, no final das contas, são ainda mais ridículos do que o ato de cair.

Prefiro o chão às asas da ilusão de que (também) não fui feita para cair.



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sentidos



Uma noite incomum para mim aquela noite. Eu e uma multidão de gentes. Eu e uma câmera lá na frente, tentando captar a presença dos convidados ilustres da noite na tenda. Eles, os mais importantes. Eu, dando importância para as importâncias que não se habitam somente em mim. O que, por si só, é uma contradição porque só nos importamos com o que nos toca. Mesmo quando se trata de um conflito na faixa de Gaza e achamos importante porque é um conflito distante mas é um conflito que chama a dor, a injustiça, o abandono, o desespero. Essas coisas humanas que habitam em nós. Mas enfim, a multidão existia porque é nas multidões onde mais nos sentimos sós. Onde mais percebemos os limites da nossa pele, dos ossos, do ar que dividimos. Das partes indivisíveis entre o estar em um lugar repleto de outros corpos e o que é nosso corpo.

Eu via a multidão mas sabia que era impossível vê-la em completude porque só conseguimos ver as completudes por partes. Eu vejo em pequenas partes a palma de minha mão; se as aproximo dos olhos, posso ver melhor a palma da mão, mas estou vendo somente um pedaço de sulcos e células, embora ele faça parte de uma mão inteira. Eu via a multidão e, com o rabo do olho, eu via aquele homem. Altivo. Reto. Silencioso. E com a palma da mão virada para dentro dos bolsos. Eu via o homem e tentei fotografá-lo. Em vão, porque ele estava misturado demais com a multidão. E a multidão não existe. Ela é só um amontoado de pequenas partes que são importantes porque estão separadas.

Então eu ficava confusa e cada vez mais sozinha.

A multidão não existe.
Eu existo.
O homem não tem mão.
A multidão existe.
Eu não tenho importância
O homem é que é importante na multidão

Então eu saí da tenda e fui tomar um ar do lado de fora. E, enquanto eu procurava o ar com os olhos, porque meu nariz estava ocupado demais com o vento que tremulava a copa das árvores, eu me esquecia por alguns segundos daquele homem para, no minuto seguinte, lembrar com mais força de sua não existência nos meus caminhos. Eu procurava o homem com os olhos, o nariz e a palma da mão e não conseguia mais encontrá-lo. E não encontrando-o eu me perdia num desses devaneios de existência que nos fazem doer pelo peso de sustentar a si mesmo no meio de uma multidão sem nome e rostos. Essas coisas que nos fazem crer que somos inteiros e, ao mesmo tempo, pedaços de coisa nenhuma.


foto: "poros" do meu chapéu


Memórias de viagem

O fotógrafo foi um moço tímido que trabalhava no "kiosko"


tempo de silêncio. buenos aires foi um lugar cheio de silêncios para mim, apesar de ter ficado no centro da cidade. o pedido de reserva de um "quarto tranquilo" foi respeitado. instalaram-me no sexto andar de um prediozinho antigo, com um elevador que me dava calafrios, embora tenha cumprido sua missão. falharam em outros pontos. água quente, por exemplo, virou artigo de luxo. lavar o cabelo uma tortura. nesse dia, tinha saído por volta das 11 da manhã, sem tomar o café acabrunhado que eles serviam. muitas pessoas me pediam informação nas ruas. "je ne comprend pas"... brincava com elas, disfarçando minha ignorância de forasteira, louca para voltar ao meu silêncio, quebrado apenas por pensamentos confusos que bailavam pela língua materna e o espanhol, que saltava dos porões dos ouvidos ora atentos, ora distraídos.

paro num kiosko para comprar cigarros - "permiso, camel blue, cuanto vale?... gracias", eram as poucas palavras que eu precisava pronunciar com meus interlocutores portenhos. um senhor simpático, de tez morena e lindos olhos azuis se aproxima e pergunta se sou brasileira. com a afirmativa, desata a falar sobre a economia e a política brasileiras, de quem elogia, em detrimento à "bagunça" econômica da argentina. falo dos nossos 20 anos de moeda estável. sinto orgulho do meu país. experimento aquela sensação de que só quem pode falar mal do nosso país (e também dos parentes) somos nós mesmos. ninguém mais pode. seu "júlio" desata a falar mal da argentina. concordo em silêncio. não ouso quebrar o fio condutor de simpatia que nos une naquele momento.

