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terça-feira, 13 de maio de 2014

Humanos (*)





É humano defender-se dos perigos.
Mas a defesa não pressupõe o ataque brutal. A barbárie. Fico estarrecida quando ouço réplicas de discursos fascistas como bandido bom é bandido morto, porque eu penso que a morte não resolve, nem encerra o problema social de violência, tecido há séculos no nosso país. Dentro desse nosso sistema perverso, morre um, nascem vários todos os dias. Se a pena capital resolvesse o problema da criminalidade, os países que adotam essa prática insana não teriam ninguém no corredor da morte.

Muito se tem falado sobre a onda de linchamentos. Lamenta-se a morte da moça que tinha problemas mentais e que morava no Guarujá, Fabiane, de 33 anos, que ainda por cima carregava em um dos sobrenomes, a alcunha da-quele que foi vítima de um dos linchamentos públicos mais famoso da história religiosa do Ocidente: Jesus. Lembrando que ele foi execrado e apedrejado pelos seus pares, os judeus. 

A meu ver, não é só lamentável a morte da Fabiane por conta de sua inocência da acusação de que ela praticava magia e utilizava crianças nos rituais, dentre coisas piores. Existe um viés nessa história que acaba por escamotear a legitimação da barbárie. Fabiane era inocente e não merecia morrer. Mas se ao invés dela, tivessem de fato encontrado a suspeita dos crimes, mesmo assim ela também não mereceria ser assassinada da forma brutal como foi pelas pessoas. Porque o linchamento, definitivamente, não faz justiça. Muito pelo contrário, ele aniquila a possibilidade de vivermos um mundo onde existem leis e regras e, quando essas regras são descumpridas, existem mecanismos de correção e punição que devem ser seguidos e respeitados por todos.

Já fui assaltada. Uma pessoa em desequilíbrio emocional já me fez ameaças de morte. Já fui enganada. Passada pra trás. Já fui traída. Já me deram calote. Faço ideia da dor inescrutável de alguém que perde um filho, uma filha, um pai, mãe, tio, num assalto ou num acidente de trânsito, mas mesmo assim, não encontro legitimidade para pensar igual ao criminoso. Enfim, vivo no mundo real. Entretanto, mesmo discordando, mesmo me incomodando e sofrendo com esse mundo real, não me coloco no direito de fazer o mesmo com os outros; de retrucar na mesma moeda. Senão não seria preciso Justiça, Estado, regras, leis, hombridade, cidadania, consciência. 

Sou contra o linchamento, porque em maior ou menor grau todos os dias tento me lembrar que é preconceito sentir medo de ser assaltada por uma pessoa que se aproxima, só porque ela é negra ou não está vestida com roupas de marca. Sou contra o linchamento porque me envergonho todas as vezes em que rio de alguma piadinha sexista que ridiculariza e diminui as mulheres. Sou contra o linchamento porque sinto muito quando me impaciento com a lentidão dos idosos nos caixas eletrônicos. Sou contra o linchamento porque ele é fruto, ele é o ápice, desses pequenos delitos que cometemos no nosso dia-a-dia. Sou contra o linchamento porque sou humana e, por isso, não sou melhor que ninguém.

(*) Texto publicado hoje no Novo Jornal.

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