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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os filmes que eu ainda não vi

Eu, Mário e Moacy, na ocasião do lançamento do seu livro sobre o Fluminense


Desde a primeira vez em que nos vimos, ele já preservava aquele olhar acolhedor, como se fôssemos velhos conhecidos. Moacy e sua barba branca, Moacy e seus olhos vivos por trás das grossas lentes dos óculos. Moacy e seu sorriso sereno. Nossos encontros se deram, inicialmente, através dos blogs, eu, Carito e Moacy Cirne nos tornamos leitores diários uns dos outros. E, como toda boa etiqueta “bloguística” pede, comentávamos sistematicamente as publicações uns dos outros. Foi Carito quem me deu a notícia no dia 11 passado. O telefone tocou e a voz grave de Carito disse: "Sheyla, Moacy morreu". Sem cumprimentos prévios. A notícia era mais importante. A perda reverberava dentro da gente. Na mesma hora pensei: quer dizer então, que nunca mais vamos tomar os porres de água mineral com gás lá em dona Sílvia? Eu, você e ele?

É que fizemos isso algumas vezes, lá pelos idos de 2008 e 2009. Sua sempre companheira Fátima, o levava de carona até a Confeitaria e ficávamos lá, tomando água mineral com gás e conversando, conversando, conversando. Por ocasião de sua enfermidade e da necessidade de se recolher, fomos obrigados a dar uma parada nesses encontros. Mas sempre nutrimos a sensação de que seria provisório. Aliás, não ingerir bebida alcoólica nesses encontros era uma espécie de pacto, de parceria pela sua melhora. Ele não podia beber cerveja, então não bebíamos também.

Moacy costumava me chamar de "Menina Menina", assim mesmo, dobrado. Eu achava engraçado e me sentia mesmo uma menina. Uma menina inocente e aprendiz diante daquele "balaio porreta" de informações que o Moacy tinha para nos oferecer, sem nenhum tom professoral ou sem nenhuma nesga de exibicionismo. Pelo contrário, às vezes, os três empolgados em alguma conversa, ele quase pedia licença e quase pedia desculpas por expor suas opiniões e a larga experiência acumulada na vida, na poesia, nos filmes que assistiu lá em Caicó, nos anos de docência no Rio de Janeiro.

Ele representava para mim um mundo inteiro de livros e filmes, poesia, militância e vida a descobrir. Eu sempre me sentia em dívida com Moacy naquilo que ele ainda poderia me ensinar. E sempre imaginava o que ele acharia desse ou daquele filme que porventura eu já tivesse assistido. Mas, estar com ele naquelas tardes lá na Confeitaria ou então receber suas sempre gentis palavras de incentivo no meu blog sobre o que eu escrevia, era sempre um atestado de sua grandeza; de que eu teria que viver ainda mil anos e assistir mil filmes para me aproximar do brilho de sua estrela pessoal.

Agora Moacy se foi e me deixou essas lembranças. E me deixou seus livros, suas listas dos filmes que eu ainda não vi, dos clássicos, de westerns, de poemas, de livros, dos diretores, de canções, de tantas coisas que eu sei que só tive a chance de ver através dos olhos de Moacy. Por isso, por mim e por tantos outros, ele vive.

Texto publicado originalmente hoje no Novo Jornal


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