logo mudamos o assunto. falo-lhe de Borges como principal motivo de minha visita. ele, amparado pelo conforto dos seus - prováveis - mais de 60 anos, tenta me dissuadir de ser (uma grande, diga-se) leitora de Borges. e me indica um poeta, Jose Hernandez, o qual alimenta a ideia de que é muito melhor que Borges. sorrio. converso. desconverso. falo de martín fierro, e de um encarte que peguei no avião, do jornal la nacíon. não resisto mais e cometo uma indiscrição, comentando sobre sua simpatia, elogiando-lhe a receptividade e simpatia (tão contrastante com o tratamento dos outros; da recepcionista do hotel, ao garçom do Tortonni, do vendedor da livraria ao contrabandista de câmbio). ele sorri e me surpreende: "soy uruguayo". o vendedor do kiosko que a tudo ouvia atentamente, sorrindo timidamente e, como se me pedisse desculpas pela antipatia dos patrícios, arremata: "péro, él ha vivido aqui por 40 años". todos rimos e me despeço.

sigo adiante e entro num restaurante chinês - sim há chineses por toda parte, é o que concluo - e sento para comer um self-service muito parecido com os servidos aqui, sem o meu delicioso e necessário feijão. já estou na metade do prato, quando seu júlio me aparece novamente. trocamos meia dúzia de palavras e lhe pergunto se já é aposentado. 

não. seu júlio é engraxate. um engraxate uruguaio, que vive há 40 anos na argentina, leitor de josé hernandez, que não simpatiza com borges, e que comenta política e economia como poucos brasileiros conseguem se expressar, a respeito de suas próprias experiências, quiçá das vividas pelos outros, mundo afora.

seu júlio. uma boa lembrança dentro dos meus silêncios na cidade portenha.





terça-feira, 9 de setembro de 2014

Otto - Saudade

Passagem de ida e volta







Sorriso frouxo e largo é melhor quando acontece entre amigos. É diferente de você rir de uma piada, de um filme ou espetáculo de comédia. Falo daquela gargalhada que sai pela garganta, mas antes percorreu todo o corpo. E pode ter sido gerada por uma piada absolutamente sem sentido ou só porque se está com muita fome. Daquele sorriso que você mostra os dentes e estreita tanto o canto dos olhos até ficar com oitenta anos de satisfação e plenitude porque você, simplesmente, está entre amigos e amigos não ligam se você tem rugas no canto dos olhos quando sorri. Eu, que tenho riso fácil, que rio de mim mesma no rio das horas quando varro para fora as memórias e suas cirandas, gosto muito de sorrisos compartilhados. Essa semana que passou, tive a oportunidade de rir durante alguns dias, longe de casa, com dois amigos que me são tão caros nas palavras quanto nos gestos.

Cristiano e Éverton, cada um à sua maneira, foram capazes de tanger para longe meus medos e tornaram maiúscula minha capacidade de me superar e seguir adiante; na hora da despedida, me afastei deles com a sensação de que tinham deixado um pouco de suas qualidades em mim. O primeiro, que tem o dom de falar com os lindos olhos brilhantes, me fez enxergar ainda mais que é possível amadurecer sem perder o frescor da aventura e da descoberta; o mais novo, como se fora um velho sábio e suas  andanças mochileiras, me encorajou e acreditou mais em mim que eu mesma. Amigos servem para isso: rir, ensinar e acreditar. Ao lado de pessoas de quem se gosta, a gente ganha super poderes. Fica com menos frio, tem disponibilidade para andar quilômetros durante horas num "mercado das moscas" para, no final não comprar nada; comer um sanduíche podrinho com a salsicha mais dura e crua que possa ter existido e também não se embriagar com algumas taças de prosseco no café da manhã.

Em meus mais lindos sonhos e nas mais doces expectativas da viagem, jamais poderia mensurar o tamanho dos pequenos e grandes gestos deles dois. Quando da minha chegada e o Everton foi me encontrar no portão de desembarque, ele guardava no rosto a tensão da busca; como um irmão fica ao procurar a irmã mais nova que se perdeu do resto da família. Ao me abraçar minutos depois, Cristiano abraçava também uma nova fase que eu inaugurava naquele momento, com o mesmo apoio com que me ajudou a encontrar as passagens e, simbolicamente, segurou na minha mão com firmeza quando eu disse para ele, “já está mais do que na hora de me despir do provincianismo".

De maneira que eu posso seguramente afirmar que minha passagem de ida e volta não foi apenas de um lugar para outro. Foi, também e com igual peso, uma passagem de ida e volta para a casa que carrego dentro de mim. Esse lugar que se constrói alicerçado pelos sorrisos e gestos de amor dos amigos.

