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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pela passagem de uma grande dor...


Pela passagem de uma grande dor" é o título de um conto do Caio Fernando Abreu, que eu aprendi a gostar ainda na adolescência. Do autor e dos contos, claro. Acho que é do livro Morangos Mofados. Mas, enfim, não quero falar do conto. Só do título que reverbera em mim por vezes com força e intensidade, como um golpe de aríete, nos meus dias caducos. Quem nunca passou por uma grande dor, que não sabe do que eu estou falando? Todos já vivemos e sentimos os momentos de uma passagem por uma grande dor.

Pois é. Hoje eu passei por uma dessas. Tão forte e significativa que dou passagem para o pessoal e intransferível, para a auto-exposição aqui neste lugar estranho que é meu e é seu, leitor. Foi uma dor física, entoxicada, lancinante. Não dá para descrever em linhas exatas porque a dor é quase tão pessoal e intransferível quanto a existência individual e intransferível. Cada um sabe como dói em si mesmo. Mas no outro, por mais que nos esforcemos e tenhamos empatia, sempre será uma especulação, com o empréstimo simpático da imaginação.

Eu estava no jardim, a passear com os animais e fui atacada por maribondos vermelhos. O primeiro ataque foi contra meu braço direito. Os próximos, rápidos e coletivos, foram nas costas. Perdi as contas na sétima picada que entrava como uma lança curta e fina, mas que fazia um estrago lá dentro. Chorei quase que instantaneamente. A dor é muito dolorida. Invade o corpo e toma por completo a concentração, a dignidade, a calma, ou uma outra saída, a não ser a de se entregar ao desespero de querer que aquele veneno se espalhe ou que escorra para fora do corpo. Mas não ocorreu tão rapidamente quanto as minhas preces. Chorava e lavava meia dúzia de roupas sujas emocionais dentro de mim. Chorei tanto que teve uma hora que já estava pedindo carona em outros sentimentos, no passado, naquela vez em que minha mãe não tinha dinheiro para comprar a bonequinha da Estrela.

Chorei porque o corpo gritava mais alto que meu adorado e devoto silêncio matinal. Chorei porque não havia alternativa. E até umas três horas depois, ainda me assustava com a existência de uma ou outra lágrima que escapava dos olhos, enquanto que o latejamento não dava trégua nas costas. Chorei pela cor cinza da dor e até agora, enquanto escrevo, sinto meus olhos cansados pelo esforço. Chorei porque estava com o corpo cansado de sentir. E a alma andou de mãos dadas com essa dor.



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os filmes que eu ainda não vi

Eu, Mário e Moacy, na ocasião do lançamento do seu livro sobre o Fluminense


Desde a primeira vez em que nos vimos, ele já preservava aquele olhar acolhedor, como se fôssemos velhos conhecidos. Moacy e sua barba branca, Moacy e seus olhos vivos por trás das grossas lentes dos óculos. Moacy e seu sorriso sereno. Nossos encontros se deram, inicialmente, através dos blogs, eu, Carito e Moacy Cirne nos tornamos leitores diários uns dos outros. E, como toda boa etiqueta “bloguística” pede, comentávamos sistematicamente as publicações uns dos outros. Foi Carito quem me deu a notícia no dia 11 passado. O telefone tocou e a voz grave de Carito disse: "Sheyla, Moacy morreu". Sem cumprimentos prévios. A notícia era mais importante. A perda reverberava dentro da gente. Na mesma hora pensei: quer dizer então, que nunca mais vamos tomar os porres de água mineral com gás lá em dona Sílvia? Eu, você e ele?

É que fizemos isso algumas vezes, lá pelos idos de 2008 e 2009. Sua sempre companheira Fátima, o levava de carona até a Confeitaria e ficávamos lá, tomando água mineral com gás e conversando, conversando, conversando. Por ocasião de sua enfermidade e da necessidade de se recolher, fomos obrigados a dar uma parada nesses encontros. Mas sempre nutrimos a sensação de que seria provisório. Aliás, não ingerir bebida alcoólica nesses encontros era uma espécie de pacto, de parceria pela sua melhora. Ele não podia beber cerveja, então não bebíamos também.

