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domingo, 26 de janeiro de 2014

Quando alguém perde um grande amor

Foto: Sebastião Salgado



Hoje eu vi o amor doer, Babe. Uma amiga - a minha amiga que gosta de abraçar os outros e que às vezes parece uma andorinha frágil, noutras uma águia superprotetora - perdeu o seu grande amor. Quarenta anos que eles se conheciam e se encontravam e se reencontravam nos caminhos da vida. Ele já estava doente um tempo e, todos os dias, eu via nela um frescor de esperança que contrariava todos os diagnósticos. Ela não era alheia à realidade dos fatos, aos problemas quase intransponíveis que ele vinha encarando. Durante as visitas ao hospital ela falava com alegria sobre um simples olhar que ele dirigia a ela. Até mesmo quando ele chorava ou ensaiava algum outro tipo de emoção em meio à perplexidade do corpo inerte, ela encarava como um foguetório de melhora. Era bonito de ver, Babe. E era triste, e eu me envergonho agora de pensar assim, porque às vezes eu achava que era uma quimera.

Mas não era ilusão. Toda a esperança que ela tinha, toda a alegria no olhar e todo o sonho de que ele se recuperasse era real porque baseava-se no grandioso respeito de continuar acreditando; de continuar persistindo, de enxergar a vida como uma possibilidade e não como um simples caminho para a morte. Eu tenho a impressão de que ela foi aprendendo a amar aquele homem  a cada ano, a cada um dos quarenta anos em que ficaram juntos, ela subia os degraus do desapego, do desespero de querer morar junto, de querer ter filhos, de querer. Porque no amor, às vezes, o querer é um desencontro, Babe, com o que (já) se tem; que é, simplesmente, o que cabe no sentir pelo outro. E hoje, eu vi que o companheiro dela, o homem grande e de tez morena que me dava carona no seu velho Fiat branco e falava que eu deveria comprar um carro, e ria com simpatia pelo amor que sinto pelos gatos, partiu deixando nela não só e unicamente um rastro de solidão, como é de se esperar quando um dos amores parte dessa vida; porque ele partiu deixando nela o amor que ela sentia; um amor que resistiu ao tempo, às intempéries e aos olhos alheios; um amor que não é desses retirados de revistas ou de novelas, é um amor que nasceu, cresceu e criou asas e os deixou livres para amar um ao outro como cada um poderia ser. E esse amor, eu sei, é maior que a tristeza que ela hoje está sentindo. E que eu sei também que um dia atrás do outro a tristeza vai ceder espaço para todo o resto, ou seja, tudo o que eles foram e viveram um para o outro, viverá nos olhos e nos abraços que ela ainda dará por onde ela passar.

Fiz essa carta para alguém que, certamente, já nem lembra meu nome. E a entreguei à minha amiga Lili, a mulher e companheira que foi do seu grande amor. Ela chorou e guardou a carta. Eu também chorei. Mas o amor existe.


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