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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Manual da Paquera no Carnaval





Gosto muito do silêncio das flores. Explico: não sou contra quem faz, mas tenho cá minhas reservas a conversar com plantas. Meu “diálogo” com elas se resume a aguar todos os dias, afofar a terra de vez em quando, colocar um adubo e voilá! Elas sorriem para você. Pode parecer coisa de maluco achar que uma rosa vermelha está sorrindo - tanto quanto achar que ela está lhe ouvindo - mas, todas os dias em que chego no jardim e dou uma boa esguichada de água da torneira, ao menor sinal de contentamento de uma folha, uma pétala ou um galho, eu já imagino o sorrisão aberto. As plantas conversam com a gente no silêncio dos gestos. Elas dão respostas incríveis ao mínimo cuidado. Basta ficar atento. Gosto de receber flores. Não aquelas mortas que a gente coloca num jarro com prazo de validade. Gosto de receber flores no meu jardim. De acordar de manhã e ver mais um botão desabrochando. O verde mais verdejante das folhas. Não tem preço.

E o que é que flores têm a ver com o título desse texto? Tudo, se você imaginar que se você é daquelas pessoas que gosta de brincar carnaval e vai se aventurar no imenso jardim de cores das fantasias, do ouro do sol e da cerveja e que todas aquelas pessoas são uma planta ávida por adubo (leia-se diversão, prazer, contentamento) então estamos falando da mesma coisa. Pessoas são como plantas. Especialmente no carnaval. Precisam de bastante hidratação e um pouco de sombra, de vez em quando, também não é má ideia. E, como há sérias restrições na comunicação a dois no meio daquela imensa barulheira, um sorrisão para a plantinha do lado já surte um grande efeito.

Um aviso aos navegantes da folia: discutir relação, falar sobre restituição do imposto de renda, conversar sobre ex-namorado, fechar uma entrevista de trabalho ou perguntar como vai a prima que está morando no Japão não são bons temas para se desenvolver no meio da multidão, que só quer brilho e alegria. Vá lá que às vezes alegria meio forçada, meio sem sentido e totalmente comprometedora à saúde do fígado. Mas enfim, carnaval é carnaval não é? Então vamos seguir o protocolo e ser feliz no meio da rua.

Dia desses, treinei os cuidados com as plantinhas numa prévia carnavalesca. É vero que bate uma dúvida danada se o carinha com cara de botão está olhando para você ou para seu amigo gay que está do seu lado, e que  não é de se jogar fora e até você pegaria se fosse o caso. A dica é simples: olha mais uma vez. Se ele continuar olhando, tenta averiguar se é mesmo na sua direção e pede para o amigo (gay) ir comprar uma cerveja nessa hora. Se ele segurar o olhar, então é pra você mesma. O passo seguinte, como não há muito o que se dizer numa situação dessas é abrir o sorrisão e esperar que ele esteja a fim de oferecer uma hidratação adequada ou quem sabe até fazer uma adubação mais completa. Agora o resto é com vocês. Bom carnaval para quem vai e bom carnaval para quem fica.

texto publicado hoje no Novo Jornal


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O amor é uma gaveta (& outras coisas)

cabras montanha foto aqui


Quando a falta de palavras é uma opção, tudo bem. Não é segredo para ninguém que eu amo o silêncio. Tenho verdadeiro horror da verborragia, do exibicionismo estéril, de luz muito acesa em cima de mim. Mas quando o mergulho interno me leva para as águas profundas das páginas em branco, eu me calo por tristeza de não conseguir dizer o que eu estou sentindo. 

É um troço muito doido isso porque flutuam palavras, frases, expressões, parágrafos inteiros - quiçá um livro - por dentro. No entanto, as palavras emudecem quando chegam no céu da boca ou na ponta dos dedos. Uma matéria para entregar e eu sinto medo de não conseguir traduzir o olhar e a fé de todas aquelas Marias. Eu sempre acho que não consigo traduzir tudo o que eu sinto e vivo quando converso com pessoas que nem que seja por alguns segundos se entregam e confiam em mim, se deixam levar pela minha voz, meu pedido e falam de coisas que eu nem imaginava que fossem dizer. É um troço muito doido mesmo porque, ao mesmo tempo em que eu me ressinto da falta de palavras, eu penso que nem sempre elas são suficientes para traduzir os sentimentos, a confiança, o respeito, o carinho, a raiva, a decepção, enfim, essas coisinhas humanas que regem e atormentam a gente.

Tem um conto que eu quero fazer. Tem um conto dentro de mim que não sai e não é como tomar laxante né? A gente tem que esperar a hora, o momento. E eu não estou falando de inspiração, que eu não acredito nessas coisas. Eu acredito em trabalho, em comprometimento, em uma vontade imensa de ser quem você é e assumir os riscos. Escrever é difícil. Sobretudo, como disse Jorge Luís Borges, numa conversa com um amigo, que a escrita só expressa singularidade quando há a distinção interna entre quem é você e quem é o outro. Daí eu fico pensando nisso. Eu penso tanto que seria quase capaz de fazer um poema. Mas só saem ideias mal acabadas. Caminhos inversos. Não, caminhos "em" versos. Sacou?

