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terça-feira, 1 de abril de 2014

A herança que eu não quero ter (*)


"Antigamente os bandidos tinham medo da polícia. Hoje em dia, eles vão para cima. Quando os militares estavam no comando, esse tipo de coisa não acontecia". Ouvi essa pérola sexta-feira passada. Não, eu não estava participando de nenhuma Marcha da Família ou conversando com algum general da reserva. Esse período foi dito por uma senhora de aproximadamente 50 anos, pele escura e engordurada, de ancas largas, sentada no ônibus, conversando com o que talvez fosse seu marido, enquanto não dava a menor bola para uma das mais belas paisagens de Natal, a Via Costeira. Imediatamente saí do meu transe azul, cheio de maresia, para acender a luz vermelha de alerta e preocupação. É viagem minha ou há uma marulhada defendendo a volta do militarismo? Logo, a volta da Ditadura? E eu pensava que isso estava restrito à meia dúzia de gatos pingados 'classemedistas´ equivocados' - que juram que fazem parte da elite - e aplaudem o irresponsável do Bolsonaro e sua homenagem às Forças Armadas por terem "salvo" o Brasil do Comunismo.

Ainda pequena, lembro-me que de vez em quando os militares saíam em marcha pelas ruas de Campina Grande. Um primo, já adulto, tinha que se esconder dentro de casa, simplesmente porque tinha o cabelo grande e poderia ser considerado um "comunista". E olhe que estou falando de 1983. Apenas cinco anos antes de termos nossa Constituição Federal promulgada, que deu fim aos 21 anos de ditadura militar: sinônimo de perseguição e intolerância política; favorecimento de parentes, agregados e simpatizantes; de roubalheira, desvio de verbas públicas, superfaturamento de obras, enriquecimento ilícito (para quem não entendeu ainda, corrupção jamais investigada) e, sobretudo, de mortes até hoje sob o manto do silêncio e das sombras do "suicídio" e provas queimadas. Sem contar no extermínio de povos indígenas, comandadas pelos militares. E assim, eu agnóstica por convicção, levantei as mãos para os céus e disse: "Senhor, perdoai essa senhora! Pois, ela não sabe o que diz!".

Ontem fez 50 anos do golpe que implantou o medo, a perseguição, o silêncio e a repressão no nosso país. E, mesmo após o fim da Ditadura, vivemos uma democracia entre aspas muito bonita no papel. Entretanto ainda perdura uma estrutura autoritária e repressiva. Uma estrutura social e política que faz chacina contra crianças na Candelária; que mata encarcerados no Carandiru; que herdou a máxima que "bandido bom é bandido morto"; que ainda marginaliza preto e pobre; que joga bomba em quem vai para as ruas protestar e que mata pessoas - inocentes - só porque estavam na hora e local errados e morrem por uma bala perdida saída dos revólveres da nossa preparada polícia, como se nada fosse. É essa a estrutura militar que nós temos. É essa a herança que a ditadura deixou. E que eu rogo aos céus que um dia as pessoas exercitem, se não a sua cidadania constitucional, ao menos a sua memória nesse país.

Texto publicado originalmente no Novo Jornal, hoje. 

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