Texto publicado originalmente hoje no Novo Jornal.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Perder tempo




A gente vive pensando no dia seguinte. No melhor das hipóteses, no minuto seguinte. Depois que eu tomar café, eu vou fazer tal coisa. Depois que eu fizer essa tarefa, vou até o banco pagar uma conta. Faltam só nove dias para eu entrar de férias e aí eu vou dormir até mais tarde. A partir das 19h do domingo, já estamos sofrendo com a segunda. Na quarta-feira, que-remos dar um pulo para a sexta à noite. E, assim, seguimos a vida olhando para a frente. Só que, com isso, podemos esquecer de viver o tempo presente. Ou, o tempo presente nunca está presente, porque não temos tempo para ele; num instante se torna passado, no outro é só uma perspectiva ainda não vivida de verdade. Nosso desejo sempre pendente de viver para frente ou para trás.

Se nas coisas comezinhas é assim, imagine nas maiores. Não é diferente. A gente começa a faculdade, já sonhando com a formatura. Tem alguns cursos inclusive, cujas prestações de álbuns, festas, recepções, convites, já começam no início de tudo. A pessoa não sabe nem se vai passar naquelas disciplinas do semestre, mas já está pagando para o dia em que se livrar de todas elas. Tem gente que começa a trabalhar já pensando na aposentadoria. Cometendo uma inconfidência feminina, às vezes, nós mulheres, mal beijamos o cara pela primeira vez e, ao olharmos para seus lindos olhos esverdeados, ficamos imaginando a cor dos olhos dos filhos que teremos juntos. Pronto, falei!

Fazemos da vida um crediário sentimental, de sonhos, fantasias, ilusões, desejos. Tudo será melhor depois. Apostamos as fichas no amanhã, porque agora ou está simplesmente chato ou estamos esquecendo de como calcular a intensidade no aqui e agora.

Tempo é dinheiro? Pode ser. Mas também é privilégio. Banho de sol. Gargalhada com os amigos. Ausência de compromissos. Uma página em branco na agenda. A leitura de um livro esquecido na prateleira. Ouvir uma música no celular. Tempo é estar atento ao improviso, ao improvável, ao paraíso das imperfeições que nos movem não só para adiante, mas também para dentro. Tempo é prestar atenção no silêncio.

Acho que cheguei num tempo da vida em que perder tempo é um bom negócio. Sobretudo para a alma. Assustam-me mais as certezas do que as dúvidas. O amor, por exemplo, pode ser um emaranhado de planos e sonhos hipotecados para muitos anos juntos, mas se não tiver sorriso de manhã, se não tiver relatório no fim do dia, se não tiver divisão de tarefas sobre quem cozinha e sobre quem comanda a pia, se não tiver cócegas debaixo da costela e não tiver o abandono nas coisas agarradas sob o fio da convivência, então é um amor que precisa perder mais tempo. De preferência, bem juntinho.

texto publicado no Novo Jornal dia 2 de setembro

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Fragmentos do devir




Uma desobediência toma conta de mim. O corpo está inquieto, tem ruídos, ondas, pancadas. Vivo intensamente dores e meus dedos quase não querem obedecer à dança dos teclados. Tenho tantas letras represadas. Em contraponto, a alma está em flor. Poderia estar em festa mas, passam das 10 e é melhor cultuar o silêncio. Cultivo um jardim de sonhos dentro. Assusto-me um pouco com a capacidade de nascer de novo, todos os dias. (Re)aprender a falar. (Re)aprender a andar. Cair, se for preciso, para descobrir onde dói. Ontem dancei no meio da rua. Uma dança lenta, macia e cheia de calor. Meus braços, pernas, abdômen, barriga, joelhos, ombros, meu peito e meu coração num só compasso. No compasso do outro corpo dentro do meu passo. Uma desobediência tomou conta de mim. Contrariou as estatísticas. Levou embora algumas certezas falidas. Bagunçou minhas frases. Invadiu minha boca com a língua, entrou em mim pela porta da febre e da saliva.




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Êxtase pagão 18

O presente


... Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si. (Clarice Lispector - Aprendendo a Viver - Rocco)




Minha cara Alice,

Finalmente reservo uma fatia do meu tempo para responder sua carta. Não será grande, admito. Mas prometo que vou me esforçar para que suas mãos sejam agarradas pelas lembranças do gosto levemente ácido e açucarado daquele bolo de laranja que você tanto gostava quando criança e pedia sempre para repetir e repetir e eu ía diminuindo cada vez mais a espessura das fatias, até ficarem tão finas que se esfarelavam no caminho entre os dedos e a boca.

