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segunda-feira, 24 de março de 2014

O homem e a escova

Reprodução de quadro de Cândido Portinari


Fazia o caminho de sempre, de todos os finais de manhã da sexta-feira, pelas ruas de Petrópolis. Ao longe, podia ver um homem - daqueles pastoradores de carro que também são pagos para lavá-los no meio da rua - batendo um tapete com uma escova velha. Encostando o tapete no muro, ele escovava com dedicado vigor. Súbito, a escova voou de sua mão para alguns metros de distância. Ele ignorou e passou a bater forte-mente o tapete com a mão. Um trabalhador, pensei, tentando ganhar o pão. Passei perto da escova o suficiente para apanhá-la e entregá-la na mão daquele senhor torrado de sol. Ele, envolto à tarefa, batia no tapete enquanto eu com o braço esticado devolvia a escova. 

- Senhor! Falei baixo, com a mãe ainda esticada. Ele não me olhou. Nem se virou para ver quem era ou o que queria. Com o braço como se qui-sesse me repelir, disse: - Espere!

Não havia o que fazer a não ser deixar a escova mais ao alcance de sua mão, ali no chão, e seguir meu caminho. Ele não olhou para trás. Nada disse e não sei mais o que lhe ocorreu. O gesto distraído e indiferente daquele senhor reverberou em mim como uma seta que atinge um vazo e num único golpe o estilhaça, deixando à vista escombros, pedaços, lembranças e gestos de outros momentos. Tem pessoas assim, como aquele senhor, que passam pelas nossas vidas. As admiramos de alguma maneira, elas nos chamam atenção pelo trabalho, pela beleza ou até mesmo por uma certa vulnerabilidade inerente a quem está no mundo. Daí, a gente para nossa caminhada, se agacha para ajudar, estende e estica a mão lhe oferecendo algo, insiste em por os olhos nela e dar-lhe importância e, no entanto, elas não prestam atenção. Elas não estão prontas para uma gentileza, quiçá um gesto de amor.

Pensei por alguns segundos em protestar pela falta de atenção dele de sequer olhar para mim enquanto o interpelava. Mas entrelacei os pensamentos com o enorme alívio de perceber que qual-quer gesto a mais que me fizesse presente em sua vida, não valeria à pena. Tem pessoas que são assim. Elas passam por nossas vidas e nos apercebemos que desprender algum tipo de atenção ou dedicação a elas não faz o menor sentido. Jamais me furtaria de ajudar alguém se sentir vontade. Mas é preciso sim o mínimo de gentileza e de reconhecimento. Uma reverência nem que seja velada e silenciosa, que pode se concretizar ao menos num olhar de agradecimento, é fundamental para que encontremos a importância dos nossos gestos no outro. Um homem que faz livros, que costura as páginas e o encaderna em papel duro, faz isso pensando no cuidado que o leitor terá em manusear aquele objeto. A costureira que cerze o vestido o faz para que nossos olhos não percebam que ali existiu um rasgão. O gari que limpa nossas esquinas e esvazia nossos depósitos de lixo nas calçadas sonha com uma rua limpa. Enfim, estamos na grande maioria do nosso tempo vivendo em função do outro. Mesmo que esse outro more apenas dentro dos nossos sonhos e ideais.

Texto publicado semana passada no Novo Jornal - 


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