Moacy costumava me chamar de "Menina Menina", assim mesmo, dobrado. Eu achava engraçado e me sentia mesmo uma menina. Uma menina inocente e aprendiz diante daquele "balaio porreta" de informações que o Moacy tinha para nos oferecer, sem nenhum tom professoral ou sem nenhuma nesga de exibicionismo. Pelo contrário, às vezes, os três empolgados em alguma conversa, ele quase pedia licença e quase pedia desculpas por expor suas opiniões e a larga experiência acumulada na vida, na poesia, nos filmes que assistiu lá em Caicó, nos anos de docência no Rio de Janeiro.

Ele representava para mim um mundo inteiro de livros e filmes, poesia, militância e vida a descobrir. Eu sempre me sentia em dívida com Moacy naquilo que ele ainda poderia me ensinar. E sempre imaginava o que ele acharia desse ou daquele filme que porventura eu já tivesse assistido. Mas, estar com ele naquelas tardes lá na Confeitaria ou então receber suas sempre gentis palavras de incentivo no meu blog sobre o que eu escrevia, era sempre um atestado de sua grandeza; de que eu teria que viver ainda mil anos e assistir mil filmes para me aproximar do brilho de sua estrela pessoal.

Agora Moacy se foi e me deixou essas lembranças. E me deixou seus livros, suas listas dos filmes que eu ainda não vi, dos clássicos, de westerns, de poemas, de livros, dos diretores, de canções, de tantas coisas que eu sei que só tive a chance de ver através dos olhos de Moacy. Por isso, por mim e por tantos outros, ele vive.

Texto publicado originalmente hoje no Novo Jornal


domingo, 26 de janeiro de 2014

Quando alguém perde um grande amor

Foto: Sebastião Salgado



Hoje eu vi o amor doer, Babe. Uma amiga - a minha amiga que gosta de abraçar os outros e que às vezes parece uma andorinha frágil, noutras uma águia superprotetora - perdeu o seu grande amor. Quarenta anos que eles se conheciam e se encontravam e se reencontravam nos caminhos da vida. Ele já estava doente um tempo e, todos os dias, eu via nela um frescor de esperança que contrariava todos os diagnósticos. Ela não era alheia à realidade dos fatos, aos problemas quase intransponíveis que ele vinha encarando. Durante as visitas ao hospital ela falava com alegria sobre um simples olhar que ele dirigia a ela. Até mesmo quando ele chorava ou ensaiava algum outro tipo de emoção em meio à perplexidade do corpo inerte, ela encarava como um foguetório de melhora. Era bonito de ver, Babe. E era triste, e eu me envergonho agora de pensar assim, porque às vezes eu achava que era uma quimera.

Mas não era ilusão. Toda a esperança que ela tinha, toda a alegria no olhar e todo o sonho de que ele se recuperasse era real porque baseava-se no grandioso respeito de continuar acreditando; de continuar persistindo, de enxergar a vida como uma possibilidade e não como um simples caminho para a morte. Eu tenho a impressão de que ela foi aprendendo a amar aquele homem  a cada ano, a cada um dos quarenta anos em que ficaram juntos, ela subia os degraus do desapego, do desespero de querer morar junto, de querer ter filhos, de querer. Porque no amor, às vezes, o querer é um desencontro, Babe, com o que (já) se tem; que é, simplesmente, o que cabe no sentir pelo outro. E hoje, eu vi que o companheiro dela, o homem grande e de tez morena que me dava carona no seu velho Fiat branco e falava que eu deveria comprar um carro, e ria com simpatia pelo amor que sinto pelos gatos, partiu deixando nela não só e unicamente um rastro de solidão, como é de se esperar quando um dos amores parte dessa vida; porque ele partiu deixando nela o amor que ela sentia; um amor que resistiu ao tempo, às intempéries e aos olhos alheios; um amor que não é desses retirados de revistas ou de novelas, é um amor que nasceu, cresceu e criou asas e os deixou livres para amar um ao outro como cada um poderia ser. E esse amor, eu sei, é maior que a tristeza que ela hoje está sentindo. E que eu sei também que um dia atrás do outro a tristeza vai ceder espaço para todo o resto, ou seja, tudo o que eles foram e viveram um para o outro, viverá nos olhos e nos abraços que ela ainda dará por onde ela passar.

Fiz essa carta para alguém que, certamente, já nem lembra meu nome. E a entreguei à minha amiga Lili, a mulher e companheira que foi do seu grande amor. Ela chorou e guardou a carta. Eu também chorei. Mas o amor existe.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Levanto a saia



Sou mulher. 

