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terça-feira, 18 de março de 2014

A viagem dentro da viagem



Era uma moça que, quando criança, desenhava casinhas com chaminés e nuvens de chuva nas margens dos cadernos. Gostava também de empinar pipas com os amiguinhos, contava segredos às bonecas e sua vó lhe fazia cachos nos cabelos, depois das cinco horas da tarde. Era uma menina que falava com anjos e que nunca conhecera o irmão. Uma moça que desenha, agora, no vazio dos minutos sonhos de empinar pipas e chuvas de silêncio, enquanto se apercebe desse labirinto que é a vida e suas pedras, suas vozes, suas almas, as lembranças, as memórias, o passado, o aqui, o amanhã e uma passagem para um lugar distante dos olhos e tão perto das suas lembranças, talvez de uma outra vida: Buenos Aires.

Uma moça que um dia conheceu um moço que era biólogo e tocava flauta, mas poderia ser pescador. E pescou sua pele e sua saliva, fazendo do acaso uma dádiva; dos dias, um espaço constante, no qual cabiam coisas profusas como uma música no rádio, pão com azeite, cenoura crua, caminhadas na praia, filosofia, café sem açúcar, um cachorro, dois gatos, dormir com a luz do corredor acesa e um, dia, quem sabe, uma longa viagem para o outro lado do mundo. Ele era um moço que transformava o silêncio em compreensão e até no nada fazia existir alguma coisa que não era antes dele. E ele nunca falava em amor, mas queria ter filhos. Três. E não tinha medo de engordar, só não queria esquecer dos nomes das pessoas ou nunca deixar de viver uma vida inteira.

Ela era uma moça que já tinha lido alguns livros de poemas e se perdido tantas vezes em outras coisas bem menos importantes. Gostava do seu jeito simples de fazer amor, gentil nas subidas, atento às curvas. E não reclamavam do mundo, mas tinham impaciência aos gritos surdos das buzinas e da nuvem de poeira. E gostavam de falar dos seus sonhos e fazer perguntas, sem a menor vontade de definições.

Ambos jamais desenharam nas margens dos seus cadernos a crença em amor à primeira vista. Eram mais adeptos às incertezas. Um dia, sabiam, as folhas em branco ficariam todas completas. As perguntas cessam; as dúvidas viajam para outras esquinas. O vento. O olhar. O outono. Tudo viaja. Tudo muda. Os pássaros, as pipas, e os desenhos seguem seu caminho.

para Franck

Um comentário:

Rubens dos Santos disse...

..." E os desenhos seguem seus caminhos." - Essa menina menina sabe escutar o desejo das palavras! ...