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quinta-feira, 27 de março de 2014

Irma Thomas - Wish Someone Would Care





Fazia tempo que não ía na visão especial e inspiradora da moda de Ana Clara Garmendia, brilhante, incrível! E pesquei a Irma Thomas.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O homem e a escova

Reprodução de quadro de Cândido Portinari


Fazia o caminho de sempre, de todos os finais de manhã da sexta-feira, pelas ruas de Petrópolis. Ao longe, podia ver um homem - daqueles pastoradores de carro que também são pagos para lavá-los no meio da rua - batendo um tapete com uma escova velha. Encostando o tapete no muro, ele escovava com dedicado vigor. Súbito, a escova voou de sua mão para alguns metros de distância. Ele ignorou e passou a bater forte-mente o tapete com a mão. Um trabalhador, pensei, tentando ganhar o pão. Passei perto da escova o suficiente para apanhá-la e entregá-la na mão daquele senhor torrado de sol. Ele, envolto à tarefa, batia no tapete enquanto eu com o braço esticado devolvia a escova. 

- Senhor! Falei baixo, com a mãe ainda esticada. Ele não me olhou. Nem se virou para ver quem era ou o que queria. Com o braço como se qui-sesse me repelir, disse: - Espere!

Não havia o que fazer a não ser deixar a escova mais ao alcance de sua mão, ali no chão, e seguir meu caminho. Ele não olhou para trás. Nada disse e não sei mais o que lhe ocorreu. O gesto distraído e indiferente daquele senhor reverberou em mim como uma seta que atinge um vazo e num único golpe o estilhaça, deixando à vista escombros, pedaços, lembranças e gestos de outros momentos. Tem pessoas assim, como aquele senhor, que passam pelas nossas vidas. As admiramos de alguma maneira, elas nos chamam atenção pelo trabalho, pela beleza ou até mesmo por uma certa vulnerabilidade inerente a quem está no mundo. Daí, a gente para nossa caminhada, se agacha para ajudar, estende e estica a mão lhe oferecendo algo, insiste em por os olhos nela e dar-lhe importância e, no entanto, elas não prestam atenção. Elas não estão prontas para uma gentileza, quiçá um gesto de amor.

Pensei por alguns segundos em protestar pela falta de atenção dele de sequer olhar para mim enquanto o interpelava. Mas entrelacei os pensamentos com o enorme alívio de perceber que qual-quer gesto a mais que me fizesse presente em sua vida, não valeria à pena. Tem pessoas que são assim. Elas passam por nossas vidas e nos apercebemos que desprender algum tipo de atenção ou dedicação a elas não faz o menor sentido. Jamais me furtaria de ajudar alguém se sentir vontade. Mas é preciso sim o mínimo de gentileza e de reconhecimento. Uma reverência nem que seja velada e silenciosa, que pode se concretizar ao menos num olhar de agradecimento, é fundamental para que encontremos a importância dos nossos gestos no outro. Um homem que faz livros, que costura as páginas e o encaderna em papel duro, faz isso pensando no cuidado que o leitor terá em manusear aquele objeto. A costureira que cerze o vestido o faz para que nossos olhos não percebam que ali existiu um rasgão. O gari que limpa nossas esquinas e esvazia nossos depósitos de lixo nas calçadas sonha com uma rua limpa. Enfim, estamos na grande maioria do nosso tempo vivendo em função do outro. Mesmo que esse outro more apenas dentro dos nossos sonhos e ideais.

Texto publicado semana passada no Novo Jornal - 


terça-feira, 18 de março de 2014

A viagem dentro da viagem



Era uma moça que, quando criança, desenhava casinhas com chaminés e nuvens de chuva nas margens dos cadernos. Gostava também de empinar pipas com os amiguinhos, contava segredos às bonecas e sua vó lhe fazia cachos nos cabelos, depois das cinco horas da tarde. Era uma menina que falava com anjos e que nunca conhecera o irmão. Uma moça que desenha, agora, no vazio dos minutos sonhos de empinar pipas e chuvas de silêncio, enquanto se apercebe desse labirinto que é a vida e suas pedras, suas vozes, suas almas, as lembranças, as memórias, o passado, o aqui, o amanhã e uma passagem para um lugar distante dos olhos e tão perto das suas lembranças, talvez de uma outra vida: Buenos Aires.

