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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Que venham outros beijos (*)






Gostemos ou não, telespectadores ou não, as novelas brasileiras têm ao longo de décadas feito parte da vida dos brasileiros; ora costurando, ora descosturando os costumes, valores e cultura do nosso país. São elas as principais responsáveis por "vender" o Rio de Janeiro como a cidade maravilhosa que é para o mundo todo, assim como também outros conceitos nada lisonjeiros e cheios de pastiche como, por exemplo, a  reprodução preconceituosa e caricata do  sotaque e do comportamento do nosso povo do Nordeste. Mas tem coisas mais graves. De uns dez anos para cá, os grandes astros das novelas têm sido os vilões. Se antes os atores e atrizes corriam risco de serem linchados na rua por conta das maldades que faziam quando vestiam a personalidade maligna de seus personagens, atualmente é o contrário. Vilões como o Félix, interpretado brilhantemente por Matheus Solano, ganham fã clube e seus bordões são repetidos em todas as esferas da sociedade. Ouvia gente falar que assistia a novela Viver a Vida só para ver Félix.

Félix e Niko protagonizaram no último capítulo o beijo gay mais esperado até então na história da teledramaturgia brasileira. Não que tenha sido o primeiro beijo gay da TV; já havia ocorrido algo semelhante entre duas atrizes numa novela do SBT. Mas o fato é que ninguém assiste às novelas do SBT, então este beijo é realmente considerado como o primeiro beijo gay que, certamente, uma significativa parte do Brasil assistiu. Muitos comemoraram. Outros, como era de se esperar torceu o nariz.

As novelas brasileiras têm cada vez mais dado ênfase aos personagens que se destacam por caminhos, digamos, não muito convencionais. Seja em busca do dinheiro fácil; ou, se não tão fácil assim, que seja regado a muita tramoia, mentira, traição, maldades, inveja e até mesmo assassinatos. Não preciso ir muito longe e lembrar da personagem Carminha, interpretada por Adriana Esteves, que era a concretização da maldade. O personagem Félix não foi diferente. A fórmula era a mesma. Passou três quartos da novela fazendo maldades. A redenção para ele veio através do amor. E, finalmente, aconteceu o beijo.

E eu acho lamentável que nessa altura do campeonato, a rede Globo seja obrigada a emitir nota oficial justificando o beijo gay entre os personagens. Porque a mim não há necessidade de justificativas. Mais lamentável ainda que esse beijo possa "ofender" os costumes e valores da família brasileira. Ora, se é perfeitamente tolerado assistir nas novelas o sequestro de um bebê recém-nascido, que logo em seguida é jogado numa caçamba de lixo ou então assistir a uma mulher esfaqueando um homem todo amarrado em cima de uma cama, então eu pergunto: que mal há em se assistir afeto? Não há nada de horrendo, torpe ou violento num beijo, seja ele dado por um casal hétero ou gay. Deixemos a hipocrisia, o preconceito e a intolerância de lado e que venham outros beijos, outros afetos.


(*) Texto publicado ontem no Novo Jornal

Um comentário:

Nika Florence disse...

Sem comentários, Damadeshangai. Lastimável que algo assim necessite ser novela das nove para conscientizar... Uns odeiam, outros aplaudem, alguns indiferentes, mas... assim é a vida e tem-se de aceitá-la como ela é, diria Nlson Rodrigues. É tudo uma questão de valores culturais. Já houve tempo em que era comum e a maioria sabe disso se leu com atenção a História e a Filosofia de nossos antepassados: guerreiros aos pares, filósofos aos pares. Tudo questão de valores e que, em seu momento, é aceito como tal, sem restrições, sem preconceito. Pelo que se sabe, Xantipo sabia e não há registro de que tenha reclamado.Viva a burrice humana...