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domingo, 27 de abril de 2014

A serventia da noite (*)



Manhã é um tempo de ação. E de café com pão. Algumas pessoas pegam o ônibus e batem o ponto; outras a vassoura e cozinham feijão. E eu prometo que paro agora com essa rima infame. Já o fim da tarde é um bom tempo para se ter esperanças. Evocar uma musa ou imaginar o cais vestindo-se de crepúsculo, para dourar o olhar e os sonhos. Eu penso que é impossível passar incólume ao pôr-do-sol. Mesmo que não estejamos lá, buscamos os seus mistérios para continuar acreditando no impalpável. Mas, quando a noite chega é tempo de descanso; de dar boa noite à vizinhança e reco-lher os cílios para um abraço. Problema é quando o sono não vem. 

Noite dessas o peso da insônia destrancou meu necessário descanso das horas. Ali, deitada, era capaz de fazer um relatório minucioso dos minutos, do som do ir e vir da minha respiração perfazendo o caminho dos pulmões, do calor que impulsionava meus poros para uma cascata de suor, dos telefones que não tocam em lugar algum, das paredes pálidas de quietude e da luz fraca e artificial do abajur. Eu e o silêncio da noite, quebrado apenas pela sinfonia dos passarinhos, que começaram a cantar por volta das 3h45 da manhã. Eu e o despertar ansioso do sol aqui nas terras de Poty, que começou a pintar de luzes o céu por volta das 4h50. Eu e um punhado de irritação por não conseguir dormir e mais um bom pedaço de frustração por achar que insônia é o mesmo que entrar numa batalha antecipadamente perdida.

Quando eu era pequena, acreditava ainda mais em coisas impalpáveis e dentro dessas coisas acreditava que a noite guardava um mistério. Tanto silêncio assim só podia servir para invadir os pensamentos de um barulho profundo e amargo. Sentia medo do escuro, das sombras desenhadas nas telhas, me sobressaltava com o cio dos gatos lá fora e torcia para que adormecesse logo e, assim, pudesse experimentar de novo o sabor doce do abandono que só o sono é capaz de nos dar. Cresci e a insônia se fez mais presente e os medos mudaram. 

Se por um lado aprendi a trancar as portas das assombrações tão puras e presentes na imaginação dos tempos verdes; por outro, agora, me assombra tanta realidade. Tanta conta para pagar, trânsito para enfrentar, brigas com o relógio, lembrar de refazer as senhas de acesso a isso ou aquilo, de levar gato para veterinário, fazer exames de sangue, ler três revistas e dois livros acumulados na mesa de cabeceira, tentar marcar o dentista, aprender matemática do ensino médio, procurar uma aula de pilates ou yoga, encontrar um novo amor.

A noite serve para duas coisas distintas: para testemunhar grandes acontecimentos ou então para que nada, absolutamente nada aconteça. A insônia é a terceira via e a mais ingrata. Porque nela, não nos é permitido esquecer para, no dia seguinte, recomeçarmos.

(*) texto publicado no Novo Jornal, dia 15/04)

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