Uma moça que um dia conheceu um moço que era biólogo e tocava flauta, mas poderia ser pescador. E pescou sua pele e sua saliva, fazendo do acaso uma dádiva; dos dias, um espaço constante, no qual cabiam coisas profusas como uma música no rádio, pão com azeite, cenoura crua, caminhadas na praia, filosofia, café sem açúcar, um cachorro, dois gatos, dormir com a luz do corredor acesa e um, dia, quem sabe, uma longa viagem para o outro lado do mundo. Ele era um moço que transformava o silêncio em compreensão e até no nada fazia existir alguma coisa que não era antes dele. E ele nunca falava em amor, mas queria ter filhos. Três. E não tinha medo de engordar, só não queria esquecer dos nomes das pessoas ou nunca deixar de viver uma vida inteira.

Ela era uma moça que já tinha lido alguns livros de poemas e se perdido tantas vezes em outras coisas bem menos importantes. Gostava do seu jeito simples de fazer amor, gentil nas subidas, atento às curvas. E não reclamavam do mundo, mas tinham impaciência aos gritos surdos das buzinas e da nuvem de poeira. E gostavam de falar dos seus sonhos e fazer perguntas, sem a menor vontade de definições.

Ambos jamais desenharam nas margens dos seus cadernos a crença em amor à primeira vista. Eram mais adeptos às incertezas. Um dia, sabiam, as folhas em branco ficariam todas completas. As perguntas cessam; as dúvidas viajam para outras esquinas. O vento. O olhar. O outono. Tudo viaja. Tudo muda. Os pássaros, as pipas, e os desenhos seguem seu caminho.

para Franck

segunda-feira, 17 de março de 2014

No tempo dos arrepios (*)


Ele sentou à mesa quase na mesma hora em que pedia licença, sem dar a menor chance para que disséssemos que sim ou não. Sentou e pronto. Quando se passa do tempo das sementes, não há tempo a perder, colhe-se os frutos, conta-se as pétalas. A velhice é uma idade em que se encurtam as distâncias. Seu João sentou e já entoou uma conversa, cheio de simpatia e espontaneidade. Daquelas conversas que nos deixa quietas, perplexas e ao mesmo tempo interessadas para saber que rumo tomará. Contou que veio do interior ainda rapazola.

- Era matuto de latir. Disse. Rimos muito com a expressão e chegamos à conclusão que é muito melhor ser matuto, latir e depois aprender a falar do que o contrário. Tinha um irmão, generoso, de quem ele repetiu o nome várias vezes, Luís, que o ajudou no princípio - com sua chegada - no meio, e certamente, sempre estará a postos, até o fim. Coisa bonita é ver gratidão brotando da voz como bolha de sabão ou como a mesma carícia que a música faz aos nossos ouvidos. Mas voltemos à sua história.

Seu João foi trabalhar no antigo sanatório de Natal. O matuto passou nos testes. Poderia ter se tornado, de primeira, chefe do setor do almoxarifado. Mas, como nunca tinha ouvido falar, tampouco sabia do que se tratava um almoxarifado, o superior achou melhor colocá-lo para chefiar os auxiliares de serviços gerais. Para ele, estava ótimo. Vinte pessoas sob o seu comando. Fez um mapa do hospital e botou o povo pra trabalhar. Acontece que no setor da enfermaria tinha uma moça do cabelo grande. Ela chegava no sanatório para trabalhar com a farda da escola. Saia verde, blusa branca. Ele lembra. Dava bom dia para ela. E ela não respondia. No fim do expediente, dava boa tarde e ela, cabisbaixa, não dava o cabimento. Seu João gamou.

