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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Levanto a saia



Sou mulher. 

Levanto a saia para sentir a luz. E a minha pele sentir o calor do sol. Sou mulher e guardo uma estranha mania de querer proteger o mundo das doenças, das guerras, do pranto e da morte. E, por não conseguir isso o tempo inteiro, choro. E as lágrimas lavam o mapa do meu rosto, descendo pelo pescoço, escorrendo até o vale dos seios. Sou mulher e não costumo parar o curso do rio e do sal que sai dos meus olhos. Sinto até não haver mais lágrimas, só lembranças. Memória oceânica de outros choros, outros sonhos, outros vazios. Misturo tudo e às vezes nem mais sei porque estou chorando. Ou para quem. 

Levanto a saia para alguns homens. Para esquecer da solidão por alguns instantes. Alguns homens. Alguns dias. Alguns homens. Alguns meses. Alguns homens. Alguns anos. Uma vida inteira. Alguém que às vezes esqueço o nome. OUtros, escrevo o nome no mapa do meu coração. Homens bandeirantes. Homens e seus machados. A cortar o bem pela raiz. Homens que não sabem chorar. E, se o fazem, encurtam o curso das lágrimas, para não perder tempo. Eu levanto a saia para o desejo. Troco a solidão por um gozo, como um miserável que troca a miséria por um pedaço de pão, uma nesga de carne. Levanto a saia porque tenho o coração escancarado. Dessangro-o em cartas de amor sem destinatário.

Levanto a saia para não deixar o vento passar incólume. O vento e a poesia que sopra às vezes tão intensamente que traz sentido no caos. Levanto a saia para dançar um blues, e deixar a música entrar. Levanto a saia porque a taça de vinho faz calor lá embaixo. Levanto a saia para fazê-lo acreditar que é o melhor entre todos de todos; e dos povos, dos índios e dos astronautas. Levanto a saia para manter os braços e mãos e a atenção metódica e detalhista sobre todas as coisas sempre ocupadas; porque a mim, não me é permitida a distração de viver.

Levanto a saia para fazer filhos e depois para deixá-los nascer. Levanto a saia para proteger os filhos. Ensinar-lhes coisas que depois eles desdenharão para desenhar seu próprio rio, seu caminho, para descobrir outros sóis e outras peles. Levanto a saia para deixá-los sair e odiar o amor que sentem por mim.

Levanto a saia para enxugar o suor do meu rosto; do lavrador que lavra a palavra no papel e colhe tempestades.

Levanto a saia porque me resta pouca vergonha e muita fome.

Sou mulher.

Um comentário:

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

Simplesmente "olhos de ressaca", simplesmmente maravilhoso. Quando eu for grande feito você, quero saber escrever metáforas iguais às suas.