Levanto a saia para sentir a luz. E a minha pele sentir o calor do sol. Sou mulher e guardo uma estranha mania de querer proteger o mundo das doenças, das guerras, do pranto e da morte. E, por não conseguir isso o tempo inteiro, choro. E as lágrimas lavam o mapa do meu rosto, descendo pelo pescoço, escorrendo até o vale dos seios. Sou mulher e não costumo parar o curso do rio e do sal que sai dos meus olhos. Sinto até não haver mais lágrimas, só lembranças. Memória oceânica de outros choros, outros sonhos, outros vazios. Misturo tudo e às vezes nem mais sei porque estou chorando. Ou para quem. 

Levanto a saia para alguns homens. Para esquecer da solidão por alguns instantes. Alguns homens. Alguns dias. Alguns homens. Alguns meses. Alguns homens. Alguns anos. Uma vida inteira. Alguém que às vezes esqueço o nome. OUtros, escrevo o nome no mapa do meu coração. Homens bandeirantes. Homens e seus machados. A cortar o bem pela raiz. Homens que não sabem chorar. E, se o fazem, encurtam o curso das lágrimas, para não perder tempo. Eu levanto a saia para o desejo. Troco a solidão por um gozo, como um miserável que troca a miséria por um pedaço de pão, uma nesga de carne. Levanto a saia porque tenho o coração escancarado. Dessangro-o em cartas de amor sem destinatário.

Levanto a saia para não deixar o vento passar incólume. O vento e a poesia que sopra às vezes tão intensamente que traz sentido no caos. Levanto a saia para dançar um blues, e deixar a música entrar. Levanto a saia porque a taça de vinho faz calor lá embaixo. Levanto a saia para fazê-lo acreditar que é o melhor entre todos de todos; e dos povos, dos índios e dos astronautas. Levanto a saia para manter os braços e mãos e a atenção metódica e detalhista sobre todas as coisas sempre ocupadas; porque a mim, não me é permitida a distração de viver.

Levanto a saia para fazer filhos e depois para deixá-los nascer. Levanto a saia para proteger os filhos. Ensinar-lhes coisas que depois eles desdenharão para desenhar seu próprio rio, seu caminho, para descobrir outros sóis e outras peles. Levanto a saia para deixá-los sair e odiar o amor que sentem por mim.

Levanto a saia para enxugar o suor do meu rosto; do lavrador que lavra a palavra no papel e colhe tempestades.

Levanto a saia porque me resta pouca vergonha e muita fome.

Sou mulher.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Coisas que eu vejo




Um coro de vozes ecoa dentro das minhas horas. Disputa com os carros, a poeira, o calor e o desejo de estar longe um lugar para acomodar o som que conforta e perturba. Quase sou capaz de pedir a um estranho para me tocar. Só para verificar se ele compreenderia essas coisas que passeiam pelos meus póros, essas antenas da minha alma, e se ele teria o mesmo arrepio que me enche os porões de uma espécie de dor e de esperança nesse mundo que não pertence a ninguém.

Eu vejo pessoas andando, suando, fazendo perguntas, sorrindo, pagando as passagens, cortando os galhos das árvores, fazendo compras no supermercado, preparando couve e feijão. Eu vejo coisas que não estão por aí, como quando a moça promete à mãe que elas ainda plantarão pinheiros e a mãe sonha com os netos que ainda não chegaram. Eu vejo o rapaz andando de bicicleta, roubando um beijo da moça na outra bicicleta. Ela fecha os olhos e quase cai. Ele abre os braços e brinca de Titanic. Eu vejo coisas que não estão por aí. 

Pequenas anotações de uma nova segunda-feira, ao som de Gulag Orchestra, do Beirute.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O gosto da laranja



Hoje ela acordou pensando no senhor G. E enquanto ía ao banco, vendo a paisagem de céu e mar que circunda a cidade, pensava que eles podiam se encontrar por acaso na fila do banco. E riu sozinha daquele tipo de pensamento. Parecido com aquele em que a fazia sonhar em ser bailarina do Municipal ou saber andar sob monociclos, escalar montanhas, ser a chanteuse de uma banda de rock de garagem ou, até quem sabe, cuspir fogo, sem se queimar. Pensamentos construídos no desejo de impressionar; para parecer maior e atraente, como fazem os pavões.

