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sábado, 31 de maio de 2014

Daily Mail (ou uma confissão qualquer)


Thom Yorke em frame do clip Lotus Flower (lindo não, a moléstia)


1:27 de um filme do Radiohead (Scotch Mission) no You Tube, que tem 53 minutos. Fellini dorme no canto da cama. Comi 30 gramas de um cereal duvidoso que jura que é integral, mas tem gosto de toddynho. Acabei de escrever um texto do meu trabalho e tenho um outro mais espinhoso para fazer amanhã, sem falta e sem reza e sem perdão. Não dá mais para postergar. Fellini se aproxima de mim e quer deitar no meu colo. Ele sempre faz isso quando não estou escrevendo a trabalho. Gato carente e esperto.

Ainda me recuperando do dia de ontem. Dia estranho. Nasceu bonito, apesar da noite em claro. Levantei cedo para aproveitar bem. Um comprimido sublingual para aplacar uma dor insana no ventre foi o suficiente para passar boa parte da manhã e da tarde no pronto socorro. Alergia. Puts. Não ter direito à analgesia é phoda até pra gente como eu, que tem pés calejados.

Enquanto estive no PS, algumas coisas para observar é claro. Uma moça morena com mechas loiras chega passando mal, tossindo e com uma dor no pulmão. O namorado, só atenção, se pudesse transferia a dor para suas panturrilhas, fortes e duras que eram. O médico baixinho e bonito sugere um raio-X do tórax. Cochilo um pouco, sucumbindo ao sono faltoso da noite anterior, enquanto estava lacerada pela dor. Quando abro novamente os olhos, e o rapaz fala com a enfermeira: "Ela não vai poder fazer o raio-X porque está grávida". Ela não está com uma cara muito boa. Ele parece mais alegre e mais confiante e orgulhoso do feito. Ela continua chorosa e funga de vez em quando. A cara amarrada. Quero dar os parabéns mas ninguém me deu permissão para isso. Cochilo de novo. Acordo mais rápido e ouço o diálogo: "Eu não vou morar na casa dos seus pais de jeito e maneira. Pode tirar o cavalinho da chuva", ele diz, sem tom de briga, mais como uma súplica, coitado. Ela fala bem baixinho, não dá para escutar se concorda ou não, ainda se convencendo de que tudo aquilo é real e que talvez não seja uma boa hora para falarem sobre isso tudo. O soro acaba. Não sei para onde foi o casal. A alergia dá uma trégua. Sigo meu caminho. Quando dobro a esquina fico pensando se agradeci à enfermeira e aos demais. Mais três passos e me lembro que sim, agradeci quando a mal deu para sentir a agulha entrando na veia, no braço direito e agradeci quando ela foi embora, às 13h. Não agradeci à jovem médica, ascéptica e insípida nos gestos, porque ela não me deu chances. Mas teria agradecido, se sim. 

Desisti de Radiohead e ouço agora Beirute. Estou ficando recorrente nos meus gostos. Tento experimentar algo novo aqui outro acolá, mas sempre volto aos favoritos de sempre. E, bom já que esse texto não tem pé nem cabeça, eu acho que se eu encontrasse um homem que dançasse como o Thom Yorke dança em Lotus Flower eu dava um milhão de vezes para ele por um dólar. Pronto falei! 






terça-feira, 20 de maio de 2014

Meu coração é verde e amarelo




* Não morro de amores por futebol. Na verdade, já tentaram me explicar umas 15 mil vezes o que é tiro de meta e, no minuto seguinte, me esqueço. Quem entende, e gosta, fica fascinado porque faz associações extraordinárias do futebol com a física, a matemática, a química e o raio da silibrina. Eu fico olhando e ouvindo e me fascino pelo fascínio alheio porque não entendo tanta paixão por onze+onze homens correndo atrás de uma bola. E se paro para assistir a uma partida de futebol não é por outra coisa se não para olhar as belas e torneadas pernas dos jogadores. Aliás, o time da escalação (quem é mesmo o técnico?) tem vários lindos rostinhos e pares de perna. Mas, voltando à compostura, não morro de amores, não entendo, mas respeito.

E se tem uma coisa que está me irritando muito nesse período é essa onda de vozes nas redes sociais, nas esquinas e nas paradas de ônibus, dizendo que não vai ter o mundial. Vamos ser razoáveis? Vai ter Copa sim. E vai ser no Brasil. E, na época em que foi decidido que a Copa seria aqui, se por acaso o Brasil não tivesse sido escolhido, estava essa mesma horda berrando a lamentar o fato de a Copa não ter vindo para o Brasil e blá blá blá blá.