Passou seis meses sem receber ordenado então, o irmão Luís dava-lhe uns trocados que ele comprava drops e ía para as festas. Numa dessas, na Praça Gentil Ferreira, seu João encontrou a moça silente de suas paqueras, que aceitou os drops e permitiu que ele lhe deixasse a cinco quadras de sua casa naquela noite. No meio do caminho, pegou na mão dela.

- Senti um arrepio do fio de cabelo até a ponta dos pés. Disse, como se ainda se arrepiasse com aquela lembrança. O namoro e o noivado foram longos: 13 anos. O matuto nunca avançou o sinal, pensando na rigidez dos pais e na decepção que eles sentiriam, caso ele ultrapassasse a ponte dos desejos. A espera valeu à pena. Viveu 30 anos casado com Ieda. Ele dizia ela completava. Foi obrigado a se despedir dela há quatro anos, vencida por um câncer. Morreu quietinha. Preocupada em não dar trabalho. - Não morreu de baladeira, mas morreu como um passarinho. Ele costuma brincar, cheio de saudades, mas sem perder a presença de espírito. Despedimo-nos de seu João acreditando num tempo que destoa do nosso, mas que não está perdido. O tempo do amor, do frio no estômago, da espera, da paciência, do companheirismo. Um tempo em que pequenas coisas davam arrepios.


(Para Gracinha, Geraldo, Margareth e Consuelo)

Crônica publicada terça-feira passada no Novo Jornal.
PS.: Seu João adorou!

sexta-feira, 14 de março de 2014

quinta-feira, 13 de março de 2014

Oração do livramento



Senhor, livrai-me do engajamento às causas monolíticas e monotemáticas e da catequese de ideias. Livrai-me do amor afetado das redes sociais; porque sim, eu amo (os outros), porque sim eu amo (a mim mesma), mas nem por isso preciso sair por aí propalando a falsa ideia de amor absoluto, incondicional, e que amor é o único causador da minha felicidade. E porque sim, eu sou acima de tudo um ser só, nasci só e morrerei só (não sendo num desastre aéreo ou de trem,é claro) e que eu não precise atrelar o meu amor a outrens para que ele exista. Senhor, livrai-me da dependência emocional, te peço com todas as forças do meu coração. 

Aliás, Senhor, livrai-me também do frenesi da felicidade constante e extrema. Antes, consciente da dor e da tempestade, que me alagar no rio das ilusões. Senhor, livrai-me das mensagens sistemáticas da Claro que abarrotam o meu celular. Livrai-me da necessidade de dieta para engordar ou emagrecer. Que meu corpo não seja um templo de visitação aos olhos ciosos pelos corpos das revistas. Livrai-me dos magros tristes e dos gordos invejosos; traz-me a mim somente aqueles que são o que são, sem a competição das calorias.

Senhor, livrai-me das pessoas fluidas, escorregadias, egoístas, descompromissadas; das pessoas que não são sinceras. Senhor, protegei meus meia dúzia de amigos e que eles continuem me aceitando, percebendo, tolerando, rindo comigo, chorando comigo, falando duas horas ao telefone quando a grana tiver curta para fazer isso sem distâncias. Senhor, livrai-me da apenas proximidade virtual - porque eu não tenho mil e duzentos amigos como contabiliza o FB - tal qual eu te pediria para me livrar de um cataclismo ou de um acidente aéreo, por suposto. 

Porque de gente eu quero aproximação e verdade. Não sendo assim, quero mais, senhor, é saber que eu sou sozinha, prescindo de dependência e não tenho medo da tristeza, nem da saudade. Amém.

Para Josephine.

terça-feira, 4 de março de 2014

Thirty Seconds To Mars - Hurricane (Censored Version)





Música, criatividade, polêmica, censura. Jared Leto (ganhador do Oscar de Coadjuvante) vai longe!