Uma das coisas que ela acha mais agradáveis quando está apaixonada é a possibilidade de sonhar acordada, de acreditar na companhia invisível daquele homem, que a persegue até mesmo quando ela está no banho e então tenta disfarçar aquelas imperfeições que, antes, ela nem lembrava que existiam. O amor traz a sombra invisível do ser amado. Traz à tona também coisas antes imperceptíveis como o silêncio das pedras e a necessidade quase sufocante de dar nome aos sentimentos, de prestar atenção no roçar dos lábios ou do gosto da laranja no canto esquerdo da língua.

Mas eles não se encontraram na fila do banco. E por alguns segundos, entre as passadas rápidas rumo ao novo compromisso, ela pensou que poderia cruzar com ele no meio da rua mesmo. E na volta pra casa, encostou a cabeça bem rente ao vidro da janela do ônibus a ponto de roçar os cílios na superfície fria e lisa. E lembrou de como ele gosta de encostar a mão debaixo de sua cabeça, quase como um travesseiro, a ponto de os cílios dela roçarem a palma da mão e seus caminhos digitais, suas marcas indeléveis de solitária individualidade. E ela fingia por um tempo estar relaxada e dormindo naquela posição que era um misto de carinho e um pouco incômodo e abria os olhos de repente e abria e fechava de novo. Até ele rir com as cócegas dos finos fios e saber que ela estava acordada. Então, puxava-a mais para perto a ponto de ela sentir que era só um pedaço de nervo que tremia todo e pertencia àquele corpo que não era o dela. Algo mais que a costela de Adão. Algo menos que os bigodes de um gato. Ela e os membros do seu homem por sobre seus ombros, coxas, cintura, seios, pés, bunda, sexo. Ela e somente a sensação de ser abraçada. Ela e a doce ilusão de que é ainda mais doce morrer nos braços do homem amado, do que morrer no mar, como acreditam os pescadores. Sentindo seu peso calculado, seu corpo que sua por fora e escorre o desejo por dentro dela.

Epílogo

Quem ama acredita mais na sorte que naquilo outro. Falando nisso, evita passar debaixo de escada. Junta coisinhas do tipo o primeiro bilhete da primeira ida ao cinema dos dois. Faz planos, mesmo que possam ser exagerados, distantes ou precipitados. Evita partilhas, mas compartilha os dias, os vinhos, os risos e também as dores. Mas é bom não partilhar muito os ex-amores. Quem ama presta mais atenção no gosto da laranja, nas fases da lua e no coração, que bate no peito.

Mumford & Sons - Hopeless Wanderer

Sorte no amor



Eu quero a sorte de ver, todos os dias, as várias e possíveis formas de manifestação do amor. Tem gente que acha que mulher é "bicho complicado". Eu, que já me declaro um "bicho esquisito", arrisco um palpite que mulher gosta mesmo é de coisas simples. 

Dia desses minha amiga Terci deixou um recadinho numa rede social, dizendo que sentia saudades. Fazia uns meses que não nos víamos. Respondi imediatamente, dizendo que “sim, eu também" e em menos de quarenta minutos lá estávamos nós, nos abraçando, botando a conversa em dia e tomando uma cervejinha para refrescar, porque ninguém é de ferro. Simples assim. Daí, passava na enorme televisão tela plana do barzinho, um clipe “travado” de um cantor. A imagem trêmula e o som entrecortado dava nos nervos. A garçonete - por sinal muito simpática – ouviu nossa observação, a concordar com o incômodo, e em menos de 15 segundos a televisão já mostrava as cenas do capítulo da novela das nove. Tudo bem que não foi lá uma grande substituição mas, ao menos, serviu para que esquecêssemos completamente do que passava na TV. O entendimento foi rápido e a resolução simples, mas certeira. Depois dizem que mulheres não podem ser práticas. 

Terci sorri com os olhos. E chora quando a vida cansa nos ombros. Raras vezes eu vi - mas fiquei com vontade de chorar junto - porque ela chora um pouco para dentro. Abaixando os olhos como se estivesse com vergonha, enxugando rapidamente as lágrimas para que elas não disputem espaço com a vontade de seguir em frente. Terci é dessas mulheres que carregam a boniteza da vida sob os pulsos fortes, pero sem perder la ternura. Terci se reinventa e cresce no desenvolvimento dos filhos. Terci joga coisas para o alto e não tem medo de alçar voos no escuro. E ela às vezes se boicota, mas quem nunca? 