Porra. Porra. Porra. Foi o que você cadenciou para mim, referindo-se a si mesma. Senão por completo, ao menos a uma parte de você que não está sabendo lidar com o que se descortina diante dos olhos. De cá penso que seus olhos ainda estão vendados. Mas sua alma, minha sempre menina, é que toma ares. Abre as janelas. Respira o ar que passa além daqueles que entram nos seus pulmões.

Alice, as escolhas não são definitivas, meu bem. Elas são, geralmente, um ponto de partida. o que você vai fazer depois delas é que darão o teor, o valor e o peso das coisas, dos outros e de você mesma. Mas, principalmente, isso não se teoriza, se sente e se vive, e você sabe muito bem. E sabe também que assim como você, eu não suporto muito frases prontas, os períodos copiados das enciclopédias e as páginas encharcadas de tédio e repetição. Sorry dear. Talvez não tenha muito a dizer. Você deve estar rindo agora. Quase triunfante. Pensando que estou balançando as mãos efusivamente enquanto falo essas coisas, quase bradando e com o cenho aparentemente severo. E repetindo, mais uma vez que, por mil olhos de gatos, prefiro muitas vezes pedras soltas a palavras vãs.

Pois bem, você se enganou dessa vez. E se enganou novamente se acreditar que me distraio de você. Muito embora ache que seu sonho é deveras incauto. Não a condeno por isso. Ao menos ele não está morto. Você não deve ter entendido. Isso é o que eu chamaria de uma piadinha coeva e infame.

Querida preciso ir agora me acorrentar a outros afazeres. Ou quem sabe me permitir a momentos de contemplação do inverno esquizóide dessa cidade. Mas antes queria lhe dizer que talvez fosse interessante que ao invés de querer adentrar pela porta da frente, você procure os porões das respostas. Livre-se também desse arsenal mercadológico que impõe uma máscara bifronte de carnaval na cara das pessoas, impedindo que elas respirem realidade, não se vanglorie dos clichês que determinam o que é felicidade e, outra coisa, se os dias passarem vagarosos, lembre-se que não é você que tem controle sobre o tempo. Definitivamente. Afora isso, nada mais é definitivo.

Não leia minha carta com os olhos sobre linhas cartesianas porque elas sequer existem para mim. Deixei-as na 8a série. Leia com o vagar e o distanciamento de quem já aprendeu a amar ao outro com a certeza de que o outro não é o que você quer que ele seja. Vou terminar com uma citação daquele nosso escritor preferido e que sempre lemos em voz alta quando estamos perto uma da outra. “Não há encanto em manipular conceitos, deixando o coração deserto”.

Com amor, S.

Mais um textinho de priscas eras que retomo aqui no blog

Yael Naim - Far Far - Official Video





Meu amigo Cristiano Félix me indicou e eu nunca mais deixei de ouvir essa moça!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Desculpe a bagunça







É uma frase recorrente. Geralmente, quando alguém chega em minha casa, peço desculpas pela bagunça. Às vezes, nem tem bagunça de fato. Talvez uma ou outra coisa fora do lugar porque as casas habitadas têm disso: uma blusa em cima da cama; uma revista jogada no lado; um livro descansando as páginas depois do exercício da leitura; um pingo de água no canto do chão próximo à geladeira. Eu acho que casa também tem alma. Se tudo está arrumado demais, no lugar demais, as cortinas não têm vincos, as almofadas não estão amassadas, um dos quadros não está ligeiramente inclinado para a esquerda; a torneira não respinga uma gota a cada 15 minutos, que seja; o relógio da cozinha não faz tic-tac, então tem alguma coisa errada.

Numa casa de verdade, as paredes suam no inverno e descascam no verão. Sempre tem uma planta precisando de um pouco de água e tapeamos o compromisso permanente de mobilizar o encanador, o eletricista ou o pintor com um pedaço de fita adesiva, que fica somente parte escondido em algum lugar. Particularmente não gosto de sujeira. Bagunça não é sujeira. A bagunça de que falo tem a ver em não saber onde está o pano de prato, que deveria estar pendurado no seu devido lugar, e sai para passear sem avisar a ninguém.

Se você chega numa casa, cuja sala – ou outro cômodo, que seja - está impecavelmente arrumada, é provável que alguém tenha acabado de organiza-la ou então que ela sirva apenas como local de passagem. Onde tem gente tem movimento, tem lixeiras com papeis descartados e outra sorte de pequenos pedaços do cotidiano. Onde tem tempo, tem histórias e às vezes até algumas teias de aranha atrás da porta ou penduradas no lustre. Onde tem vida tem pequenos defeitos circulando.

