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segunda-feira, 17 de março de 2014

No tempo dos arrepios (*)


Ele sentou à mesa quase na mesma hora em que pedia licença, sem dar a menor chance para que disséssemos que sim ou não. Sentou e pronto. Quando se passa do tempo das sementes, não há tempo a perder, colhe-se os frutos, conta-se as pétalas. A velhice é uma idade em que se encurtam as distâncias. Seu João sentou e já entoou uma conversa, cheio de simpatia e espontaneidade. Daquelas conversas que nos deixa quietas, perplexas e ao mesmo tempo interessadas para saber que rumo tomará. Contou que veio do interior ainda rapazola.

- Era matuto de latir. Disse. Rimos muito com a expressão e chegamos à conclusão que é muito melhor ser matuto, latir e depois aprender a falar do que o contrário. Tinha um irmão, generoso, de quem ele repetiu o nome várias vezes, Luís, que o ajudou no princípio - com sua chegada - no meio, e certamente, sempre estará a postos, até o fim. Coisa bonita é ver gratidão brotando da voz como bolha de sabão ou como a mesma carícia que a música faz aos nossos ouvidos. Mas voltemos à sua história.

Seu João foi trabalhar no antigo sanatório de Natal. O matuto passou nos testes. Poderia ter se tornado, de primeira, chefe do setor do almoxarifado. Mas, como nunca tinha ouvido falar, tampouco sabia do que se tratava um almoxarifado, o superior achou melhor colocá-lo para chefiar os auxiliares de serviços gerais. Para ele, estava ótimo. Vinte pessoas sob o seu comando. Fez um mapa do hospital e botou o povo pra trabalhar. Acontece que no setor da enfermaria tinha uma moça do cabelo grande. Ela chegava no sanatório para trabalhar com a farda da escola. Saia verde, blusa branca. Ele lembra. Dava bom dia para ela. E ela não respondia. No fim do expediente, dava boa tarde e ela, cabisbaixa, não dava o cabimento. Seu João gamou.

Passou seis meses sem receber ordenado então, o irmão Luís dava-lhe uns trocados que ele comprava drops e ía para as festas. Numa dessas, na Praça Gentil Ferreira, seu João encontrou a moça silente de suas paqueras, que aceitou os drops e permitiu que ele lhe deixasse a cinco quadras de sua casa naquela noite. No meio do caminho, pegou na mão dela.

- Senti um arrepio do fio de cabelo até a ponta dos pés. Disse, como se ainda se arrepiasse com aquela lembrança. O namoro e o noivado foram longos: 13 anos. O matuto nunca avançou o sinal, pensando na rigidez dos pais e na decepção que eles sentiriam, caso ele ultrapassasse a ponte dos desejos. A espera valeu à pena. Viveu 30 anos casado com Ieda. Ele dizia ela completava. Foi obrigado a se despedir dela há quatro anos, vencida por um câncer. Morreu quietinha. Preocupada em não dar trabalho. - Não morreu de baladeira, mas morreu como um passarinho. Ele costuma brincar, cheio de saudades, mas sem perder a presença de espírito. Despedimo-nos de seu João acreditando num tempo que destoa do nosso, mas que não está perdido. O tempo do amor, do frio no estômago, da espera, da paciência, do companheirismo. Um tempo em que pequenas coisas davam arrepios.


(Para Gracinha, Geraldo, Margareth e Consuelo)

Crônica publicada terça-feira passada no Novo Jornal.
PS.: Seu João adorou!

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