Ana é doce como doce de batata doce. Ana tem tanto amor dentro de si que às vezes ela não sabe onde botar, então esconde na timidez. Ela é o tipo de pessoa que consegue dar presente de roupa e não erra. A gente sempre gosta. Ana tem um olho que busca nos outros o que os outros têm de melhor. Às vezes até exagera, porque é como se ela não conseguisse ver que seus olhos são espelhos para nós. E ela gosta de fazer muitas perguntas, até dar uma dor. Uly também é perguntadeira. Ela é do tipo que não desiste nunca no quesito ligar até a gente atender. Já contabilizei oito chamadas não atendidas de uma única vez. É também a melhor consultora de moda que eu poderia pedir à Santa Coco Chanel. E é meio maluquinha porque tem um corpo lindo de viver, mas se acha gorda. Mas quem nunca? 

Eu tenho sorte de ter essas mulheres na minha vida. E muitas outras que não cabem todas num único espaço desse jornal, que me mostram com simplicidade como é possível amar no dia a dia. Elas me fazem crer que eu não estou sozinha e que ninguém precisa se sentir sem sorte no amor, quando tem amigas e parceiras na vida.


domingo, 5 de janeiro de 2014

Coisas que aprendo nos livros 2


Elegia

Teu sorriso se abriu como uma anêmona
entre as covinhas do rosto infantil.
Estavas de pijama verde,
nas almofadas verdes,
os pezinhos nus, as pernas cruzadas,
pequenina,
como um ídolo de jade
que teve por modelo uma princesa anamita.
Tuas mãos sorriam,
teus olhos sorriam,
o liso dos teus cabelos pretos sorria,
e mesmo me sorriste,
e foi a única vez...


Não pude calçar, com beijos, os teus pezinhos,
e não pudeste caminhar para mim...
Mas é bem assim que meus sonhos te possuem.


Estava no Rio, em um dos lugares que eu mais amo estar: o sebo Berinjela. Já tinha garimpado algumas pérolas quando me deparei com Magma desenhos de Poty. Confesso minha ignorância de não saber até então que o grande JGR tinha um (ao que me parece o único) livro de poemas. Qual não foi maior ainda minha surpresa quando ao folhear o livro do comecinho, como quem se reserva a reverenciar página por página e não ir logo querendo chegar no miolo, no meio ou no fim, me deparo com uma dedicatória assinada - para um certo senhor R.M (vou preservar a identidade desse senhor já que não sei os motivos pelos quais esse tesouro foi parar no Sebo) - que pertencia à filha de JGR: Vilma Guimarães Rosa. Sei não, mas fiquei com a impressão de que tinha um pedaço do escritor aqui em casa.

Lianne La Havas | Is Your Love Big Enough? (Official Video)



voz linda da piula!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Amor guardado (ou um quase poema ridículo)



Guardo o meu amor, por hora, para não desperdiçá-lo em lágrimas, dissabores ou em vasos vazios. Guardo meu amor dentro do rio das memórias, para que elas não me permitam esquecer que nem tudo está perdido. Guardo o meu amor nos olhos de Antonia, no seu sorriso de três anos, que guarda a inocência da vida, essa matéria que nos leva a crer até mesmo em fada do dente. Eu guardo como quem vê, como quem ouve, chora, come e sonha e, mesmo assim nada entende. Fica esperando o tempo nublado jogar a torrente, que não vem. Guarda como quem está represado, tão repleto de amor que não busca, não procura e nem acha. Um amor que se basta. Um amor que só se sente.

Eu guardo meu amor cansada. Tem vezes que pesa, tem vezes que é quase nada. Guardo porque ele me pertence e sem ele eu seria uma coisa assim meio aguada e com rima forçada. Eu guardo porque embora haja gente por aí que acha que amor é "mi mi mi", eu acho que amor é um negócio de tanta amplitude que eu nem ouso nominar disso ou daquilo. Só me reservo ao direito de amar. Mesmo sendo de um jeito meio torto, daqueles que espera ligação no dia seguinte, meio que acha que amor não muda nada, mas faz a gente querer mudar, pra melhor e pra além de si, melhor do que já foi e do que ainda será. 

Mas amor serve mais se não for sozinho, então tem uma hora que a gente precisa encontrar um ponto de intersecção, para assentar as expectativas em alguma coisa que pode ter vários lados, como um polígono com muitos ângulos de visão. Uma mínima seta indicando um caminho. (Um perfume de rosas na escuridão da noite já prenuncia a existência da rosa, pois não?)

Pois sim, eu guardo o meu amor por hora. Guardo como quem ama o silêncio e o sonho. Guardo porque quando não há mais nada lá fora, cá dentro, eu sei que há amor, enfim.