O fato é que não sou especialista em nada no quesito futebolístico, mas há algum tempo, eu disse aqui nesse meu pedaço de jornal que a Copa seria boa para a Fifa, os políticos e empreiteiros. E, diante das obras de mobilidade que estão atrasadas e algumas nem saíram das promessas, dos prejuízos comerciais que alguns já começam a sentir, dentre outros castelinhos de areia que caem por terra, acredito cada vez mais nisso. Porém, aos amantes do futebol, fica uma dica, o grande legado da Copa para o brasileiro vai ser a conquista da taça. O resto continuará como dantes. 

Não é privilégio da Copa existirem obras superfaturadas, atrasadas, transtornos, chuvas, alagamento, seca, altos impostos, mal emprego do dinheiro para a saúde e a educação, trânsito lento e caótico, calor do cão. Aproveitando a deixa da histeria coletiva, sinceramente, nem tudo é culpa da Copa e nem tudo é culpa do PT! A impressão que dá é que todos aplaudiram e se extasiaram com a vinda da gringada para o Brasil, sem se dar conta da necessidade de preparação a tempo e a contendo para receber visitas em casa. Ora, se você só tem seis talheres, não convide dez pessoas para jantar. Claro que eu sei que não é culpa da população a procrastinação das obras, o emprego de vultosos valores para construção de estádios ou a ingerência no planejamento para "arrumar a casa" por parte de todos os gestores públicos envolvidos nas 12 cidades sede. Mas, convenhamos, se vai ter Copa, então vamos torcer a favor. Vamos deixar de hipocrisia porque quem reclama agora vai adorar “feriar” nos dias de jogos, vai adorar tomar umas e outras e tremular bandeiras verdes porque, afinal, todos temos o coração verde e amarelo.

* Texto publicado, originalmente, hoje no Novo Jornal

terça-feira, 13 de maio de 2014

Humanos (*)





É humano defender-se dos perigos.
Mas a defesa não pressupõe o ataque brutal. A barbárie. Fico estarrecida quando ouço réplicas de discursos fascistas como bandido bom é bandido morto, porque eu penso que a morte não resolve, nem encerra o problema social de violência, tecido há séculos no nosso país. Dentro desse nosso sistema perverso, morre um, nascem vários todos os dias. Se a pena capital resolvesse o problema da criminalidade, os países que adotam essa prática insana não teriam ninguém no corredor da morte.

Muito se tem falado sobre a onda de linchamentos. Lamenta-se a morte da moça que tinha problemas mentais e que morava no Guarujá, Fabiane, de 33 anos, que ainda por cima carregava em um dos sobrenomes, a alcunha da-quele que foi vítima de um dos linchamentos públicos mais famoso da história religiosa do Ocidente: Jesus. Lembrando que ele foi execrado e apedrejado pelos seus pares, os judeus. 

A meu ver, não é só lamentável a morte da Fabiane por conta de sua inocência da acusação de que ela praticava magia e utilizava crianças nos rituais, dentre coisas piores. Existe um viés nessa história que acaba por escamotear a legitimação da barbárie. Fabiane era inocente e não merecia morrer. Mas se ao invés dela, tivessem de fato encontrado a suspeita dos crimes, mesmo assim ela também não mereceria ser assassinada da forma brutal como foi pelas pessoas. Porque o linchamento, definitivamente, não faz justiça. Muito pelo contrário, ele aniquila a possibilidade de vivermos um mundo onde existem leis e regras e, quando essas regras são descumpridas, existem mecanismos de correção e punição que devem ser seguidos e respeitados por todos.

Já fui assaltada. Uma pessoa em desequilíbrio emocional já me fez ameaças de morte. Já fui enganada. Passada pra trás. Já fui traída. Já me deram calote. Faço ideia da dor inescrutável de alguém que perde um filho, uma filha, um pai, mãe, tio, num assalto ou num acidente de trânsito, mas mesmo assim, não encontro legitimidade para pensar igual ao criminoso. Enfim, vivo no mundo real. Entretanto, mesmo discordando, mesmo me incomodando e sofrendo com esse mundo real, não me coloco no direito de fazer o mesmo com os outros; de retrucar na mesma moeda. Senão não seria preciso Justiça, Estado, regras, leis, hombridade, cidadania, consciência. 

