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terça-feira, 29 de abril de 2014

Amor nos tempos do celular (*)



O cara manda uma foto pelo celular de uma garrafa de vinho e uma taça cuidadosa-mente dispostas sobre uma mesa de pedra granito, acompanhada de baboseiras do tipo: "Servida?", ou ainda pior, "Gostaria que você estivesse aqui". Não. Ele não mora no Butão e está lamentando a distância. Seria cômico se não fosse trágico pelo simples fato de que esse cara mora a cinco minutos de sua casa de carro; de bicicleta, dá uns doze minutos. No entanto, dá-se ao trabalho de abrir uma garrafa de vinho, fazer uma fotografia, enviar para você numa sexta-feira à noite e não tem o desprendimento para usar o mesmo celular - que te manda mensagens gratuitas pelo "zap zap" - pra te convidar para sair; no pior das hipóteses, ao menos ligar para conversar um pouco e, quem sabe, até te convencer que o "Pinot" chileno pode ser melhor que o Malbec de Mendoza. Mas não, sem chances. E tem mais, você sabe que ele faz isso com mais meia dúzia de outras mulheres, algumas até amigas suas, enquanto permanece solitário em sua casa, mandando "selfies" de sua mesa cuidadosamente arrumada para impressionar.

É claro que eu sei que a "culpa" não é do celular e que outros homens (e mulheres também) têm posturas bem menos narcísicas, e mais objetivas e interessantes. Mas, a verdade é que vem ocorrendo uma inversão estranha de valores. Os celulares hoje em dia fazem praticamente de tudo, mas, contraditoriamente, estão perdendo sua função inicial que era a de aproximar as pessoas. As operadoras de telefonia até contribuem bastante para isso, porque mal te permitem passar um minuto falando com alguém, antes que a ligação caia, ou simplesmente, te oferecem o "bônus" de estarem sempre sem um mísero palitinho de sinal. 

Mas, não sendo a inoperância da telefonia brasileira o obstáculo técnico, reparo que há um certo empobrecimento das relações, no tempo e no espaço, tendo o celular como pivô. Passamos dos "selfies" pessoais, para os "selfies" solitários das garrafas e taças de vinho, dos pets fofinhos, (os pratos de co-mida, graças a Deus já estão meio datados) e das fachadas dos monumentos em lugares para onde viajamos, os quais fazem um escudo da vida que pulsa lá fora. Ganha-se em imagens, perde-se na chance de prestar atenção no real, no gol de placa, de viver a poeira das ruas, as buzinas dos carros. Estamos ocupados demais com o virtual e nem nos damos conta que a vida está passando.

Talvez aquele cara do vinho só queira fazer propaganda de si mesmo. Um sommelier fajuto nas teorias, que se recusa a degustar a vida real. É. O amor nos tempos do celular não tem ressaca porque o vinho é virtual. Mas também não tem olho no olho, conversa, cheiro, tesão. É que o sinal, geralmente, está fraco ou inexistente.

(*) Publicado originalmente hoje no Novo Jornal


Um comentário:

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

Éééééééééé.... que mais poderia eu dizer nessa completa inversão de valores.
É como disse Dr. Flávio Gikovate: no futuro o amor e as relações serão masturbatórios.
Em vez de aproximar, a tecnologia faz um papel inverso e (des)aproxima.