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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O amor é uma gaveta (& outras coisas)

cabras montanha foto aqui


Quando a falta de palavras é uma opção, tudo bem. Não é segredo para ninguém que eu amo o silêncio. Tenho verdadeiro horror da verborragia, do exibicionismo estéril, de luz muito acesa em cima de mim. Mas quando o mergulho interno me leva para as águas profundas das páginas em branco, eu me calo por tristeza de não conseguir dizer o que eu estou sentindo. 

É um troço muito doido isso porque flutuam palavras, frases, expressões, parágrafos inteiros - quiçá um livro - por dentro. No entanto, as palavras emudecem quando chegam no céu da boca ou na ponta dos dedos. Uma matéria para entregar e eu sinto medo de não conseguir traduzir o olhar e a fé de todas aquelas Marias. Eu sempre acho que não consigo traduzir tudo o que eu sinto e vivo quando converso com pessoas que nem que seja por alguns segundos se entregam e confiam em mim, se deixam levar pela minha voz, meu pedido e falam de coisas que eu nem imaginava que fossem dizer. É um troço muito doido mesmo porque, ao mesmo tempo em que eu me ressinto da falta de palavras, eu penso que nem sempre elas são suficientes para traduzir os sentimentos, a confiança, o respeito, o carinho, a raiva, a decepção, enfim, essas coisinhas humanas que regem e atormentam a gente.

Tem um conto que eu quero fazer. Tem um conto dentro de mim que não sai e não é como tomar laxante né? A gente tem que esperar a hora, o momento. E eu não estou falando de inspiração, que eu não acredito nessas coisas. Eu acredito em trabalho, em comprometimento, em uma vontade imensa de ser quem você é e assumir os riscos. Escrever é difícil. Sobretudo, como disse Jorge Luís Borges, numa conversa com um amigo, que a escrita só expressa singularidade quando há a distinção interna entre quem é você e quem é o outro. Daí eu fico pensando nisso. Eu penso tanto que seria quase capaz de fazer um poema. Mas só saem ideias mal acabadas. Caminhos inversos. Não, caminhos "em" versos. Sacou?

É que eu sei, como disse o Milton Hatoun em algum livro dele, que às vezes os nossos desejos só se realizam no outro. E eu amo tanto o outro como a mim mesmo. Eu amo no sentido de respeitar, de não incomodar com o meu silêncio, quiçá com minhas palavras vãs. É algo que eu aprendi & não foi fácil. Não é fácil até hoje. Não é fácil desejar o fragmento dos outros. Eu penso que o amor só se realiza mesmo quando há um fluxo constante de coisas acontecendo dentro das coisas. Só fragmento não dá. Impossível. Uma gaveta não é só uma gaveta. Ela precisa ter meias ou blusas ou outras quinquilharias para ser uma gaveta. O amor é uma gaveta. Tem pessoas que não entendem isso. Eu nem sempre entendo isso que estou dizendo. Fato. Eu só sinto muito. Fato.

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