Sou contra o linchamento, porque em maior ou menor grau todos os dias tento me lembrar que é preconceito sentir medo de ser assaltada por uma pessoa que se aproxima, só porque ela é negra ou não está vestida com roupas de marca. Sou contra o linchamento porque me envergonho todas as vezes em que rio de alguma piadinha sexista que ridiculariza e diminui as mulheres. Sou contra o linchamento porque sinto muito quando me impaciento com a lentidão dos idosos nos caixas eletrônicos. Sou contra o linchamento porque ele é fruto, ele é o ápice, desses pequenos delitos que cometemos no nosso dia-a-dia. Sou contra o linchamento porque sou humana e, por isso, não sou melhor que ninguém.

(*) Texto publicado hoje no Novo Jornal.

domingo, 11 de maio de 2014

Se não, não é...



Eu te chamei para o quarto. Mas você preferiu a sala. Você sempre dizia que não queria saber, então eu ouvia e ouvia e ouvia. E gostava. Até você reclamar que não sabia de nada. Daí eu falei alguma coisa, daquelas bem íntimas que ficam guardadas dentro do passado, mas que terão rastros até no mais distante futuro. E você mudou seus olhos se calou.

Você reclamou que eu não gozava. Aí eu me soltei e me abri para você como um guarda-sol e você se protegeu dentro dos meus tremores. Meu sexo em flor. Depois, você dormia em silêncio e abraçado, enquanto suas mãos conversavam com o tato das minhas coxas. Às vezes eu queria falar sobre os meus sonhos, mas você queria fazer café preto e arrumar os lençóis.

Eu escrevi cartas que você nunca leu. E ouvi canções que eu acho que você teria gostado de ouvir, mas você não tem muito tempo para outras opiniões e outros sons. Então, eu ouvia sozinha e por nós dois. Eu esperei o dia em que terminaríamos aquele conto juntos. Esperei o dia em que ouviríamos o som das ondas quebrando no mar e a lua cheia testemunhando aquela noite inesquecível que inventaríamos para tornar o mundo mais bonito, mais viável, mais inteiro, com mais poesia e, quem sabe, com mais amor. Mas você desmarcou com o silêncio e o descuido de quem não quer compromisso com agendas, a não ser a do trabalho. Seu porto e sua fuga.

Eu pensava pontos, você não saia das vírgulas. Conversávamos longamente antes e depois dos beijos e debochamos da proximidade como quem não tem noção dos males da distância. Comemos, bebemos, fumamos, e não dançamos tanto quanto eu queria. Não brigamos tanto quanto eu compreenderia seus nãos (e também os sins). Não chorei rios. Mas também não me larguei em gargalhadas.

Eu só quero dizer que não mudaria nada. Só acrescentaria algumas, outras, coisas que tornariam esse estado de lembranças em algo muito mais descalço e vívido. Porque para amar é preciso tirar os sapatos, tomar banho de chuva, fazer da quarta-feira um feriado, se inquietar com as distâncias. Se não, não é amor.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Depois não



E eu não saio de casa mas saio de mim. Porque estou sempre com uma sensação de extra-corpo (não, isso não é uma pergunta... é uma resposta que prescinde de pergunta), uma sensação de que estou muito longe de mim. Longe do que fui. Longe do que quis. Longe dos que foram. Nada salva. Mas ainda sinto os pés pisando no chão. E é frio, arenoso, ou escorregadio. Mas ainda é chão. 

Não tenho medo dos carros andando em filas inconstantes. Não tenho medo da iminência do assalto, tampouco do estranho que me para na rua e me pede um cigarro. Não tenho medo e isso é assustador. Já não sei mais onde nasceu o começo e até quando isso vai. E isso é assustador. Vi dois filmes sobre amor. Desses vividos e guardados dentro da gente e, se você tiver sorte, várias e várias vezes. Desse tipo de amor (e de filmes) que não têm nada a ver com as comédias românticas do mainstream. Eu não acredito no amor como palavra. Eu acredito no amor como um emaranhado de coisas que são tão complexas e diáfanas que o amor não é para ser compreendido em sílabas. Não é palpável. A gente não sabe quando começa nem até onde vai chegar. Só sei que tem horas que faz todo sentido do mundo, depois não.

The Kills - The Last Goodbye