Então, na verdade, quando alguém chega à minha casa e eu digo a célere frase, tem uma outra que reverbera nos meus silêncios, e se faz notar na poeira no canto da estante, no pedaço quebrado pequeno elefante de pedra sabão com a bunda voltada para a porta de entrada, que já levou três quedas e eu finjo ignorar tal acidente; nos pelos soltos dos meus gatos que me fazem espirrar;  na frigideira que está com o cabo um pouco solto; na garrafa térmica que mantém o café aquecido por no máximo 20 minutos, dentre outros pequenos remendos de uma casa habitada: “pode entrar, eu permito que você perceba minhas imperfeições”.

Porque se alguém entra na minha casa, o meu segundo corpo, então é porque pode entrar na minha vida. Esse emaranhado de surpresas, intimidades e um pouco de bagunça.

Texto publicado hoje no Novo Jornal


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

À sombra da jabuticabeira (direto do túnel do tempo 2)



Marte está de rosto colado com a Terra. Agosto é mesmo um mês interessante. Mas, como em qualquer mês, há muito receio ligar a TV. Aproxima-me da violência que não quero ver, muito menos sentir. Desde a tarde em que fui assaltada, meu olhar ficou mais desconfiado e meus passos mais rápidos no caminho de volta pra casa. Mas nem mesmo lá me sinto à vontade. Porque tem o telefone que toca e é um amigo dizendo que foi assaltado. E além disso me diz que foi espancado pelos imbecis homofóbicos. Fico pensando naquilo tudo e a sensação é como se alguém tivesse envolvido minha cabeça num saco plástico. Então, ligo a TV para me distrair. Meio minuto depois já não quero mais ouvir aquela caixa preta. Prefiro usar a máquina do tempo da memória e me lembrar de quando era menina e depois do almoço ouvia ao lado de minha avó a Rádio AM. Era sagrado escutar a voz mansa de padre Zezinho cantando Um Jovem Galileu e lendo trechos da Bíblia. “Capítulo 15, versículo 4”. Demorei anos para decifrar, quando ía à missa com aquela mesma avó, o que aqueles números queriam dizer. Também não sabia quem era Deus ou Jesus. Pai e Filho sempre me confundiram. Hoje já sei que pais e filhos são para isso mesmo.

Teve uma época em que deixei mais de ir à missa aos domingos. Naquele tempo, comecei a passear pelos brejos da Paraíba. Creio de deveria ser uma fazenda pequena e aquela MONTANHA que costumávamos escalar não passar de um montinho meia-boca que deixava a casa com seus alpendres ventilados, numa escala bem menor aos nossos olhos. Foi numa dessas escaladas com um bando de primos e primas que senti pela primeira vez o comichão que esquenta as orelhas e desemboca frio na boca do estômago. E que os adultos costumam denominar de PAIXÃO. Rodolfo, o primo de cachinhos dourados e olhos que se confundiam com o céu da fazenda, chegara primeiro ao topo. E alguém mais embaixo esbaforidamente gritou: “Faz o Cristo”. Sem a menor cerimônia, peculiar aos infantes, ergueu os braços como se quisesse abraçar o horizonte e pendeu a cabeça prum lado. Foi um rebuliço total. A imagem fora tão magnífica que todos que lá chegavam queriam fazer igual. Naquele mesmo dia ainda brincamos de detetive, vítima e assassino. Comemos bolo quente, raspamos a panela da canjica e eu dancei pela primeira vez de rosto colado. Com meu primo Rodolfo, claro. Mas nem de rosto tão colado assim. Nossas mães se entreolhavam num misto de encantamento e cautela. Coisas da experiência.

Hoje, minha própria experiência sente falta dessas coisas. Daqueles momentos. Já não existem tantos rostos para colar embaixo da Terra. Tampouco aquele  encantamento. Então, voltando ao ponto inicial da crônica, num domingo como esse, quando tenho receio de ligar a TV e morrer, fecho os olhos e imagino o primo Rodolfo segurando minha mão. Ajudando a me equilibrar por entre as pedras escorregadias da vida. E sentados à sombra da jabuticabeira da fazenda, defronte o laguinho, com a ponta de uma varinha ele rabisca no chão de barro os castelos onde viveremos felizes para sempre.


mais um textinho que tem mais de dez anos e que jamais contribuirá para a derrubada de árvores. hashtag a natureza agradece!