É que eu sei, como disse o Milton Hatoun em algum livro dele, que às vezes os nossos desejos só se realizam no outro. E eu amo tanto o outro como a mim mesmo. Eu amo no sentido de respeitar, de não incomodar com o meu silêncio, quiçá com minhas palavras vãs. É algo que eu aprendi & não foi fácil. Não é fácil até hoje. Não é fácil desejar o fragmento dos outros. Eu penso que o amor só se realiza mesmo quando há um fluxo constante de coisas acontecendo dentro das coisas. Só fragmento não dá. Impossível. Uma gaveta não é só uma gaveta. Ela precisa ter meias ou blusas ou outras quinquilharias para ser uma gaveta. O amor é uma gaveta. Tem pessoas que não entendem isso. Eu nem sempre entendo isso que estou dizendo. Fato. Eu só sinto muito. Fato.

Alarm





Perfeito!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Que venham outros beijos (*)






Gostemos ou não, telespectadores ou não, as novelas brasileiras têm ao longo de décadas feito parte da vida dos brasileiros; ora costurando, ora descosturando os costumes, valores e cultura do nosso país. São elas as principais responsáveis por "vender" o Rio de Janeiro como a cidade maravilhosa que é para o mundo todo, assim como também outros conceitos nada lisonjeiros e cheios de pastiche como, por exemplo, a  reprodução preconceituosa e caricata do  sotaque e do comportamento do nosso povo do Nordeste. Mas tem coisas mais graves. De uns dez anos para cá, os grandes astros das novelas têm sido os vilões. Se antes os atores e atrizes corriam risco de serem linchados na rua por conta das maldades que faziam quando vestiam a personalidade maligna de seus personagens, atualmente é o contrário. Vilões como o Félix, interpretado brilhantemente por Matheus Solano, ganham fã clube e seus bordões são repetidos em todas as esferas da sociedade. Ouvia gente falar que assistia a novela Viver a Vida só para ver Félix.

Félix e Niko protagonizaram no último capítulo o beijo gay mais esperado até então na história da teledramaturgia brasileira. Não que tenha sido o primeiro beijo gay da TV; já havia ocorrido algo semelhante entre duas atrizes numa novela do SBT. Mas o fato é que ninguém assiste às novelas do SBT, então este beijo é realmente considerado como o primeiro beijo gay que, certamente, uma significativa parte do Brasil assistiu. Muitos comemoraram. Outros, como era de se esperar torceu o nariz.

As novelas brasileiras têm cada vez mais dado ênfase aos personagens que se destacam por caminhos, digamos, não muito convencionais. Seja em busca do dinheiro fácil; ou, se não tão fácil assim, que seja regado a muita tramoia, mentira, traição, maldades, inveja e até mesmo assassinatos. Não preciso ir muito longe e lembrar da personagem Carminha, interpretada por Adriana Esteves, que era a concretização da maldade. O personagem Félix não foi diferente. A fórmula era a mesma. Passou três quartos da novela fazendo maldades. A redenção para ele veio através do amor. E, finalmente, aconteceu o beijo.

E eu acho lamentável que nessa altura do campeonato, a rede Globo seja obrigada a emitir nota oficial justificando o beijo gay entre os personagens. Porque a mim não há necessidade de justificativas. Mais lamentável ainda que esse beijo possa "ofender" os costumes e valores da família brasileira. Ora, se é perfeitamente tolerado assistir nas novelas o sequestro de um bebê recém-nascido, que logo em seguida é jogado numa caçamba de lixo ou então assistir a uma mulher esfaqueando um homem todo amarrado em cima de uma cama, então eu pergunto: que mal há em se assistir afeto? Não há nada de horrendo, torpe ou violento num beijo, seja ele dado por um casal hétero ou gay. Deixemos a hipocrisia, o preconceito e a intolerância de lado e que venham outros beijos, outros afetos.


(*) Texto publicado ontem no Novo Jornal

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Coisas que irritam a pessoa



sempre achei esse gesto do dedo um acinte, uma ofensa feia e deselegante a quem quer que seja. mas, véi, na boa, tem algumas pessoas/situações que merecem ao menos que mentalmente façamos isso, já que na real eu não teria coragem.

você chega num balcão de atendimento, seja de um estabelecimento comercial, de uma clínica ou de uma instituição pública. a pessoa que, em tese, deveria saber atender você, te olha com cara de cu, mascando chicletes e dá graças ao senhor pelo telefone tocar para ela não ter que te dar atenção. aí ela solta a pérola: "um minutinho"... como assim? um minuto tem 60 segundos. nem 15, nem 63. sessenta segundos. então, não existe minutinho. minuto é minuto, poxa!

tem desdobramentos: daí você fica esperando e tal. e ela desliga e o telefone volta a tocar e advinha quem tem prioridade? o telefone, claro. você, que é gente, que está ali na frente dela, que está de pé, esperando, não é prioridade, definitivamente. se não está do outro lado da linha, então aguente!

você dá bom dia para a pessoa, ou as outras variações, boa tarde boa noite, que valha. e ela não responde de volta. pelo contrário, emudece total. fica te olhando com um outro tipo de cara de cu, como se retrucar com boa educação um bom dia fosse "gastar" bom comportamento.

você está no ônibus, nem tão lotado assim, vá lá, mas, entre atropelar a pessoa ou passar por ela pedindo "com licença", e ela finge que não ouviu. nem mesmo finge que você é um fantasma e está lhe soprando algo no ouvido. e quer saber quando isso é mais irritante? quando é justamente na porta de saída do ônibus. porrán! você pede parada, se dirige à porta e pensa que a pessoa que lá está, plantada em frente (algumas até se sentam no batente) vai descer também e, nada. a porta se abre e ela sequer se afasta um pouco para deixar o desinfeliz passar. respira fundo, respira fundo, mentaliza coisas boas: um pudim de leite, uma brigadeirinho, um gatinho alegre e saltitante, cheiro de livro e segura na mão de deus e vai!